quarta-feira, 31 de março de 2010

Fantasia de mulherzinha





Thayze Darnieri


Alguns dias se foram, mas ainda estou pensando em mim naquele vestido. A festa exigia vestido comprido, salto alto, maquilagem, cabelo e os malfadados artigos de pendurar, sendo assim, restava-me apenas respeitar os preceitos e rigores da etiqueta e me compor como pedia o ambiente.

Devo ser a única mulher no mundo que não se gosta em trajes de gala. Obviamente, sinto o glamour provocado por uma peça de roupa, as nuances no trato e a postura apenas pela nova figura no espelho, vejo e percebo as diferenças, contudo, quando visto o resultado considero a liberdade comprometida por um decote e a empolgação por um cabelo.

Quero comemorar a vida loucamente, brindar as alegrias, dançar sem me preocupar, pular e me divertir, distante de um salto que machuca e um vestido que incomoda. E foi o que fiz, olho agora as fotos e presencio partes de uma fisionomia derretida, no entanto, resguardo a fantasia: o que fica não são as imagens, mas a lembrança da satisfação em ver o dia amanhecer dançando.

terça-feira, 30 de março de 2010

Marés





Inspirado na canção Não me deixe só, de Vanessa da Mata


Coisa mais estranha são as coisas simples. Ela pensava isso com sua cabeça encostada no caderno de Física durante o segundo tempo seguido de aula sobre algum assunto que ela já não tinha mais a menor ideia do que poderia ser. Coisa mais estranha são as coisas simples. Ele pensava nisso sentado no canto da quadra de futebol do condomínio esperando a hora do seu time entrar em campo na partida seguinte.

Era festa da amiga dela. Ela tinha colocado um vestido estampado e uma flor no cabelo que dava um ar ainda mais angelical ao seu doce rosto de criança. Ele foi parar lá numa confusão. A festa que seus amigos iam era ali perto, em alguma rua que ele não tinha decorado o nome. Entrou no condomínio e perguntou pela festa ao segurança que apontou uma casa. Lá chegando não encontrou ninguém. Explicou a situação ao porteiro que disse, “entra aí e espera lá dentro”.

Assim ele fez. De cara percebeu que devia estar no lugar errado. Não conhecia ninguém ali. Agarrou um copo de cerveja e foi procurando um canto qualquer pra se esconder. E de repente, como as coisas assim tem que ser, ela estava lá. Dançando com um grupo de amigas, sorrindo o sorriso mais inesquecível que ele tinha certeza que veria em sua vida. E seus olhares se cruzaram.

Nenhum motivo especial. Ele não era o garoto mais bonito ou charmoso do mundo, pelo contrário. Seu jeito meio apalermado o faria talvez até um pouco desinteressante perto aos bonitões do colégio, mas que coisa mais estranha são as coisas mais simples! Naquele momento em que seus olhares se cruzaram, algum tipo de raio cruzou o céu em algum lugar e causou uma explosão que atingiu seus jovens corações.

Ele sentiu o seu disparar na mesma hora em que ela sentiu um calor que percorreu suas costas até o pescoço. Um calor gostoso. E foi isso. Nada mais complexo que isso, nada mais simples que isso.

Meia hora depois o celular dele finalmente tocou. Eram seus amigos já bêbados indicando o endereço certo que ele deveria ter ido. Dois condomínios depois. Tanto lugar pra ele chegar entrar errado... E a vida fez com que ele fosse parar naquela festa, de frente pra aquela menina. Que danado esse acaso.

Não chegaram a se tocar. Nem a ouvir a voz um do outro. Mas ambos saíram de lá flutuando. Enlevados na doce melodia rara do amor sincero. A tal outra festa que ele foi estava bacana, com um monte de gente divertida. Ele riu muito. Ela ficou e dançou até o dia clarear.

Coisa mais simples são as coisas mais simples. Mas vai explicar isso pra quem não consegue dormir.


texto Coisas Simples, o número 6 da série Musicando, de Pedro Neschling

segunda-feira, 29 de março de 2010

Hamlet V




"O que é um homem cujo principal uso e melhor aproveitamento do seu tempo é comer e dormir? Apenas um animal. É evidente que esse que nos criou com tanto entendimento, capazes de olhar o passado e conceber o futuro, não nos deu essa capacidade e essa razão divina para mofar em nós, sem uso. Ora, a não ser por esquecimento animal, ou por indecisão pusilânime, nascida de pensar com excessiva precisão nas consequências."


trecho do livro Hamlet, de William Shakespeare

domingo, 28 de março de 2010

Onde mora a paz?




"A necessidade cada vez mais aguda de ruído só se explica pela necessidade de sufocar alguma coisa".


Konrad Lorenz

sábado, 27 de março de 2010

Noite de vitória

foto: Thayze Darnieri



Thayze Darnieri


Era mais uma noite sem dormir, a consciência gritava: a esperança sozinha não trará seus sonhos pela mão. Queria desesperadamente respostas, entretanto, me desesperava perante a prostração, antes que tomasse níveis irreversíveis era necessário saber as perguntas para formular o urgente plano de resgate.

No silêncio da noite insone, ouço um choro longe dos meus olhos, logo ao lado um coração aparentemente saudável também clamava por novas perguntas. Esta descoberta permearia nossas noites de conversas, reflexões e aconselhamentos mútuos, com o passar das semanas o senso de oportunidade e a vontade de viver retomaram o viço e passaram a combustível de ideias.

A vida anunciava mudanças: o quarto não era mais o mesmo, abandonaríamos o conforto e os mimos do lar, nem a cidade seria igual. Inspirada pela determinação e fôlego dela, bem como a sorte de ainda sobrevoarem a Terra anjos da guarda, começaria do zero e ela iniciaria um novo projeto de vida quando tudo parecia pronto, saí daquele quarto com força o suficiente para as situações-limite ainda desconhecidas.

Hoje, enfim, é dia de celebrar outra vitória resultada da coragem daquela mulher-exemplo. Não é por nada, digo e repito, quando eu crescer quero ser igual a ela!

sexta-feira, 26 de março de 2010

Pra você guardei o amor





Pra você guardei o amor
Que nunca soube dar
O amor que tive e vi sem me deixar
Sentir sem conseguir provar
Sem entregar
E repartir

Pra você guardei o amor
Que sempre quis mostrar
O amor que vive em mim vem visitar
Sorrir, vem colorir solar
Vem esquentar
E permitir

Quem acolher o que ele tem e traz
Quem entender o que ele diz
No giz do gesto o jeito pronto
Do piscar dos cílios
Que o convite do silêncio
Exibe em cada olhar

Guardei
Sem ter porque
Nem por razão
Ou coisa outra qualquer
Além de não saber como fazer
Pra ter um jeito meu de me mostrar

Achei
Vendo em você
E explicação
Nenhuma isso requer
Se o coração bater forte e arder
No fogo o gelo vai queimar

Pra você guardei o amor
Que aprendi vem dos meus pais
O amor que tive e recebi
E hoje posso dar livre e feliz
Céu cheiro e ar na cor que arco-íris
Risca ao levitar

Vou nascer de novo
Lápis, edifício, tevere, ponte
Desenhar no seu quadril
Meus lábios beijam signos feito sinos
Trilho a infância, terço o berço
Do seu lar


música Pra você guardei o amor, de Nando Reis




quinta-feira, 25 de março de 2010

O Direito





O Direito conceitua-se por um sistema de normas de conduta imposto por um conjunto de instituições para regular as relações sociais. Apesar da existência milenar do direito nas sociedades humanas e de sua estreita relação com a civilização, há um grande debate entre os filósofos do direito acerca do seu conceito e de sua natureza. Entretanto, o direito é essencial à vida em sociedade, ao definir direitos e obrigações entre as pessoas e ao resolver os conflitos de interesse. Seus efeitos sobre o cotidiano das pessoas vão desde uma simples corrida de táxi até a compra de um imóvel, desde uma eleição presidencial até a punição de um crime.

O direito é tradicionalmente dividido em ramos: o direito civil, direito penal, direito comercial, direito constitucional, direito administrativo e outros, cada um destes responsável por regular as relações interpessoais nos diversos aspectos da vida em sociedade. A divisão do direito em ramos decorre da importância do método sistemático não significando que na realidade do fato jurídico as normas sejam estanques uma das outras.

A vida em sociedade e as consequentes interrelações pessoais exigem a formulação de regras de conduta que disciplinem a interação entre as pessoas, com o objetivo de alcançar o bem comum e a paz e a organização social. Tais regras, chamadas normas éticas ou de conduta, podem ser de natureza moral, religiosa e e jurídica. A norma do direito difere das demais, porém, por dirigir-se à conduta externa do indivíduo, exigindo-lhe que faça ou deixe de fazer algo, objetivamente, e atribuindo responsabilidades, direitos e obrigações. Compare-se com as normas morais e religiosas, dirigidas precipuamente à intenção interna, ao processo psicológico.

Outra característica a distinguir a norma jurídica é a existência de uma sanção obrigatória para o caso de seu descumprimento, imposta por uma autoridade constituída pela sociedade organizada, enquanto que a sanção aplicada pelo descumprimento da regra moral não é organizada, sendo, ao revés, difusa por toda a sociedade.

Nem toda norma de conduta, portanto, é jurídica. A sociedade atribui a proteção máxima do direito a apenas alguns valores que julga essenciais.


fonte: Wikipédia

quarta-feira, 24 de março de 2010

sem paciência




"Há muitas pessoas de visão perfeita que nada vêem... O ato de ver não é coisa natural. Precisa ser aprendido."



Rubem Alves

terça-feira, 23 de março de 2010

as lágrimas dela




"Todo mundo ficou olhando. Uma mulher chorando causa uma enorme comoção. Eu, particularmente, detesto chorar em público. Porque depois eu fico com o nariz muito vermelho por pelo menos vinte minutos. Disfarçar o choro nunca foi algo que eu pudesse fazer – acreditem, isso é uma coisa muito chata. Eu sempre invejei quem limpa as lágrimas, sorri e todo mundo pensa que não aconteceu nada."


trecho do texto No woman no cry?, de Martha Mendonça, no blog Mulher 7x7

segunda-feira, 22 de março de 2010

o que fica

foto: Thayze Darnieri



Thayze Darnieri


Ouvi a falação até o fim: era um discurso infundado, afirmações sem sentido cuja argumentação foi tornando-se a cada sílaba um recurso inútil. O coração doía pelas falsas ofensas dirigidas a um alguém imune, em contrapartida a dor não cessaria quando o silêncio fosse o diálogo, em mim sobrariam as palavras proferidas por um ser muito estimado dirigidas a outro ser querido.

Sem querer, me vi na posição injusta e idiota de mensurar sentimentos. O amor ou qualquer sentir advindo desta raiz se fortalece por meio de atitudes, uma vez que o tempo logo arrasta para longe até as mais sinceras palavras de bem-querer ao passo que o pronto agir sincero permanecerá por anos, ao ser repetida pela milésima vez naquela história agora mensageira de risadas.

Para tanto, ainda que indigno e ofensivo aquele sentimento derramado sobre mim, sigo a estrada contrária das comparações e da decepção, resigno-me no sentir diferente e igual, ciente que apesar dos descaminhos traz em si um amor que pode se considerar eterno.

domingo, 21 de março de 2010

Tecnólatra






Álcool, tabaco, jogo, sexo e drogas nomeiam o topo do rol de dependências - e censuradas - pela sociedade. Todavia, há outros vícios comumente aceitos que podem ser igualmente nocivos: a dependência do celular, do computador, da Internet e até mesmo do trabalho. O dito tecnólatra apresenta uma relação insalubre com a tecnologia, seja o uso de mensagem de texto, e-mail e mensagem de voz quando o contato pessoal seria mais apropriado, ou limitar o tempo com amigos e família para verificar e-mails, retornar ligações ou navegar na internet.

As novas tecnologias não expõe aos usuários elementos tóxicos, mas reduzem a liberdade e alteram o comportamento social das pessoas. Em contrapartida, as tecnologias não apenas tornam a vida mais fácil, bem como produziram mudanças drásticas nos costumes e hábitos sociais da sociedade moderna.

O consumo excessivo de tecnologia, portanto, se encaixa dentro dos padrões da sociedade moderna e, por isso, o indivíduo não costuma ter consciência de seu problema de adição. Assim, o que começa como uma solução acaba se convertendo em uma conduta obsessiva, que dá origem ao abandono das obrigações familiares, de trabalho e culturais. O problema, hoje, é que estas patologias são cada vez mais freqüentes.


sábado, 20 de março de 2010

o outro lado da rua





"O passado não é aquilo que passa, é aquilo que fica do que passou".



Alceu Amoroso Lima

sexta-feira, 19 de março de 2010

Chopp Brahma Black

foto: Mario Dumay


"Deixe-se levar pelo melancólico "efeito cascata" que a versão morena da top-model dos balcões reserva aos mais pacientes. Antes de mandar o garçom à merda por servir um copo cheio de espuma com aparência de xerume, pare, observe e prepare-se para um cremoso gole. O Black é saboroso, levemente adocicado e ideal para intercalar com os inúmeros copos de loiras geladas que descansam sobre a mesa."


a perfeita descrição do Chopp Brahma Black, de , no blog Resenha em Seis

quinta-feira, 18 de março de 2010

De repente é amor




Thayze Darnieri


A comédia romântica irremedialente segue elementos clichês para apelação emocional: o ator arrebatadoramente charmoso fazendo as honras do par perfeito, a mocinha determinada em suas decisões ao mesmo tempo que perdida em sonhos, arrebatando-os na enchente de coincidências diante da inconcretude do gigantesco amor, por ora impossível, até que chegue o felizes para sempre.

No entanto, não existe maneira de desgostar de um romance. Se o amor é brega, a comédia romântica é o deleite dos cafonas, uma vez que, a reprodução da paixão em histórias fatansiosamente mentirosas derrete qualquer um perante a mínima identificação. Sendo assim, enamorei-me pela trama de De Repente é Amor, sem entender por qual razão o amor de Oliver e Emily me arrebatou.

Um roteiro sem surpresas, embalado por uma trilha sonora incrível e em harmonia com as nuances do enredo, corta a vivência dos dois durante sete anos, perpassando por fases de adolescência, amadurecimento, medos e frustrações, tentativas e insucessos, outros amores e quase casamentos. Divagando, agora, talvez o entusiasmo, naquela época, se devesse a inebriante beleza de um amor impossível frente a possibilidade.




quarta-feira, 17 de março de 2010

mil corações




"Pra que Deus inventou o "dormir"?! Tem muita coisa para fazer nesta vida e os dias tão curtos!"


Marcos Mion, via twitter, @mionzera

terça-feira, 16 de março de 2010

meia tormenta





"Com ar condicionado ligado e celular no módulo vibração. Sem tempo pra nada, um monte de vontades na cabeça, algumas angústias pontiagudas no peito e a dificuldade de assumir que não consigo relaxar. Ainda dormindo, estou cantando um música na cabeça, pensando em criar algo, lembrando algum comprimisso.

(...)

Com o horário trocado, o fígado sendo posto a prova, crise de identidade, distância da terapia, horas dentro do banheiro.

O mundo segue, comigo ou sem.

Tormento de irrelevância, uma auto-cobrança enlouquecedora, como se tivesse por obrigação deixar algo eterno para marcar meu nome nesse planeta."


trecho do texto Tumbanaíba, de Tico Santa Cruz

segunda-feira, 15 de março de 2010

O que se vai





"Talvez seja isso mesmo. Uma fase que se vai com a chegada da necessidade de caminhar com as próprias pernas. É o não se importar com o que se vai, mas com o que vem pela frente. Só me aperta o coração o fato de ninguém ainda ter se interessado (...). Mas tudo bem. Por enquanto ele ainda está ali onde sempre esteve. E eu nunca me canso de olhá-lo."


trecho do texto O que se vai, de Luiz Rivoiro, na coluna Pai é pai, publicado no jornal Folha de São Paulo, no dia 27 de abril de 2009.

domingo, 14 de março de 2010

ensaio de despedida





"Estou na estação há tanto tempo. E sempre tem gente chegando e indo. E sempre tem amor e bala e dinheiro e cama e água e fins de tarde bonitos e brinquedos e catracas com a segurança de uma novidade de sempre. Em alguns momentos fica o equilíbrio terrível de nunca ir. Fica a dor terrível de todo mundo que foi. Fica a ansiedade terrível de todo mundo que tem pra chegar. Agora. Agora. A cada volta de uma piscada eu tenho minha esperança renovada. Mas nenhum desses silêncios chega perto do som que é viver ouvindo o mundo se locomovendo enquanto só tento enxergar de olhos bem abertos sem me mexer. Estar no centro do barulho nunca foi realmente uma solidão."


trecho do texto Parada, de Tati Bernardi

sábado, 13 de março de 2010

Mímica






Thayze Darnieri


Mímica é a arte de exprimir os pensamentos e/ou os sentimentos por meio de gestos. O mímico é aquele que faz uso de movimentos corporais para se comunicar, sem o uso da fala, dessa forma, ela deve ser distinguida da comédia silenciosa, na qual o artista é um personagem sem jeito em um filme ou ato.

Na época do cinema mudo, a comunicação entre os atores e o público era feita inteiramente com mímica, destacado e marcado pelo talento de Charles Chaplin e o seu personagem inesquecível: Carlitos. Com o advento do som nos filmes, o uso de mímica em locais públicos passou a ser feito nos palcos por profissionais talentosos e nas ruas por aprendizes ou profissionais menos requisitados, estes como forma de subsistência.

Entretanto, a mímica também é considerada uma brincadeira tradicional da qual podem participar crianças, adolescentes e adultos. Possui diversas variantes, mas, basicamente, consiste em uma pessoa ter que representar utilizando somente a mímica, sem usar quaisquer códigos, letras ou palavras, uma entidade de sua escolha relativa a um assunto pré-determinado com os demais participantes. O restante dos participantes deve, então, tentar adivinhar qual a símbolo está sendo comunicado pela mímica.

Dependendo da criatividade dos participantes e a sintonia do grupo essa brincadeira vai longe, no entanto, ao final dos placares sempre sobra a minha indignação perante tal arte e a prestreza da ampulheta quando somada as inaptidão de agir diante de uma plateia que exige resultados. A mente divaga e paralisa, apenas depois sem a pressão iminente que alço uma perspicácia alheia a mim. Uma lástima que não valha mais pontos!


fonte: Wikipédia

sexta-feira, 12 de março de 2010

prenúncios

foto: Thayze Darnieri



"Se os interiores são metáforas da alma de uma pessoa e a cidade, da coletividade da alma, Brasília é o desejo de criar uma nova vida".


Polidori

quinta-feira, 11 de março de 2010

Crochê

foto: Thayze Darnieri




Crochê, um artesanato feito com uma agulha especial que possui um gancho e produz um trançado semelhante ao da malha ou da renda. Hoje, finalmente, após muito observar e treinar, além dos aconselhamentos e descobertas junto ao meu colega de arte, bem como recorrente auxílio a professora virtual Elaine, entendo as artimanhas, nomeclaturas e códigos do meu mais recente vício: três correntes para subir, entra na quarta casa, faz um ponto alto duplo, arremata com ponto baixíssimo; duas correntes, pula duas casas e entra na terceira.

Originalmente, a palavra crochê vem de um termo existente no dialeto nórdico, que significa gancho (a forma do bico encurvado da agulha utilizada para puxar os pontos), que também originou croc, que em francês tem o mesmo significado. Ninguém tem certeza de quando ou onde o crochê começou, segundo os historiadores, os trabalhos de crochê têm origem na pré-história, entretanto, a arte como a conhecemos atualmente, foi desenvolvida no século XVI.

O escritor dinamarquês Lis Paludan tentou descobrir a origem do crochê na Europa e fundamentou algumas teorias, ainda que afirme não haver evidência concreta sobre o quão antiga é essa bela arte. Conta-se que o crochê nasceu na Arábia e chegou à Espanha pelas rotas comerciais do Mediterrâneo, assim como há indícios posteriores da técnica em tribos da América do Sul, que usava adornos de crochê em rituais da puberdade.

A origem mais provável reside na China, cujas bonecas eram feitas com a mesma técnica, baseando-se na técnica de costura chinesa, uma forma primitiva de bordado difundida no Oriente Médio e chegou à Europa por volta de 1700, no entando só começou a se espalhar em forma de crochê pelos idos de 1800.

Para tanto, a francesa Riego de la Branchardiere desenhou padrões que podiam ser facilmente duplicados e publicou em livros para que outras pessoas pudessem começar a copiar os desenhos. Os trabalhos com a técnica do crochê podem ser realizados com qualquer tipo de fio ou material, tudo depende da peça a ser executada. Atualmente, usa-se a técnica para confeccionar as mais variadas peças, diferenciando-se apenas pela mistura de técnicas a criatividade de cada um.



quarta-feira, 10 de março de 2010

paralisia emocional






"Estou começando a achar que o indivíduo que realmente tem saúde mental é o que tem o maior número de alternativas, as mais viáveis. Uma pessoa que possa dizer: 'Se isso não acontecer, o que mais, e o que mais é possível'".


Leo Buscaglia

terça-feira, 9 de março de 2010

Aqueles dois





A verdade é que não havia mais ninguém em volta. Meses depois, não no começo, um deles diria que a repartição era como "um desento de almas". O outro concordou sorrindo, orgulhoso, sabendo-se excluído. E longamente, entre cervejas, trocaram então ácidos comentários sobre as mulheres mal-amadas e vorazes, os papos de futebol, amigo secreto, lista de presente, bookmaker, bicho, endereço de cartomante, clips no relógio de ponto, vezenquando salgadinhos no fim do expediente, champanha nacional em copo de plástico. Num deserto de almas também desertas, uma alma especial reconhece de imediato a outra - talvez por isso, quem sabe? Mas nenhum se perguntou.

Não chegaram a usar palavras como "especial", "diferente" ou qualquer coisa assim. Apesar de, sem efusões, terem se reconhecido no primeiro segundo do primeiro minuto. Acontece porém que não tinham preparo algum para dar nome às emoções, nem mesmo para tentar endendê-las. Não que fossem muito jovens, incultos demais ou mesmo um pouco burros. Raul tinha um ano mais que trinta; Saul, um menos, Mas as diferenças entre eles não se limitavam a esse tempo, a essas letras. Raul vinha de um casamento fracassado, três anos e nenhum filho. Saul, de um noivado tão interminável que terminara um dia, e um curso frustrado de Arquitetura. Talvez por isso, desenhava. Só rostos, com enormes olhos sem íris nem pupila. Raul ouvia música e, às vezes, de porre, pegava o violão e cantava, principalmente velhos boleros de espanhol. E cinema, os dois gostavam.

Passaram no mesmo concurso para a mesma firma, mas não se encontratam durante os testes. Foram apresentados no primeiro dia de trabalho de cada um. Disseram prazer, Raul, prazer, Saul, depois como é mesmo o seu nome? Sorrindo divertidos da coincidência. Mas discretos, porque eram novos na firma e a gente, afinal, nunca sabe onde está pisando. Tentaram afastar-se quase imediatamente, deliberando limitarem-se a um cotidiano oi, tudo bem ou, no máximo, às sextas, um cordial bom fim de semana, então. Mas desde o princípio alguma coisa - fados, astros, sinais, quem saberá? - conspirava contra (ou a favor, por que não?) aquele dois.

Sua mesas ficavam lado a lado. Nove horas diárias, com intervalo de uma hora para o almoço. E perdidos no meio daquilo que Raul (ou teria sido Saul?) chamaria, meses depois, exatamente de "um deserto de almas", para não sentirem tanto frio, tanta sede, ou simplesmente por serem humanos, sem querer justificá-los - ou, ao contrário, justificando-os plena e profundamente, enfim: que mais restava àqueles dois senão, pouco a pouco, se aproximarem, se reconhecerem, se misturarem? Pois foi o que aconteceu. Tão lentamente que mal perceberam.


capítulo I, do conto Aqueles dois, de Caio Fernando Abreu, extraído no livro Os cem melhores contos brasileiros do século

segunda-feira, 8 de março de 2010

mulher por acaso





"Eu jamais achei que ser mulher era vantagem ou desvantagem, algo especial ou secundário. Sempre acreditei que tudo depende do que cada um faz com sua vida. E isso vale para mulheres e homens. Uma mulher pode ser apenas uma bela superfície: um lindo vestido de babados, muita maquiagem, salto alto. O clichê da mulher. Além disso, esse dia sempre me pareceu reforçar a vitimização que nos cerca, que nos limita, e o preconceito que ainda há: se somos iguais, por que temos um dia para nós?

(...)

O Dia Internacional da Mulher não é um jeito de ganharmos presentes, flores ou parabéns. Também não é data para se relembrar todas as representantes do sexo feminino que se destacam em suas profissões e já alcançaram, com mais ou menos esforço, a condição que têm hoje.

Mas tampouco deve passar em branco.

O que vale hoje é deixarmos as cascas de lado e focar no que realmente é ser mulher. Porque muitas vezes ser mulher ainda é ser subjugada, desrespeitada e agredida.

Muitas temos igualdade. Outras não.
Muitas sabemos nos defender. Outras não.
Muitas chegamos lá. Outras não.
Muitas temos noção da força que temos. Outras não.

O Dia da Mulher não é uma data comemorativa. Não é para se dar ou receber parabéns. Congratulações existem para quem realiza um feito. Nascer mulher não é um feito. É o acaso."


trechos do texto Dia da Mulher: da casca ao que realmente importa, de Martha Mendonça, no blog Mulher 7x7




domingo, 7 de março de 2010

milésimo post

foto: Thayze Darnieri



Thayze Darnieri


Deus quando criou aquela menina não havia estabelecido um plano completo de vida, julgou ser possível forçar algum juízo na cabeça daquele pai ou construir à base de barro uma companhia para aquela mãe. Por anos, a pequena criança cumpriu seu propósito fielmente, no entanto, ao atravessar estes anos percebeu que algo de muito errado se passava.

Inventou novos planos, fez novas tentativas, dessa vez, acreditou piamente que sua incumbência deveria ser amiga do seu irmão, um ser tão ingênuo e indefeso precisaria de alguém para aconselhar e partilhar. Mais uma vez, ela estava enganada, contudo, percebeu que errara apenas parte, sua missão era espalhar a amizade por onde passasse, pois nada no mundo lhe satisfazia tanto quanto estar ao lado de um bom amigo.

Entretanto, como nesta via não se caminha somente em uma mão, estava intrínseco em suas atitudes e pensamentos, as ações que espera-se de um amigo. Deu sem pestanejar a mão, os ouvidos, a paciência, a compaixão, o entendimento, as palavras, a companhia, os sorrisos, as lágrimas, a força. Assim, quando uma grandiosa minoria enxergou o valor da verdadeira amizade, ela havia conquistado mais que amigos: irmãos de coração.

Algumas vezes, portanto, a sorte exagerou ao presenteá-la, outras vezes não souberam entender o seu amor, em muitas esteve rodeada deles, em poucas havia alguém para lhe estender a mão. Para tanto, por culpa do tempo uns desaparecem ao passo que, em todo tempo, existirão aqueles se fizeram eternos e indestrutíveis, apesar das dificuldades e graças às facilidades das circunstâncias, todos ficarão até o infinito na mente e no coração daquela menina que nasceu destinada à amizade.

sábado, 6 de março de 2010

Férias




Thayze Darnieri


Lembro: no meu primeiro dia de aula na faculdade, jurei a mim jamais voltar a ser refém do ócio. Até então, vivia uma vida sem obrigações ou perspectivas, fantasiava que se morresse a qualquer instante, ninguém notaria a ausência daquele corpo que vagava pelos cantos das casas. Por vício me propunha tarefas absurdas e demoradas a fim de preencher o largo tempo de angústia fatigada pelo nada, a mente vagava pelo universo infundado inventando qualquer desculpa para sentir vida.

Dito e feito, desde aquele dia não me permitir descansar, emendei aula com cursinho, estudo com estudo, projeto e planos de sobrevivência, uma nova vida em uma outra mentalidade me possibilitaram gozar as minhas primeiras férias não-escolares. Primeiro dia sem cronograma de tarefas e deveres com prazos de cumprimento, liberdade para errar sem cobrança, assim como as merecidas folgas para o computador e o despertador.

Hoje, sinto o alívio do descanso antes de aproveitá-lo, no entanto, vislumbro algumas semanas a frente a agonia da hiperatividade reclamando tarefas. Enquanto esse dia não chega, vou dormir. Boa noite!

sexta-feira, 5 de março de 2010

Talvez amanhã





"Hoje eu preciso ouvir qualquer palavra tua
Qualquer frase exagerada que me faça sentir alegria
Em estar vivo

Hoje eu preciso tomar um café, ouvindo você suspirar
Me dizendo que eu sou causador da tua insônia
Que eu faço tudo errado sempre

Hoje preciso de você
Com qualquer humor, com qualquer sorriso
Hoje só tua presença
Vai me deixar feliz
Só hoje..."


trecho da música Só Hoje, do Jota Quest

quinta-feira, 4 de março de 2010

A arte de estar só

foto: Angélica Abe



Thayze Darnieri

Chego em casa, logo ao abrir a porta vejo os sinais: nenhuma luz acesa, silêncio absoluto, janelas fechadas, o quarto vazio. Sozinha o eco dos murmúrios cresce e chega aos idos do inconsciênte quando adquire liberdade para exprimir o extremo do emocional, ao jorrar lágrimas e risadas exageradas no vazio.

Vive-se o exagero do sentimental, uma vez que sem o controle e na ausência do cuidado alheio tudo parece maior, mais difícil e complicado. Distante daquele olhar tranquilizante passo a aumentar coisinhas pequenas, em contrapartida dilata a força e a vontade em conseguir manter a ordem dentro de mim e ao meu redor.

A batalha está perto do fim, sobrevivi e ultrapassei as expectativas que auferi contra mim. Para tanto, tal feito só foi possível após um processo longo e intensivo de aprendizado e prática desenvolvido e aplicado pelo meu tutor, resultando em resgate de confiança, afugentação dos medos infundados e infantis, bem como desintoxicação emocional.

quarta-feira, 3 de março de 2010

Será?





"Hoje eu acordei mais cedo porque tenho um compromisso de manhã. Me troquei e fui até o espelho pentear o cabelo. Foi aí que o vi – ele refletia a luz de um jeito diferente dos outros. "Será?", pensei. Demorei um pouco até conseguir agarrá-lo e, com um movimento rápido tirei MEU PRIMEIRO CABELO BRANCO do convívio com outras centenas de milhares de fios que certamente o achavam uma aberração.

E aí ela bateu, a crise de meia idade. Sério. Veio na seguinte pergunta: "e aí, o que você fez?" E veio acompanhada daquela música da Simone do Natal, porque a frase me lembrou isso.

E a verdade é que eu fiz um monte de coisas, muitas mais do que eu imaginaria fazer em 21 anos. E ainda assim tenho a sensação de que não fiz nada e que há muito mais pra fazer. Porque há, obviamente, quando você tem 21.

Sugere algo?"


texto Crise de meia idade, de Ana Freitas, no blog Olhômetro

terça-feira, 2 de março de 2010

O politicamente correto





"Na televisão, qualquer Big Brother grita “c….” dez vezes seguidas em horário nobre. Já se pode dizer “m…” em qualquer novela. Agora os palavrões são outros. Daqui a pouco não poderemos dizer que alguém é feio. A pessoa terá apenas “falhas de design divino”. Estou esperando a hora em que ninguém poderá dizer que eu sou loura – talvez porque alguma loura possa pensar que estar sendo xingada de burra. Ou talvez algum dia eu não possa mais dizer que sou mulher – porque haverá alguém ache que isso significa uma ofensa à diversidade sexual.

Brincadeiras à parte, isso tudo é um horror. Antes que passemos a usar as palavras apenas citando as iniciais, vamos pensar que importa mais do que se faz, de fato, do que o que se diz."



trecho do texto Novos palavrões do politicamente correto, de Martha Mendonça, no blog Mulher 7x7

segunda-feira, 1 de março de 2010

Em ordem





"Comece a brigar. Prove que está vivo. Se você não fizer valer pelo seu lado humano você se tornará apenas mais um número."


Chuck Palahniuk


O senso comum considera brigar um ato de violência emocional, no entanto, julgo a adoção madura e consciente dessa postura como sinal de evolução. O balanço da discussão organiza as bagunças à sua maneira, põe ordem aos desencontros e expõe verdades omitidas quando deveriam ser proferidas aos quatro ventos.

A sinceridade só dói a partir do momento que se vive longe da verdade, para tanto uma conduta correta aos seus moldes não deve nem pode ofender aos desavisados. Ser autêntico é viver os seus instintos como se ninguém estivesse olhando, independente dos padrões ditados e repetidos sem qualquer questionamento pela plateia vidrada que vibra, chora, vaia ou aplaude a coragem de enfrentar a iminente fuga do covarde.

Para tanto, brigar sobrepuja o grito cru, ofensas impensadas e a verdadeira mentira. Discutir é debater a vida, questionar as relações e reclamar vontades engolidas, ou seja tentar todos os dias ser melhor diante da consciência de si pelos olhos de quem observa.


Thayze Darnieri

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