domingo, 28 de fevereiro de 2010

Mosteiro São Bento

foto: Thayze Darnieri




Os monges beneditinos chegaram à São Paulo em 1598. A Companhia de Jesus e a Ordem do Carmo eram as únicas ordens religiosas em São Paulo. Fr. Mauro Teixeira foi o primeiro beneditino a chegar à São Paulo, natural da cidade de São Vicente, ele foi discípulo direto do jesuíta Pe. José de Anchieta. Após a morte de seus familiares pelos índios tamoios, num ritual de canibalismo, Fr. Mauro entrou no Mosteiro de São Bento da Bahia. Até que concluída sua formação monástica, o Padre Provincial Fr. Clemente das Chagas o envia à São Paulo, onde funda uma pequena ermida, núcleo inicial da presença dos beneditinos na cidade. Logo em seguida, vem o Pe. Fr. Mateus da Ascenção edificar um mosteiro e formar o primeiro núcleo comunitário.

Em 9 de maio de 1600, a Câmara Municipal doou um pedaço de terra que situava-se "no lugar mais ilustre da vila, depois do Colégio da Companhia", em doação perpétua "até o fim do mundo". O local era onde se localizava a antiga taba do caçique Tibiriçá, "o glorioso índio que realizara a aproximação euro-americana e permitira o surto da civilização no planalto, salvando São Paulo da agressão tamoia de 1562", segundo as palavras do historiador Taunay.

Somente em 1634, as obras foram terminadas e constituída em Abadia. A capela fora dedicada a São Bento. Posteriormente, a pedido do Governador da Capitania de São Vicente, D. Francisco de Sousa, grande benemérito dos beneditinos, foi mudado o patrono da capela paulistana para Nossa Senhora de Montserrat. E, 100 anos depois, em 1720, a capela passou a chamar-se de Nossa Senhora da Assunção, título que se conserva até hoje.

O Mosteiro de São Bento, localizado no centro da cidade de São Paulo, no Largo de São Bento, próximo ao Vale do Anhangabaú, um dos edifícios históricos mais importantes da capital paulista. O conjunto todo é o Mosteiro de São Bento, o qual tem em sua portaria o principal acesso onde os monges que aí vivem em oração, ficam de prontidão a receber todos os hospedes e visitantes, acolhendo assim os que vem à vida de oração, retiro, ou procuram orientação espiritual ou confissão; nele há a clausura monástica, a Basílica Abacial de Nossa Senhora da Assunção, onde há o coro para o ofício divino rezado diariamente pelos monges e a missa é celebrada, ambos no rito monástico e com canto gregoriano, e Colégio de São Bento e Faculdade de São Bento.


sábado, 27 de fevereiro de 2010

Pinacoteca

foto: Thayze Darnieri




A Pinacoteca é o musei de arte mais antigo da cidade de São Paulo e certamente um dos mais importantes do país. Sua presença nasceu, inicialmente, no prédio construído para abrigar o Liceu de Artes de São Paulo, misturando sua história a implantação do Liceu conturbada por uma série de eventos histórios, além de reformas, alternando com transferências temporárias para outros locais, como o prédio da Impresa Oficial e um pavilhão no Ibirapuera.

Em sua inauguração, no dia 24 de dezembro de 1905, o acervo da Pinacoteca consistia em 26 pinturas importantes artistas no cenario paulistano. Com o passar dos anos, uma série de gestões profícuas, cada uma a seu tempo, contribuiu para o enriqueciento do acervo da instituição e para sua adequação às condições museológicas de excelência, que hoje tornam a Pinacoteca um museu de referência internacional.

De um espaço restrito a especialistas, transformou-se em um espaço de inclusão, recebendo os ais diferentes segmentos da sociedade. De uma única e imutável exposição com obras do acervo, evoluiu para um programa de mostras temporárias sobre as mais variadas questões de arte e da cultura, associado a mostras de longa duração com trabalhos de seu acervo. De uma iniciativa isolada do Estado, constitui-se em ação articuladora das esferas pública e privada.

Para além desses indicadores concretos, há um universo impossível de ser dimensionado. Para tanto, uma das responsabilidades fundamentais do museu de arte na atualidade é educar o olhar e sensibilizar o espírito, criando as condições indispensáveis para o exercício completo da cidadania, uma vez que a grande tarefa do museu conteporâneo, nesta era virtual, é ainda, reafirmar a individualidade, o espiritual, o homem como agente criador, único e insubstituível. É para enfrentar este desafio que a Pinacoteca do Estado se repensa e se amplia incessantemente, preservando o passado e acolhendo o futuro.



fonte: Pinacoteca

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Tempos de Paz



Thayze Darnieri


A mentira veste absoluta e radicalmente armas do mundo paralelo, uma vez que fundamentar a existência no não-existente persegue o universo imaginário. Entretanto, impossível não admirar uma postura convicta aliada ao talento da impecável persuasão, ainda que estabelecida afora do real consta nela a vontade distinta de ser verdadeira.

Devaneei por esses conceitos ao me deparar com o despretencioso Tempos de Paz, salvo por algumas poucas cenas, passa em apenas um cenário, simples e nada simplório, esse filme desbanca produções escoradas em milhões e milhões gastos em efeitos e desperdiçado em talento e enredo. Dan Stulbach e Tony Ramos atuam brilhantemente ao transparecer para o público as fraquezas e marcas arraigadas pelo tempo em seus personagens, sintonizadas em ritmo teatral com vistas para a telona.

No fim, sobra a sensação de mentira por trás da verdade, a frustração transfigurada em rancor, a verdade escondida na mentira, discurso salteado em meias palavras, razões plausíveis e enganosas para a dúvida e a certeza do perdão.


quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

esforço inútil






"Eu te quero branca e você está negra. Eu te quero inteira e você está esmiuçada em pedaços de amor quebrado. Eu te quero vem, vem, vem e você está tão vai, vai, vai."


trecho do texto O assassino do amor, de Tati Bernardi

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Centro Velho

foto: Thayze Darnieri




A percepção social daquilo que se chama "centro de São Paulo" varia e eventualmente inclui outros bairros, no entanto, a região convencionada como Centro Velho engloba as centralidades históricas cujas imagens remetem aos tempos que ideologicamente associam-se à imagem da cidade. Contudo, esse fator não contribuiu para desenvolver um senso de preservação na população por décadas, deixando sobrevir a sensação de abandono.

Ainda assim, a restauração isolada e a fama atraem visitantes à rotas imperdíveis. O Mercado Municipal de São Paulo, um importante entreposto comercial de atacado e varejo, construído entre 1928 e 1933, eclético em sua estrutura harmoniza os pomposos desenhos da fachada aos magníficos vitrais. Entretanto, em 2004, no governo Marta Suplicy, o Mercado foi totalmente reformado, reavivando os elementos antigos e inovando com a idealização de um mezanino dedicado ao encontro dos nativos e turistas com a tradição levada à boca.

Logo na saída uma rua estreita leva a movimentada Rua Vinte e Cinco de Março, considerada o maior centro comercial da América Latina, onde encontra-se os mais inacreditáveis produtos nacionais e importados com custo abaixo do mercado. Diz, historicamente, que seu nome deve-se a uma homenagem dada pela Câmara Municipal e poder executivo, referente ao dia que foi redigida a primeira Constituição Brasileira de 1824.

No centro de centro, está o Pátio do Colégio, o marco do nascimento da cidade de São Paulo, em 25 de janeiro de 1554, no alto de uma colina entre os rios Tamanduateí e Anhangabaú, o Padre Manuel da Nóbrega e o então noviço José de Anchieta resolveram estabelecer um núcleo para fins de catequização de indígenas. Tornando-se sede do governo paulista entre os anos de 1765 e 1908, servindo como Palácio dos Governadores, contudo, durante este período o antigo casarão foi completamente descaracterizado por profundas reformas e posterior demolição. Sobraram apenas fragmentos de uma parede do antigo colégio aproveitados na nova edificação inaugurada em 1979, atual endereço do Museu Anchieta.

Quase em frente, localiza-se a Catedral Metropolitana de São Paulo ou mais popularmente conhecida como Catedral da Sé, em estilo neogótico, apesar da cúpula ser inspirada por estruturas renascentistas, considerado, portanto, um dos cinco maiores templos neogóticos do mundo. Criada em 10 de agosto de 1591, o início de sua história começou um pouco antes, na idealização da igreja Matriz da pequena vila de São Paulo de Piratininga, até que em 1745, ao transformar em sede da diocese, a antiga igreja foi demolida dando lugar a nova construída em estilo barroco. Esta modesta igreja seria a catedral até 1911, quando, finalmente, seria colocado em pé o prédio atual, com 111 metros de comprimento, 46 de largura, duas torres com 92 metros de altura e uma enorme cúpula. Pouco mais de 800 toneladas em mármore foram dedicados a igreja em forma de cruz latina, com cinco naves e transepto com cúpula sobre o cruzeiro.



fonte: Wikipédia

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Menção Mágica

foto: Thayze Darnieri




Thayze Darnieri


Afora feminismos e muito menos machismos, mas como faz falta uma mente masculina para entender e explicar os mecanismos corriqueiros do dia-a-dia. Habituada à posição confortável de acalmar os nervos, diante dos problemas de mulherzinha, com apenas um olhar enérgico, vivi alguns momentos de confusão.

É intrínseco ao homem o pensar prático concomitante ao agir célere. A resposta óbvia colore com tintas fortes harmonicamente o mundo que antes via somente o cinza, quando facilita a trama de desencontros custosos com uma única menção mágica. No entanto, sem a sensação de proteção, surge uma névoa de vulnerabilidade que encaminha-me para os medos infundados e pensamentos sem sentido, fujo para as soluções mirabolantes e viajo para o caminho mais complicado.

Felizmente, no fim, o sucesso do resultado ainda é indiscrimidamente igual, contudo, sobram suor e lágrimas, quilômetros de corrida inútil, horas de tempo perdido e dinheiro jogado fora.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Happy End?






Inspirado na canção Happy Ending, do Mika

Minha mãe disse que quando eu nasci o médico falou que nunca tinha visto uma menina com olhos tão brilhantes quanto os meus. Que na hora ela teve certeza que eu estava predestinada a ser uma pessoa feliz. Eu me lembro que quando eu era criança meus pais me pareciam a tradução do comercial da Doriana, acordando e cantando “Oh, Happy Day!”, dançando juntinho na cozinha, se amando de uma forma infinita. Quando eu fui entrando na adolescência meu pai trocou nossos passeios de bicicleta pelo parque pelas caronas para minhas amigas até a matinê no shopping, onde eu conheci o primeiro gosto da boca de um menino. O nome dele era Gustavo e ele tinha um ano a mais que eu. Era moreno, magrelo, parecia mais assustado que eu. Senti sua língua desajeitada batendo na minha e achei aquilo um pouco nojento, mas ao mesmo tempo era gostoso. Depois do beijo a gente limpou a baba na boca, ele sorriu e foi embora.

Meu primeiro namorado foi aos 15 anos de idade. Era o Adriano, da minha sala, também moreno e magrelo, com um ar encantador de anjo barroco com seus cachinhos desajeitados caindo na testa. Foi com o Adriano que eu dormi pela primeira vez abraçada com um rapaz, que me senti pela primeira vez mulher, que imaginei o rosto do Miguel e da Manoela, nossos dois filhos que nasceriam quando a gente tivesse 25 anos. Foi o Adriano também que mostrou que as coisas não iam ser bem assim quando o encontrei beijando a Lucinha no banheiro durante uma festa. Foram duas semanas na cama chorando a decepção com o primeiro amor que tive na vida. Nunca mais vou me esquecer do gosto amargo daquelas lágrimas.

O que eu não sabia é que uma vez que essas lágrimas começam a cair elas não param mais. Com 21 anos, alguns Adrianos depois, minha esperança de encontrar o cara, o tal, o príncipe do cavalo branco que me levaria para o Paraíso e me faria feliz para sempre ainda estava lá. Um pouco abalada pelo fato de que minha mãe descobriu que meu pai tinha um caso com sua secretária há mais de dez anos. O casamento acabou e ela passou a viver cada dia como se fosse uma penitência a pagar. Ele foi morar com a outra mas sempre chora e diz que queria voltar para minha mãe.

Foi na faculdade que conheci o Ricardo. Loiro, alto, com lindos dentes brancos, um sorriso que parecia não desaparecer nunca do seu rosto. Namoramos por dois anos e resolvemos morar juntos. Fizemos festa com a família, ganhamos presentes, compramos um cachorro, comíamos picanha na chapa todo sábado no almoço. Eu ia com o Ricardo ao estádio torcer pelo Fluminense, chorava com ele quando o time perdia. Ricardo me completava em todas as formas que eu poderia imaginar, cuidava de mim igualzinho eu sonhava.

E então aconteceu. Eu comecei a acordar e o sorriso do Ricardo já não me afagava do mesmo jeito. Seu abraço carinhoso não me confortava como antes, sua atenção incessante parecia me irritar. Olhava toda a vida a meu redor e nada daquilo parecia fazer parte de quem eu era. E eu não sabia mais quem eu era.

Ricardo e eu nos separamos no que talvez tenha sido o dia mais triste da minha vida. Ver aquele homem caído no chão sofrendo uma morte e não ter como ajudar, e, o pior, ser a causa daquele sofrimento, me doeu de uma forma que anestesia nenhuma seria capaz de aliviar.

A vida seguiu, os rostos mudaram, as emoções se tornaram mais familiares e previsíveis. Os encontros parecem mais estudados, as reações mais cínicas. A alegria se tornou um bem mais raro e difícil de acreditar. Dentro de mim em algum lugar ainda existe uma menina doce que sonha com o pote de ouro no fim do arco-íris. Mas o difícil é aceitar que quanto mais eu conheço a vida, mais eu me pergunto: O que aconteceu com final feliz?



texto Happy End, o número 7 da série Musicando, de Pedro Neschiling

domingo, 21 de fevereiro de 2010

apenas nostalgia





"Cada lágrima ensina-nos uma verdade".


Ugo Foscolo

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Senhorita sensível





Thayze Darnieri



Do nada, mudei de ideia. Era mais fácil tender para a razão, sempre confiável e previsível, mas um mais um, afinal é dois? Meu coração palpitava, aquém de qualquer controle corria em direção a única certeza válida: a convicção da intuição.

Em uma momento, tinha certezas, no outro, havia uma profusão de sentimentos. Ao invés de agir para sentir, agi sentindo as delícias em chorar quando não há saída, gargalhar quando a felicidade não cabe em mim, ter medo quando não há alguém para amparar, pausar quando encontrar palavras nostálgicas, emocionar apenas em lembrar cenas de um passado não tão distante, brigar sem razão.

Para tanto, a razão dos sentimentais está para o sentimento dos racionais, proporções e sensações distantes do senso comum. Sentir é drama, rir é comédia, amar é romance, medo é terror, uma vez que, para eles sentir é exagero.

Afinal, a liberdade surge ao brindar a vida com lágrimas e celebra o amor com o silêncio ao jogar as teorias pela janela.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Banzo

foto: Vitor Veríssimo



"Apareceu ontem enforcado com um baraço [corda de fios de linho], dentro de um alçapão, na casa da rua da Alfândega, nº 376, sobrado, o preto Dionysio, escravo de D. Olimpya Theodora de Souza, moradora na mesma casa. O infeliz preto, querendo sem dúvida apressar a morte, fizera com uma thesoura pequenos ferimentos no braço..." Essa nota, publicada no Jornal do Commercio, no Rio de Janeiro, em 22 de junho de 1872, revela uma faceta pouco conhecida da escravidão: os escravos se suicidavam. E como. O índice de "mortes voluntárias" entre eles, quando comparado ao de homens livres, era duas ou três vezes mais elevado. Os suicídios de escravos também se diferenciavam noutros aspectos. O mais notável deles era o fato de atribuir-se o gesto ao banzo.

Ainda hoje se discute o significado dessa palavra. O mais aceito tem uma remota origem africana, equivalendo a "pensar" ou "meditar". O termo também, há tempos, designou uma doença. Em 1799, por exemplo, Luiz António de Oliveira Mendes apresentou, na Academia Real de Ciências de Lisboa, um estudo sobre "as doenças agudas e crônicas que mais freqüentemente acometem os pretos recém-tirados da África". O banzo constava entre elas. Os sintomas? Os escravos ficavam entristecidos, paravam de falar e, acima de tudo, deixavam de se alimentar, mesmo "oferecendo-se-lhes" – afirma o médico – "as melhores comidas, assim do nosso trato e costume, como as do seu país...", falecendo pouco tempo depois.

No século 19, com o desenvolvimento das primeiras teorias psicológicas, o comportamento dos escravos banzeiros foi reconhecido como distúrbio mental. Em 1844, Joaquim Manoel de Macedo, na tese médica intitulada Considerações Sobre a Nostalgia, afirma o seguinte: "[...] estamos convencidos de que a espantosa mortandade que entre nós se observa nos africanos, principalmente nos recém-chegados, bem como de que o número de suicídios que entre eles se conta, tem seu tanto de dívida a nostalgia [...]"

Aos poucos, a associação entre nostalgia e banzo se tornou popular. No Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa, de 1875, de Joaquim de Macedo Soares, é possível ler a seguinte definição: "banzar: estar pensativo sobre qualquer caso; triste sem saber de quê; sofrer do spleen dos ingleses; tristeza e apatia simultânea; sofrer de nostalgia, como os negros da Costa quando vinham para cá, e ainda depois de cá estarem".

Hoje, a palavra "nostalgia", difundida na literatura, é sinônimo de "saudade", um sentimento. Situação bem diferente é pensá-la como doença. Tal rótulo – assim como o de banzo – provavelmente encobria uma vasta gama de problemas psicológicos ou psiquiátricos, que iam da depressão à esquizofrenia; ou eram provocados pela desnutrição, por doenças contagiosas, ou por consumo excessivo de álcool e drogas – como a maconha, apreciada por muitos escravos, que a chamavam de "pango".


trecho do texto Banzo: melancolia negra, de Renato Pinto Venâncio

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Bodas de algodão

foto: Thayze Darnieri



"Fomos além; mudamos nossas vidas juntos; tomamos, juntos, decisões de gente grande; encontramos um no outro a coragem e a força que não conseguiríamos ter se estivéssemos sós, separados, desligados. Um cuidando do outro, o outro cuidando do um; um ensinando o outro, o outro ensinando o um. Várias mudanças, decisões tomadas juntas. Um larga o emprego, um larga a faculdade, ambos saem de casa e juntos vão morar em outra cidade, dividindo um típico "coração de mãe". Tudo isso movidos pela coragem e pela certeza de que juntos alcançariam um objetivo comum.

O esforço, nem de longe, foi em vão. O mesmo objetivo foi alcançado várias vezes e agora tínhamos o prazer da escolha. Lá ou cá? Mais uma vez, decidimos juntos o que possivelmente seria melhor para os dois e mais uma vez um pegou a coragem do outro e juntou à sua.

Mais mudanças, mais uma cidade, mais uma casa... novo emprego/primeiro emprego. Primeiro um, depois o outro e mais uma vez juntos, agora de uma forma que nem nós poderíamos imaginar. O universo deve gostar de nós.

Muito longe das famílias, de outros amigos, dos amores e dos bichos. Ânimos às vezes à flor da pele, saúde nem sempre me dia, mas claro que mais uma vez o outro estava lá para dar apoio, para arrastar ao médico e fazer companhia, cuidando com se fosse mãe. Mais uma árvore de natal montamos juntos e nela colocamos nossas esperanças.

Tem razão de muitos acharem que somos um casal. Até no mercado já perguntaram: "Como está sua esposa?"

Obrigado por tudo que fazes por mim. Por aturar minhas chatices, por me levar ao médico, por se preocupar e por cuidar de mim.

Às vezes me pego pensando nisso tudo, fazendo uma retrospectiva e só consigo concluir: INCRÍVEL!"


trecho do texto Vinte e poucos..., de Vitor Veríssimo

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Cinza




"Todo dia a insônia
Me convence que o céu
Faz tudo ficar infinito
E que a solidão
É pretensão de quem fica..."


trecho da música Pro dia nascer feliz, de Cazuza

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

sede de lucidez





"Comer é uma necessidade do estômago; beber é uma necessidade da alma."



Claude Tillier

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

um desejo





Thayze Darnieri


Um dia qualquer, um estranho me aborda e se diz capaz de realizar desejos, como o gênio da lâmpada das histórias de Aladim. No entanto, diferente do conto das Mil e uma noites sua capacidade era reduzida, consederia apenas um desejo.

Pestanejei, o bom senso sozinho concluiria pela loucura daquele homem, mas jamais iria me desgastar discutindo com um demente. Descrente na realização, ao mesmo tempo racional na idealização do desejo, pensei: ser invisível? Voar? Ler pensamentos? Mostruosa força física? Velocidade? Distinguir as emoções por meio de cores? Fotografar com os olhos? Não dormir? Não engordar?

Por fim, já levando a sério a insanidade do louco, decidi pelo poder da onipresença, o atributo divino que permite estar presente em todos os pontos da criação. Em conjunto à simplicidade divina, pode-se dizer que apenas Ele está totalmente presente em cada ponto do universo, contudo sem a ambição da oniciência e onipotência, meu desejo era estar em todos os lugares ao mesmo tempo.

Quando ele se foi, garantindo ter cumprido com sua promessa, não senti qualquer sintoma de mudança. Injuriei-me por ter cedido as palavras de uma pessoa sem qualquer juízo de realidade, entretanto, após alguns anos, finalmente, pude conceber a força da magia empregada a mim. A resposta era simples: o amor, somente através dele a onipresença seria possível, uma vez que ao cativar o outro, sua a presença permanece constante em todos os lugares.

domingo, 14 de fevereiro de 2010

sozinha no meio do mundo





"Dê nome aos problemas. Problemas com nomes são problemas e não loucuras. Sempre evitando que ela saia. Sempre segurando. Não caia dura no meio do mundo. Não se chacoalhe no meio do pátio. Não vomite só porque sei lá o que é isso impossível de digerir e nem quero saber. Não abrace sem fim porque é preciso sentir o vento com o peito sozinho. Terrível mas tem banho quente pra distrair. Não espanque, não soque, não chore sangue, não arranque a língua, não grite, não acabe. Siga. Sorria. Mais uma prova. Mais uma festa. Mais um garoto. Sempre um pavor escondido mas nem era nada disso. Sempre uma tristeza abafada mas nem era nada disso. Sempre uma alegria exagerada que ninguém acolhe e o silêncio depois, fazendo curativos na pureza criando cascas. Um dia você será. O quê? Normal. Um dia você será. Normal. Um dia."



trecho do texto Louca, de Tati Bernardi

sábado, 13 de fevereiro de 2010

meio a meio





"Se chove, tenho saudades do sol, se faz calor, tenho saudades da chuva".


José Lins do Rego

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

pausa consentida





"...tem dia que põe virgula, tem dia que põe reticências, tem dia que põe ponto final e tem dia que tem a necessidade de virar a página, o tempo todo nós fazemos a experiência de escrever a vida que somos nós, e o mais bonito: nós temos o direito de escolher como vamos pontuar esse texto, porque Deus trabalha o tempo todo no nosso coração assim, para que a gente aprenda a escrever, para que não venha ninguém escrever por nós e mesmo que alguém passe pela nossa vida, que apenas deixe detalhes no seu texto porque o autor é você, e o mais bonito é que tudo está sendo inspirado por Ele..."



Padre Fábio de Melo

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Dorian Gray




Thayze Darnieri


O conhecimento acerca do comportamento humano confronta-se com o balde do poço, uma vez que ele jamais estará completamente cheio mesmo que vá a fundo. Coincidentemente, junto com o início das aulas de Psicologia cheguei ao fim do livro Quando Nietzsche chorou que discorre sobre o prenúncio da Psicanálise, bem como indícios de teorias na voz do jovem Sigmund Freud.

Distante do famoso Complexo de Édipo/Electra, apaixonei-me pela sua alegação de um pré-consciente, uma camada intermediária entre o consciente e o inconsciente. Segundo Freud, o homem experimenta repetidamente pensamentos e sentimentos que de tão dolorosos tornam-se insuportáveis, no entanto, qualquer associação, direta ou indireta, não pode ser simplemente apagada da mente, mas, em troca, são expulsos do consciente para formar parte do inconsciente.

Freud procurava uma explicação à forma de operar do inconsciente, propondo uma estrutura particular adotou os conceitos de id, ego e superego. Com essas ideias na cabeça, alguns meses depois li O Retrato de Dorian Gray, sem perceber os personagens como ontem, ao ver o filme baseado na obra de Oscar Wilde, Dorian Gray.

Para mim, Dorian Gray representa o id, uma vez que, reprime os processos primitivos do pensamento e constitui o reservatório das pulsões. No princípio, os impulsos eram de origem sexual ou no sentido de auto-preservação, depois, introduziu o conceito das pulsões de morte, que atuariam no sentido contrário ao das pulsões de agregação e preservação da vida. Dessa forma, consome a maior parcela da energia envolvida na atividade humana, responsável pelas demandas mais primitivas e perversas.

Basil Hallward, a parte que contra-age ao id, figura o superego dotado de pensamentos morais e éticos internalizados, ou seja, uma concretização das censura que a sociedade e a cultura impõem, impedindo-o de satisfazer plenamente os instintos e desejos. Manifestando à consciência indiretamente, sob forma da moral, como um conjunto de interdições e deveres, e por meio da educação, pela produção do ser moral, bom e virtuoso.

Por fim, Lord Henry Wotton, a face ego, permanece entre ambos, alternando as necessidades primitivas e as crenças éticas e morais. É a instância sábia cuja consciência reside em um eu saudável proporcionando habilidade para adaptar-se à realidade e interagir com o mundo exterior de uma maneira que seja cômoda para o id e o superego.

Portanto, resta a crer que para o final feliz a auto-repressão tem grande importância no conhecimento do inconsciente.


fonte: Wikipédia



quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Hamlet IV



"Nos faz preferir e suportar os males que já temos,
A fugirmos pra outros que desconhecemos?
E assim a reflexão faz todos nós covardes.
E assim o matiz natural da decisão
Se transforma no doentio pálido do pensamento.
E empreitadas de vigor e coragem,
Refletidas demais, saem de seu caminho,
Perdem o nome de ação."



trecho do livro Hamlet, de William Shakespeare

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

The Final Season





A primeira década do século 21 assistiu a mudanças drásticas no que diz respeito à cultura - principalmente devido à dominância digital que marcou estes anos. Não houve mídia ou gênero que não fosse abalado por este impacto. E mesmo com dois formatos do século anterior vivendo dias de ouro (quadrinhos e games atingiram um patamar de excelência inédito), nenhuma obra soube lidar melhor com a cultura digital - e de forma mais ampla - do um certo seriado sobre os sobreviventes da queda de um avião em uma ilha maluca.

Num mundo cada vez mais dividido em dualidades - velho/novo, digital/analógico, online/offline -, Lost preferiu apostar nas duas alternativas ao mesmo tempo. É uma série comercial com ares de culto. Aborda mistérios científicos e espirituais, as diferenças entre destino e livre arbítrio, física e filosofia, pais e filhos, passado e futuro.

Tais oposições, na verdade, partem de um conceito descrito pelo criador da série J.J. Abrams, que ele expande para todas suas outras obras: ele quer dar classe A à "cultura B" - de nicho, quase sempre produzida com pouco orçamento e, por isso mesmo, mais ousada que a comercial.

Assim, Lost é, ao mesmo tempo, programa de sucesso e objeto de culto, novelinha emotiva e complexa saga de ficção científica, mainstream e nerd.

Esta ambivalência não fica só na tela - e aí que Lost desequilibra. Mesmo com séries de TV bem melhores que ela produzidas no mesmo período (Sopranos, The Office, Battlestar Galactica), Lost desempata ao trazer sua dualidade para fora da tela - e incluir o fã na história.

Não como nos games, em que você assume a pele do protagonista, nem como na web 2.0, em que você cria uma identidade digital a partir do que posta online. Ela apresenta a opção ao telespectador: você quer apenas assistir um programa de TV ou mergulhar num universo que expande-se online no fim de cada episódio?

Enquanto não surge um aparelho que possa romper as barreiras entre nova e velha mídia (o iPad de Steve Jobs tenta abrir este meio-termo, leia na página L7), Lost é o melhor exemplo de integração de duas culturas que ainda caminham separadas mas que tendem a virar uma só. Se é apenas um rascunho que vamos assistir daqui para frente ou já o primeiro capítulo de uma nova cultura, cabe ao futuro nos dizer.

Mas eu quero saber mesmo é o que aconteceu com os personagens depois do clarão no último episódio...


texto O Entretenimento do futuro nasce com o fim de "Lost", de Alexandre Matias, publicado no estadão.com.br, no dia 31 de janeiro de 2010.






segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

zumbidos desnecessários




"Quem quiser ouvir a voz sincera da consciência precisa saber fazer silêncio em torno de si e dentro de si".


Arturo Graf

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Flor da pele




"Ando tão à flor da pele,
Que qualquer beijo de novela me faz chorar,
Ando tão à flor da pele,
Que teu olhar flor na janela me faz morrer,
Ando tão à flor da pele,
Que meu desejo se confunde com a vontade de não ser,
Ando tão à flor da pele,
Que a minha pele tem o fogo do juízo final..."


trecho da música Flor da Pele, de Zeca Baleiro

sábado, 6 de fevereiro de 2010

sol sem luz



"Há tempos que nós, humanos, deixamos de ouvir a voz do corpo. Quando a noite cai, acendemos milhões de lâmpadas que nos dão a ilusão de que o dia prossegue. Dormimos cada vez menos; bocejamos cada vez mais.

(...)

Antigamente, a noite era escura e ninguém estranhava, mas os tempos mudaram. O homem resolveu dar uma de deus e disse: "haja luz" e a luz passou a brilhar nos centros urbanos. Metrópoles, tais quais São Paulo, passaram a "funcionar" ininterruptamente. Hoje, somos totalmente dependentes dessa luz artificial. Não somente dela, mas, acima de tudo, do que ela representa: energia! Energia que move o mundo moderno e o faz "funcionar". Ontem me dei conta de que, sem energia, eu também não funciono. Sem ela não sou ninguém, não sou nada...

(...)

O tempo pisou no freio. (...) Deitei, fechei os olhos e ignorei a escuridão!"


trecho do texto Apagão, de Ebenézer Teles Borges

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

incômoda sobriedade





"Bebo, bebo, bebo e bebo mais um pouco. Não esqueço de nada, mas lembro claramente de poucas coisas!"


"meio Vanessa, meio Mauro, meio Ígor", como Mauro Pietrobon se definiu

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

500 dias com ela





Thayze Darnieri


Comédias românticas seguem sempre o ritmo: não-amor, pré-conquista, amor devastador, curto rompimento e final feliz, ainda sim, conscientes do infausto "felizes para sempre" as lágrimas e os sorrisos se misturam quando a emoção aflora devido ao emaranhado de clichês românticos. No entanto, 500 dias com ela não segue este padrão, uma vez que, Summer e Tom vivem um romance normal.

Sem pretensões por ele e excesso de expectativa por ela, o casal visualmente harmônico, embebidos por momentos de indiscutível sintonia embalados pelo casamento magistral da trilha sonora, esbarram no fatídico obstáculo invisível. Entretanto, a mocinha é corajosa o bastante para assumir que eles não eram tudo aquilo, em contrapartida, o mocinho, o elo fraco, passa a remoer cada segudo do "namoro" na tentativa de descobrir onde está o erro.

No fim, apesar desse encontro desencontrado, sobra a sensação do amor possível. Tom não é coitadinho e Summer está longe de ser vilã, a resposta está no destino que antes mesmo deles começarem já sabia que não seria daquela vez.



quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

pitada de perversão




"Só a obsessão explica a irracionalidade."



Luis Fernando Verissimo, via twitter, @LuisFVerissimo

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

consciência versus consciência





"Sua mente é um espaço sagrado na qual nada de mal pode entrar, exceto com sua permissão!"

Arnold Bennett


Alguns dias existem para provar que as emoções são regidas pela materialização antológica do bem e do mal nas figuras do instintitivo diabinho e o sentimental anjinho, no intento de aconselhar a razão humana a decidir o caminho correto.

Para tanto, o certo é um conceito relativo, uma vez que além do senso comum destinado ao errado, existe a perspectiva individual somada a tendenciosas aspirações egoístas, bem como benevolências extremistas. Costumo dizer que o meu diabinho teve seu tempo de liberdade até o dia em que o acorrentei nas profundezas do infinito, entretanto, nesses dias de fraqueza ele escapa, faz festa no inconsciente e vivo o descontrole.

Hoje, antes que o sol se pusesse, viajei ao topo de ambas, fervi o ódio, congelei o amor, pintei os olhos de vermelho, respirei fundo, encorajei-me a mergulhar no escuro, me perdi, retomei o ar com medo, acovardei-me diante dos pensamentos, a insanidade arrebatou, cai pelo peso da vergonha, prostrei de cansaço.


Thayze Darnieri

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

tombos




"O único homem que nunca comete erros é aquele que nunca faz coisa alguma. Não tenha medo de errar, pois você aprenderá a não cometer duas vezes o mesmo erro."


Franklin Roosevelt

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