domingo, 26 de agosto de 2012

Quebra-Cabeça






"O vidro eclode para dar espaço a algo mais simples na esperança de ser mais forte e duradouro.
O teto de vidro se quebra para que as nossas faces encontrem o sol em sua plenitude.
Razão, não há, o momento e o calor existem apenas pelo sentir."

Barsan


Era uma criança ou pelo menos era assim que despretensiosamente nomeou essa fase crescente aos olhos e ao coração. Para tanto, trocou a confusão pela plenitude e fez questão de esquecer durante o percurso os rastros do passado, seu olhar a partir de agora seguiria avante e deliciar-se-ia com o presente sem cogitar o futuro.

Experimentar essa sensação novata chocava-se com a barreira do complicado. No entanto, a impressão de déjà vu a perseguia e sem compreender quais os meios e os métodos a loucura convenceu a razão. O errado virou certo, a chance sobrepujou a dúvida, o medo do clandestino que congelava as mãos deu lugar ao calor do sol acompanhado pelo ressoante "bom dia".

Cada vírgula, cada respiração, cada medo, cada sorriso, cada lágrima, cada passeio de bicicleta, cada atraso, cada toque, cada tensão, cada estiagem, cada tempestade era um pedacinho de vida partícipe peça por peça de um quebra-cabeça de recortes disformes que no fim formaria um desenho simples, sem bordas e colorido.


Thayze Darnieri

Frestas de luz






"Dessa vez era um amor mais realista e não romântico: era um amor de quem já sofreu por amor."


Clarice Lispector



Daniel na Cova dos Leões





"Faço nosso o meu segredo mais sincero
E desafio o instinto dissonante.
A insegurança não me ataca quando erro
E o teu momento passa a ser o meu instante
E o teu medo de ter medo de ter medo
Não faz da minha força confusão..."


trecho da música Daniel na Cova dos Leões, de Legião Urbana


domingo, 19 de agosto de 2012

Breve Manual para Felicidade





Thayze Darnieri


Expectativa é a semente da frustração. O remédio parece simples: não espere e seja feliz! No entanto, no universo do humano, a felicidade é vizinha da esperança, uma vez que, por um movimento quase involuntário vincula-se o riso frouxo e a paz de espírito a um momento, a uma pessoa, a um sentimento ou a um evento. 

Esperar para ser feliz, eis um tempo definitivamente desperdiçado. Remete-me a necessidade contemporânea de resgatar as antigas regras de convivência, entretanto, ao estabelecer manuais de conduta, antes ou agora, a espontaneidade se esvai e leva consigo os sentidos e sentimentos genuínos. Sendo assim, respeitando religiosamente os preceitos da racionalidade, a primeira ação irresistível diante de qualquer oportunidade é pensar, perdeu-se a delícia da naturalidade no impulso.

Para tanto, derramando litros de clichê, aprenda a arte de apreciar um dia por vez, sem cobrar de si e muito menos dos outros a responsabilidade pela sua alegria. Com o passar do tempo e maturidade emocional, um mais um vai invariavelmente se tornará dois e assim por diante, a esperança no conceito perfeito de felicidade mudará de feição e o perfeito brilhará tão perto das mãos que você rirá mesmo quando tudo parecer errado.





1984 II





"O que você faz ou diz não importa: o importante são os sentimentos."


trecho do livro 1984, de George Orwell


Somebody That I Used to Know




"And I don't wanna live that way
Reading into every word you say
You said that you could let it go..."


trecho da música Somebody That I Used to Know, de Walk Off the Earth


domingo, 12 de agosto de 2012

Felicidade de Quarta





Thayze Darnieri


Era quarta-feira, Marina em seu ímpeto quase empurrava o ponteiro do relógio para dar cabo àquele dia mais rapidamente. Depois de um dia enfadonho, lerdo e improdutivo, seu pensar vagava direto para o momento em que poderia finalmente levantar suas pernas e se deliciar com primeiro momento de pausa do dia.

O chefe surtou por quase nada, a mãe não atendia seus telefonemas, o namorado desapareceu do mapa e, para completar, aquela amiga com qual planejava entornar suas insanidades e desesperos desmarcou em cima da hora. Inebriada pela sua sorte, seguia em direção ao ponto de ônibus munida dos fones de ouvido, tocava "Will You Still Love me Tomorow", na voz da Amy Winehouse, ao chegar percebeu uma movimentação estranha, havia mais pessoas do que o habitual, ou seja, sinal que faria a viagem de volta em pé.

Marina acreditava piamente no poder do pensamento, mas estava difícil controlar o seu insconciente reclamando tanto. Demorou pelo menos meia hora até que o seu ônibus apontasse, ela não correu e quando percebeu logo atrás surgia outro com o mesmo destino, esperou e subiu em um lugar bem menos lotado, no entanto, para sua surpresa, havia um único local vago, bem na frente ao lado da catraca. Sentou e agradeceu por sentar. 

Concentrou-se na música e tentou relaxar. Contudo, algo estranho lhe chamou a atenção, o senhor sentado ao seu lado se remexia no assento, balançava a cabeça com um sorriso e volta e meia soltava uma gargalhada sem emitir som algum. Era felicidade genuína, Marina ficou extasiada de alegria ao observar aquela cena rara e viajou por alguns segundos em busca do motivo pelo qual fazia aquele homem tão feliz.

Era sua mania secreta, espiar estranhos e entregar destinos imaginativos. Chamou-o de Mário, por causa do seu perfil carrancudo combinado com um olhar brilhante, ele era um homem por volta dos 40 anos, seu cabelo caía nos olhos, vestia somente bermuda e camiseta ignorando o frio e apesar de não demonstrar qualquer incômodo, não aparentava andar de ônibus todos os dias.

Mário estava desolado, no dia anterior sua primeira namorada após o divórcio havia lhe dispensado, ela sabia o quanto tinha sido difícil para ele se envolver novamente e o surpreende com um "não dá mais". Como assim? Ele a amava só não sabia como demonstrar tão prontamente, tinha esquecido como era simples namorar porque ainda carregava o peso do casamento. Ele a amava com absoluta certeza, só agora sabia, não tinha chorado pelo fim do casamento tanto quanto naquela última noite pelo fim do namoro. 

O telefone tocou, não passava das sete horas da manhã, quem haveria de ser. 

- Camila? Camila! - disse Mário com a voz sonolenta.

Sim, era Camila. Um suspiro de esperança tomou o coração de Mário. Ela parecia nervosa, mas não quis falar o assunto, disse somente que precisavam conversar. A ansiedade tomou conta do seu peito, ela iria pedir pra voltar, afinal, não fazia o menor sentido eles ficarem separados.

Camila o convidou para tomar café na padaria onde costumavam ir aos domingos, quando ele dormia na casa dela. Não questionou o destino, a razão, a vontade, simplesmente foi. Ao chegar, Mário viu que ela já o esperava e vestia aquele olhar familiar de quem tem algo de bombástico a dizer, após um cumprimento confuso e uma tentativa frustrada de falar amenidades. 

- Estou grávida! - solta Camila, sem jeito e visualmente confusa.

Mário abre um sorriso claro, livre e límpido para surpresa de Camila. Ele seria, finalmente, pai, nada poderia ser mais perfeito. Ela confessou que teve muito medo e seu primeiro impulso foi fugir de si mesma e dele, por isso terminou sem aviso prévio.

O resto do dia de Mário foi um desastre, Marina teria orgulho do seus problemas e silenciaria todas as suas reclamações bobas. Entretanto, nada seria capaz de tirar o sorriso do seu rosto, afinal, ele seria pai, melhor do que isso, seria o melhor pai do mundo, repetia para si toda vez que soltava uma gargalhada afônica.

Marina chegou ao seu destino, desceu do ônibus e sem saber o real motivo da felicidade daquele homem, desejou, por um momento, aquela felicidade verdadeira. Quis tanto que foi, sem precisar de explicação.



Olhar sem filtros







"Enxergar beleza onde ninguém mais a enxerga, é talento de quem vê além do óbvio. E de pessoas assim que a gente precisa se cercar na vida."


trecho do texto A Arte do Elogio, do blog Casal Sem Vergonha

Construção






"Sentou para descansar como se fosse um príncipe
Comeu arroz com feijão como se fosse um máximo
Bebeu e soluçou como se fosse máquina
Dançou e gargalhou como se fosse o próximo"


trecho da música Construção, de Chico Buarque

domingo, 5 de agosto de 2012

O pedreiro e a puta



Thayze Darnieri


"Um pedreiro na cama e um intelectual na sociedade", disse os quatro ventos Tati Bernardi. Para tanto, vejo como o compatível feminino perfeito para o ditado que tenta exprimir o dito desejo masculino da tal mulher perfeita "uma puta na cama e uma dama na sociedade"

Afora o óbvio, aponto essas expressões idiomáticas além do sexo, vislumbro os dois universos primários de um relacionamento: o círculo menor, o casal e o círculo maior, os dois e o resto do mundo. Nesse sentido, a sintonia percebida no círculo maior depende do equilíbrio conquistado no círculo menor, uma vez que, perante o nível de intimidade e empatia experimentado pelo um mais um este conectará automaticamente a  uma percepção social predeterminada e aceita. 

Afinal, relacionar-se é muito mais do que demonstra as comédias românticas ou conjecturas dos familiares e dos amigos. Romanceando os ditados, entrevejo "puta" e "pedreiro" como a demonstração pura e simples da exploração conjunta e simultânea e o, consequentemente, revelar do instinto mais profundo, sem qualquer medo ou receio de que aqueles olhos te vejam como a maioria.


1984 I





"A heresia das heresias era o bom senso. E o aterrorizante não era o fato de poderem matá-lo por pensar de outra maneira, mas o fato de terem razão. Porque, afinal de contas, como fazer para saber que dois e dois são quatro?"


trecho do livro 1984, de George Orwell

Morrer, Viver, Morrer




"Besouro, Moderno, Ezequiel.
Candeeiro, Seca Preta, Labareda, Azulão.
Arvoredo, Quina-Quina, Bananeira, Sabonete.
Catingueira, Limoeiro, Lamparina, Mergulhão, Corisco!
Volta Seca, Jararaca, Cajarana, Viriato.
Gitirana, Moita-Brava, Meia-Noite, Zambelê..."


trecho da música Sangue de Bairro, do Chico Science





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