sexta-feira, 25 de março de 2011

Diário de uma Paixão XII



Ficamos sentados em silêncio, contemplando o mundo à nossa volta. Levamos uma vida inteira para aprender isso. Parece que somente os velhos conseguem ficar sentados desse jeito, um ao lado do outro sem nada dizer, e ainda sim se sentirem contentes. Os jovens, irrequietos e impacientes, têm sempre de quebrar silêncio. É um desperdício, porque o silêncio é puro. O silêncio é sagrado. Ele aproxima as pessoas, porque só quem se sente confortável ao lado de outra pessoa pode ficar sentado sem falar. Esse é o grande paradoxo.” 


trecho do livro Diário de uma Paixão, de Nicholas Sparks


quinta-feira, 24 de março de 2011

Fake Plastic Tree



"But I can't help the feeling
I could blow through the ceiling
If I just turn and run
And it wears me out, it wears me out..."


trecho da música Fake Plastic Tree, da banda Radiohead

quarta-feira, 23 de março de 2011

Mente liberta



"É livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato."


Art. 5º, IV, da Constituição Federal, de 5 de outubro de 1988

terça-feira, 22 de março de 2011

Pelo temor



"Os homens hesitam menos em ofender aos que fazem amar do que se fazem temer, porque o amor é mantido por um vínculo de obrigação, o qual devido a serem homens pérfidos, é rompido sempre que lhes aprouver, ao passo que o temor que se infunde é alimentado pelo receio do castigo que é um sentimento que não se abandona nunca."


Nicolau Maquiavel

segunda-feira, 21 de março de 2011

Quem me roubou de mim? II




Por amá-lo de verdade, conhecedora de quem ele era e do que ele pretendia, a moça até que tentou mudar. Mas as exigências eram demais. Ela precisou abrir mão de quem ela era. Não havia honestidade na proposta para o seu crescimento, mas uma competição. O rapaz não sabia ficar sem competir. Em tudo ele queria ser o melhor. E, em nome de um amor que ele julgava sentir por ela, empenhou-se por torná-la órfã, com o objetivo de curar um pouco de sua orfandade.” 


trecho do livro Quem me roubou de mim?, de Fábio de Melo


domingo, 20 de março de 2011

Aquele talvez...




"Eu prefiro viver com a incerteza de poder ter dado certo, que com a certeza de ter acabado em dor."


 Caio Fernando Abreu

sábado, 19 de março de 2011

Fidelity





"I never loved nobody fully
Always one foot on the ground
And by protecting my heart truly
I got lost in the sounds
I hear in my mind
All these voices
I hear in my mind all these words
I hear in my mind all this music
And it breaks my heart..."


trecho da música Fidelity, de Regina Spektor

sexta-feira, 18 de março de 2011

Diário de uma Paixão XI


Eu era um objeto sem sentimentos, uma enciclopédia dos quem, quês e ondes da vida dela, quando na realidade o que faz tudo valer a pena são os porquês, as coisas que eu não sabia e não podia responder.” 


trecho do livro Diário de uma Paixão, de Nicholas Sparks

quinta-feira, 17 de março de 2011

Cine Belas Artes




Thayze Darnieri



Hoje, morre (ou pelo menos fecha suas portas para um profundo sono) o Cine Belas Artes, aos 68 anos. E com ele agoniza o tradicional cinema de rua esmagado progressivamente pelos cinemas em shoppings, bem como o conceito de cinema arte, ao passo que nesses estabelecimentos em voga repete-se infinitas vezes filmes do circuito comercial e minimiza o deleite do cinema pelo prazer das boas histórias.

Apesar das muitas vezes, aos meus olhos, que estive no número 2423 da Rua da Consolação, quando me diverti no interior de suas salas, que dispensam a numeração e homenageiam seus espaços com nomes importantes para arte brasileira: Vila-Lobos, Candido Portinari, Oscar Niemeyer, Aleijadinho, Carmem Miranda e Mario de Andrade. Lembro-me, particularmente, da primeira e última vez: nos idos do mês de janeiro de 2009, conheci o então HSBC Belas Artes, quando comecei por desfazer o preconceito estabelecido pelas obras de Woody Allen ao ver Vicky Cristina Barcelona e, a derradeira vez, aconteceu no último domingo como moradora da cidade de São Paulo, como despedida não poderia esquecer do lugar que transformou os meus parâmetros com relação ao cinema. Ambas, acompanhada pelo responsável por amadurecer alguns conceitos e abrir meus olhos para um outro estilo de cinema e, principalmente, por estimular-me a escrever sobre as percepções e sentimentos provocados pelas experiências vividas diante da telona, além de ensinar-me frequentar o cinema ainda que desacompanhada.

Sinto a perda e torço para o seu reestabelecimento. O aflorar da boa arte não deve morrer em silêncio!

quarta-feira, 16 de março de 2011

Então, né!



“Será que vai chover? Sei não, o tempo anda meio maluco!
Quem nunca participou de um diálogo como esse? Arrisco até a ir além e perguntar quem não disse ou ouviu algo parecido nos últimos dias?
Não sei se é por falta de assunto ou simplesmente por uma questão de hábito. O fato é que as pessoas costumam repetir sempre os mesmo papos, diariamente, ano após ano. É o famoso lugar-comum.” 


trecho da crônica Lugar-Comum, de Maria Paula, publicada em 10 de dezembro de 2006 no jornal Correio Braziliense



terça-feira, 15 de março de 2011

Criatividade Criminal



"Quanto mais normas, maiores as condições de infringi-las".


Márcio Pugliesi

segunda-feira, 14 de março de 2011

A Origem



Thayze Darnieri


A memória emotiva é um mecanismo traiçoeiro da mente. Quando menos espera regressa das profundezas um sentimeno por ora esquecido, quando percebe está esforçando-se para reconquistar as lembranças inesquecíveis ou quando o tempo vacila paira a dúvida entre o limite do real e imaginário. Para tanto, a explicação popular para o fenômeno vislumbra o funcionamento perfeito da memória, no entanto, como nos ambientes físicos, se imperioso for, opta-se por dispor os móveis em posição diferente ou guardar os pertences no escuro e inacessível sótão.

Em A Origem, um filme de pura ficção científica, o enredo acontece na mente durante os sonhos. Absolutamente fantasias científicas não participam da família de nenhum dos estilos da qual dedico afeição, entretanto, o poder de manipulação esquemática no tangível mental e a influência involuntária da vontade diante de memórias que remetem diretamente à reflexão racional perante a confusão emocional conquistam pontos favoráveis.

Dinâmico e ágil merecia uma atuação mais intensa de seus personagens, contudo, a construção dos ambientes e a fotografia transformam-no em um filme interessante pela perspectiva visual. Por vezes complicado de compreender o desenrolar das teorias, por vezes instigante ao entender o universo literalmente paralelo destrinchado pelos ladrões de ideias, concomitante ao fato de demonstrar a possibilidade de fazer ficção científica sem obrigatoriamente ser frio e calculista.

domingo, 13 de março de 2011

Misery VIII



A crueldade podia ser compreendida. Quanto à loucura, não havia argumentos.” 


trecho do livro Misery, de Stephen King

sábado, 12 de março de 2011

Clube da Luta




Thayze Darnieri


Todo humano é egoísta, sem exceção. Por instinto natural o homem busca a auto-preservação, antes de preocupar-se com as mazelas do próximo foca em gozar seus benefícios e solucionar suas problemáticas. No entanto, em momentos, distante de um olhar contextualizado, o egoísmo traveste com asas e propõe o bom mocismo essencial, mas ao observar mais profundamente verá o rastro formado pelas plumas do falso anjo.

Para tanto, afora questões maniqueístas, vislumbrando o homem pelo homem, o egoísmo não configura conduta funesta, mas sentimento natural. O humano procura mecanismos de defesa, sucesso particular, espaço físico individual, reflexão por ânseios e dúvidas através da própria perspectiva, responsabilidade por escolhas, no entanto, como o absoluto não exerce força real, o indíviduo equilibra-se de acordo com suas necessidades e vontades.

A crise existencial do personagem vivido por Edward Norton o conduz a observar vidas extremas e drásticas, no entanto, não satisfeito em apenas ver, toma a dor do próximo como sua a fim de amenizar a sua inquietante dor interna. O egoísmo levou a perceber a sua vida apenas por sua perspectiva, sem se preocupar com o próximo, findou-o em uma overdose de si e ultrapassou os limites do que pertencia a ele com o reflexo do universo que acontece ao seu redor.

Clube da Luta perfila-se no rol dos filmes clássicos merecedor de repetecos, uma vez que, devido a complexidade do enredo, a cada sessão sempre ocorrerá um detalhe ou percepção diferente da última. Brad Pitt veste a carapuça de Brad Pitt somado à perversão, Edward Norton convence em níveis ultrajantes deixando o espectador pertubado com a sua confusão e, por fim, apaixonando-me progressivamente pela estranha Helena Bonham Carter, brilhante e figura constante nas minhas últimas escolhas cinematográficas.


sexta-feira, 11 de março de 2011

Quem me roubou de mim? II






A vida humana é uma constante experiência de travessia. Estamos em êxodos contínuos, em processos de deslocamentos intermináveis, porque, enquanto estivermos vivos, seremos convidados para o movimento que nos proporciona a superação de estágios, condições e atitudes."


trecho do livro Quem me roubou de mim?, de Fábio de Melo


quinta-feira, 10 de março de 2011

Um certo servilismo




“Aqueles que superam os outros em prudência e razão, mesmo que não sejam superiores em força física, aqueles são, por natureza, os senhores; ao contrário, porém, os preguiçosos, os espíritos lentos, mesmo que tenham as forças físicas para cumprir todas as tarefas necessárias, são por natureza servos. E é justo e útil, que sejam servos, e vemos isso sancionado pela própria lei divina. Tais são as nações bárbaras e desumanas, estranhas à vida civil e aos costumes pacíficos. E será sempre justo e conforme o direito natural que essas pessoas estejam submetidas ao império de príncipes e de nações mais cultas e humanas, de modo que, graças à virtude destas e à prudência de suas leis, eles abandonem a barbárie e se conformem a vida mais humana e ao culto da virtude. E se eles recusarem esse império, pode-se impô-lo pelo meio das armas e essa guerra será justa, bem como o declara o direito natural que os homens honrados, inteligentes, virtuosos e humanos dominem aqueles que não têm essas virtudes."


( SEPULVEDA [1550], apud: LAPLANTINE, F. Aprender Antropologia. São Paulo, Brasiliense. p. 39)

quarta-feira, 9 de março de 2011

Diário de uma Paixão X




Você não pode viver a sua vida para os outros. Você tem de fazer o que for certo para você, mesmo que isso machuque as pessoas que você ama.” 


trecho do livro Diário de uma Paixão, de Nicholas Sparks

terça-feira, 8 de março de 2011

Up





"Only after you lost everything that you free to do anything."


Tyler Durden, personagem do filme Clube da Luta (1999)

segunda-feira, 7 de março de 2011

Bruna Surfistinha

 

Thayze Darnieri


Julgar o mérito cabe somente ao autor da ação. Melindra-me a ideia do superficial julgamento alheio aos acontecimentos e razões, uma vez que, ao visualizar e contextualizar a atitude de outrem inevitavelmente os preceitos intrínsecos à personalidade virão a frente da imparcialidade. A vida é uma série de tropeços e acertos, caminhos, se certos ou errados, sem volta e a partir deles reinventa-se um novo ser humano a cada dia.

Bruna Surfistinha assim como eu, sentia-se incompatível ao que deveria ser o natural seio familiar. Conduta consideravelmente comum quando se trata de adolescentes, entretanto, mais corajosos ou quiçá mais insanos que a maioria, os pés dirigiram-se para fora, as costas mostravam que jamais voltaria para àqueles sentimentos estranhos que tanto feriam. No entanto, decisões iguais não conduzem ao mesmo resultado, eu tentei de uma forma e ela buscou outras trilhas, hoje, somos apenas a reinvenção daquela menina estranha ao seu ninho materno.

O filme Bruna Surfistinha baseado no "best-seller" (com nome mais interessante) O Doce Veneno do Escorpião, diferente do livro tenta dar seguimento a vida de Raquel Pacheco em ordem cronológica e explicar as razões por ter escolhido a prostituição, sendo que era uma garota de uma família classe média alta de São Paulo. Contudo, o roteiro surpreende, visto que apesar do clichê de abuso ao corpo feminino em filmes brasileiros, este que trata da trajetória de uma garota de programa propõe a nudez de forma menos apelativa que outros. E, por fim, causou espanto a atuação de Deborah Secco, talvez por Bruna Surfistinha não se encaixar exatamente aos personagens de sempre da atriz.



domingo, 6 de março de 2011

Coisas de Brasília





Que cidade é essa, onde logo nas entradas você vê as placas avisando: “Senhores Visitantes, aqui nós não costumamos buzinar”. Que cidade é essa, onde os motoristas param o carro para o pedestre passar? Que cidade é essa, onde há anos é proibido fumar em locais fechados?

Calma, a cidade também tem coisa ruim. Ninguém – nem mesmo quem chega de fora – faz questão de criar amizade. Aquele ditado – “ado, ado, ado, cada um no seu quadrado”, parece ter surgido aqui. Nestas bandas, ninguém dá “bom dia”, nem “boa noite” ou “boa tarde”.

[E antes que alguém diga que sempre deu e continua dando, façamos a ressalva: ok, há exceções].

Diz-se que, aqui, antes de sair, a pessoa olha pelo buraco da fechadura para ver se há alguém no corredor. Se houver, a pessoa não sai de jeito nenhum – só para não ter que dar “bom dia” (ou “boa tarde” ou “boa noite”) a outra.

Boa ou má, esta é Brasília, a capital do país, uma cidade-síntese do Brasil. Aliás, Brasília é Brasil em latim. Cidade feita de outras cidades, de gregos e goianos, imigrantes de Oropas, França e Bahia, candangos e brasilienses, pioneiros e piotários, ladrões e concursados, gente fria e hipócrita e também gentes finas, elegantes e sinceras.

Brasília não tem uma identidade, tem várias. O pastel com caldo de cana na rodoviária com certeza é uma. Outra coisa: pode estar o maior calor do mundo, até à beira de uma piscina você encontra um aspone metido em paletó e gravata, posando de 'otoridade'.

Outra coisa de Brasília é o dia assim dividido: o amanhecer gelado, o meio-dia fervendo e a noite friinha. Brasília tem esse samba do tempo doido. Aqui, até o clima é doidão. As quatro estações, aqui, são duas – a seca e a chuva.

O tempo aqui é muito louco. Às vezes, você passa numa pista onde está chovendo e vê que na pista ao lado está fazendo sol – você vê a dança do sol com a chuva, como a anunciar o casamento da Viúva. E a Viúva (União) mora em Brasília, e é todo mundo de olho nela.

Em Brasília, é comum você ligar para um amigo que mora na quadra, perguntar “A chuva já chegou aí?” e ele responder “Chegou, mas já foi embora” ou então “Ainda não chegou, estou esperando por ela”.

Toda cidade tem uma padroeira, e no dia dela é feriado municipal. Mas poucos sabem quem é a padroeira de Brasília, até porque o único feriado local é o Dia do Evagélico (30/11), e evangélico não tem essa coisa de padroeiro e padroeira – o negócio deles é com Jesus.

Para o poeta Nicolas Behr, autor de “Travessia do Eixão”, e para o maluco do Renato Russo, a padroeira de Brasília sempre foi Nossa Senhora do Eixão, a santa que protege aqueles pedestres que todos os dias atravessam as setes faixas do Eixão – ela os livra dos sete palmos de chão.

Mas, se você é católico e não sabe quem é a padroeira desta cidade, anote aí: é a Senhora Aparecida, a mesma do Brasil, celebrada em 12 de outubro, feriado nacional. Apesar de termos aqui uma bela Catedral, neguinho prefere ir rezar nas igrejas de Piri (Pirenópolis).

E o padroeiro de Brasília, sabe quem é? De tanto ler e ouvir falar em JK, você pensa que nosso padroeiro é ele, o santo Jota Kristo (copyright for my brother Vicente Sá). De tanto passar pela rodô, Nicolas Behr acha que o padroeiro do DF é o Padim Ciço.

Mas o padroeiro da capital brasileira é o italiano Dom Bosco. Sim, o padroeiro é Dom Bosco, mas ninguém pede nada a ele. Talvez porque ninguém saiba que é ele. Ou, talvez, por desconfiar que seja um santo de pau mouco, ou melhor, de ouvidos moucos, que não quer saber de ouvir pedidos.

Em Brasília, pra Dom Bosco, só se faz é pagar... Seja católico, evangélico, ateu ou PN, você paga para Dom Bosco o colégio, a academia e a pizza (a pizza é a mais baratinha, custa só 1 real, porque não precisa sentar, você come em pé mesmo, pá-bufo!).

Por falar em pizza, outra coisa bastante apreciada por aqui é bomba. Em pelo menos dez cidades satélites e outras dez cidades do entorno, bomba é sanduíche. Aliás, é o sanduba mais vendido em todo o DF. A coisa é tão forte, pesada, potente e calórica que inicialmente, há 30 anos, foi apelidada de “bomba atômica”; depois explodiu como “bomba”. No entorno do DF e em cidades satélites, há pelo menos 100 lanchonetes com o nome de “bomba”.

E por falar em cidades satélites, não lhe deram asas e elas não estão nos eixos, pois não estavam nos planos, ou melhor, não estavam no plano, o Plano Piloto. E chamá-las de cidades satélites foi proibido por lei, aliás, por um decreto. Elas devem ser chamadas de Regiões Administrativas, as RAs.

Aqui, radar é pardal. É um pardal que fica preso, não voa e multa, não tem pena. Mas há também outro pardal, aquele que fica solto, solto até demais; ele todo dia aparece na sua janela, entra na sua sala, pula à sua mesa e come uma migalhinha sem ser chamado. Ele também fica nos postes, mas é o tipo que voa, tem pena, não multa ninguém.

Você já percebeu quantos nomes diferentes Brasília tem para as coisas? Rotatória é balão, um balão que não voa. Retorno é tesoura, que tem até no diminutivo – tesourinha – mas não corta nada, ao contrário, ela é que é “cortada”. Encanador é bombeiro, bombeiro hidráulico, para ser mais exato.

Aqui, quando você ouve falar no Venâncio, no Nilson Nelson, no Gilberto e até no Gilbertinho (com toda essa intimidade), você sabe que não é de pessoas que estão falando, mas sim de lugares. “Eu vou no Gilberto”, “O Nilson Nelson tá cheio”, “Gilbertinho só dá maluco”.

Aqui, a pessoa diz que mora do Lago e não é tida como doida, mas sim como rica. Se alguém falar que passou o domingo na Água Mineral, não significa que ela passou o domingo tomando a água mineral propriamente dita, mas sim que passou o dia no Parque Nacional de Brasília.

Estar nos eixos não significa que a pessoa esteja andando toda certinha, mas que está passando do Eixinho de Baixo para o Eixinho de Cima. Quando se diz “Ela está no Plano”, não se quer dizer que a pessoa esteja nos planos, mas sim que está no Plano Piloto.

O brasiliense chama o pai do amigo de tio, o amigo é véi, algo muito bom é cabuloso, estranho é tenso. Brasiliense que é brasiliense brinca ou já brincou debaixo do bloco e fala “antes de ontem” em vez de anteontem.

Taguatinga é Taguá, Samambaia é Samamba, Vicente Pires é VIP. Bicicleta é camelo, algo estranho é tenso e o pavimento térreo é pilotis. Brasiliense que é brasiliense usa “tipo” a cada cinco palavras. Você vai marcar um horário com uma pessoa e ela fala de lá: “Pode ser tipo dez horas?”.

E outro dia um brasiliense me ligou e disse: “Ô, xô te falar, já tô nas quebrada; vim de baú e tô do lado de um pirulito, na parada ao lado do Agarrã”. Uma pessoa que não conhece Brasília jamais iria entender essa frase. Ao decifrar este enigma, antes que ele me devorasse, cheguei a uma conclusão que meus parentes baianos já sabem há muito tempo: definitivamente, eu virei um candango, desses que tiram o sábado para lavar o carro. Mais que isso, já estou sofrendo (ou gozando) de brasilite, que é a dor e a delícia de ser brasiliense.

Traduzindo a frase do amigo: esse “ô, xô te falar” é uma expressão que todo brasiliense usa antes de falar qualquer coisa. Descobri que “quebrada” é sinônimo de qualquer lugar e a “parada” na verdade é o ponto de ônibus. Já o ônibus é baú (e o micro-ônibus é zebrinha)...

O mais complicado, na frase do amigo, foi o tal do “pirulito”, que nem todo mundo conhece. Mas soube que é aquele poste de cimento, de uns 2m de altura, que fica ao lado dos pontos, ops, das paradas. É só para colarem cartazes, a fim de evitar a poluição visual.

Por fim, o “Agarrã”. Não pode ser feminino de agarrão. Nem tem nada a ver com rã. Só quando você vê a forma escrita é que você descobre – HRAN, sigla do Hospital Regional da Asa Norte. E aqui o que não falta é sigla. Mas aí é papo para outra crônica. De boa, ou melhor, de borest.


texto Coisas de Brasília, de Marcelo Torres

sábado, 5 de março de 2011

sobre Uberaba

foto: Thayze Darnieri


Thayze Darnieri


O verdadeiro não conhece a distância. Sempre grandes intervalos e muitos encontros valorosos. Para tanto, apesar do afastamento espacial, jamais, nem em tempos conturbados ou encharcadas pela garoa paulistana, deixei de reconhecer no seu olhar a gigantesca e legítima amizade. Invariavelmente, ela acabara por chegar até mim, conheceu de pertinho (quiçá) o meu maior defeito e conviveu com rotinas e danças intrínsecas à minha existência. Desta vez, saí do meu casulo e viajei em direção ao seu habitat para conhecer o que ela tanto contava. 

Uberaba, nome de um rio do município, origina-se do termo tupi "Y-berab" que quer dizer "água clara" ou "rio brilhante". É um município brasileiro do estado de Minas Gerais, na região do Triângulo Mineiro cuja população alcança a casa dos 296 mil habitantes, o que lhe garante o oitavo lugar entre as maiores cidades do estado e uma das cidades que mais crescem no Brasil. 

Depois dela, Uberaba remete-me a dois outros nomes: Expozebu e Chico Xavier. Conta dos idos de 1934 o nascimento de sua principal atração turística: a Expozebu, a maior exposição de gado zebu do mundo. Realiza-se anualmente no mês de maio, atraindo pessoas de várias partes do país e do exterior interessadas na cadeia produtiva da carne e do leite. Reúne mais de 3 mil animais das raças zebuínas - nelore, nelore mocho, gir, guzerá, tabapuã, indubrasil e sindi - para julgamento e premiação.

O mais famoso médium brasileiro, Chico Xavier, não nasceu em Uberaba, no entanto, mudou-se para lá em 1959 e só a deixou em 2002, quando morreu, no que segundo ele aconteceria “em um dia de grande alegria para o povo brasileiro” (data em que o Brasil sagrou-se pentacampeão mundial de futebol em Yokohama, Japão). De origem humilde, tornou-se mundialmente conhecido por sua obra espírita, pelos mais de quatrocentos livros psicografados e pela atenção e carinho dispensados a todos os que o procuravam em busca de auxílio espiritual, na Casa da Prece.


fonte: Wikipédia

sexta-feira, 4 de março de 2011

Cisne Negro




Thayze Darnieri


Sem qualquer preocupação assumo o clichê maniqueísta com bons olhos. Os ingênuos acreditam piamente na absoluta bondade ou os excessivamente realistas julgam por meio da maldade, eu vislumbro o bem e o mal de forma majoritária, creio no humano que distante da perfeição passa por nuances e jamais por extremos. Entretanto, em momentos derradeiros de um passado não tão distante questionei tais acepções, a mente divagava ponta a ponta dos contrários justificando ações aquém do pensamento natural, conheci, finalmente, o pensamento maquiavélico e justifiquei a bondade por culpa.

A bailarina Nina Sayers, modelo de perfeição e equilíbrio conduz facilmente a interpretação do Cisne Branco, entretanto, sua missão é descobrir-se e extravasar o Cisne Negro adormecido no profundo da alma de qualquer ser humano. O enredo do Cisne Negro propõe a fórmula funcional e gasta do embate entre o bem e o mal, nem sempre dispostos de forma clara na personalidade, bem como no decorrer da trama, adiciona-se ao produto final algumas pinceladas de sangue, espaços em branco e o mórbido sentimento primeira bailarina. 

Para tanto, sem se deixar corromper pelas pausas e repetições cansativas, Natalie Portman conduz com a perfeição almejada por Nina o sofrimento pela incapacidade de transformar-se na figura da mulher sedutora e envolvente, como a sua colega de Companhia Lily, vivido pela ótima Mila Kunis. Por fim, impotente na tentativa de refrear a necessidade da comparação, encontro na pesonagem Alice, da mesma Natalie Portman, do filme Closer, o ideal de Cisne Negro frustrado por Nina, também confuso, contudo, mais próximo de  uma coerência plausível.


quinta-feira, 3 de março de 2011

O genial Chaplin





"O caminho da vida pode ser o da liberdade e da
beleza, porém, desviamo-nos dele.
A cobiça envenenou a alma dos homens, levantou
no mundo as muralhas do ódio e tem-nos feito marchar
a passo de ganso para a miséria e os morticínios.
Criamos a época da produção veloz, mas nos
sentimos enclausurados dentro dela.
A máquina, que produz em grande escala,
tem provocado a escassez.
Nossos conhecimentos fizeram-nos céticos; nossa
inteligência, empedernidos e cruéis.
Pensamos em demasia e sentimos bem pouco.
Mais do que máquinas, precisamos de
humanidade; mais do que de inteligência, precisamos de
afeição e doçura!
Sem essas virtudes, a vida será de violência e tudo estará perdido."


Chalie Chaplin, em discurso, no final do filme O Grande Ditador

quarta-feira, 2 de março de 2011

Tempos Modernos




Thayze Darnieri


Se a memória não estiver me traindo: Tempos Modernos (1936), de Charlie Chaplin, é a minha primeira experiência com o Cinema Mudo. O glamour da história do cinema conta que antes de tornar-se estilo, o  cinema mudo era em silêncio devido à inexistência de tecnologia para sincronizar efeitos de trilha sonora às imagens, entretanto, com o passar dos anos e a necessidade sonora, inseriu-se música ou rudimentares efeitos sonoros executados no momento da exibição.

Essa obra grandiosa e encantadora do cineasta britânico Charles Chaplin, cujo seu famoso personagem Vagabundo: um andarilho pobretão de maneiras refinadas e a dignidade de um cavalheiro, sempre vestido com paletó, calças e sapatos desgastados e carrega consigo a bengala de bambu e o chapéu-coco, tenta sobreviver diante ambição do mundo moderno e industrializado. O gênio busca imprimir suas impressões de forma literal: máquina substituindo a força do homem, as facilidades que corrompem e o descaso com o ser humano. 

Impressionou-me a qualidade visual e sincronia, apesar das imagens em preto, a mínima trilha sonora, as poucas vozes narradas e diálogos dispostos como pausas e por escrito entre as cenas. Ainda que os filmes "falados" tenham tornado modelo dominante 10 anos antes do lançamento de Tempos Modernos, Chaplin o maior expoente do cinema mudo, resistiu, uma vez que, com razão, considerava o cinema uma arte democrática e capaz de atravessar as barreiras de linguagem, simplesmente pelo fato de ser mudo.


fonte: Wikipédia



 

terça-feira, 1 de março de 2011

Totalmente só




Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem acabei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.”


Fernando Pessoa



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