quarta-feira, 30 de setembro de 2009

A Cabana V





“Será que liberdade significa que você tem permissão para fazer o que quer? Ou poderíamos falar sobre tudo o que limita a sua liberdade. A herança genética de sua família, seu DNA específico, seu metabolismo subatômico onde só eu sou a observadora sempre presente. Existem doenças de sua alma que o inibem e amarram, as influências sociais externas, os hábitos que criaram elos e caminhos sinápticos no seu cérebro. E há anúncios, as propagandas e os paradigmas. Diante dessa confluência de inibidores multifacetados – ela suspirou -, o que é de fato liberdade?”



trecho do livro A Cabana, de William P. Young

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Sempre não é todo dia





"Meu grito não me convencia (...)/ Botei o meu nariz a postos / Pro faro e pro que vicia / Senti teu cheiro na semente / Que a manhã me oferecia (...) / Mas sempre não é todo dia"


trecho da música Sempre não é todo dia, de Oswaldo Montenegro




Tem dias que eu tenho vontade de sentar e ficar escutando música sem parar. Deixar as melodias invadirem meus ouvidos e conduzirem ou sedarem meus pensamentos de uma forma que eu mesmo não consigo. Imaginar que de repente alguma frase perdida em alguma letra faça fazer sentido tudo aquilo que eu não consigo compreender dentro da minha cabela e no meu coração.

Acelerar ou diminuir meu ritmo de acordo com as batidas, sorrir com alguma lembrança esquecida de algum momento que tenha ficado marcado por aquela canção, voltar a sentir a mesma vergonha com direito a arrepio por toda a coluna que alguma outra me faça relembrar. Me apaixonar, enlouquecer, me dopar, esquecer.

Escolher uma música qualquer pra deixar no repeat e prestar atenção em cada nota que provavelmente eu já sei de cor e sempre soa nova. Urrar cada palavra como uma mágica que vá mudar toda a realidade existente, quem sabe até mesmo o moviento de rotação da Terra. Sonhar que fui eu quem compôs aquilo ali, ou pelo menos que eu sei cantar e tocar como eles.

Te dias que eu tenho vontade de sentar e ficar ali. Parado. E que o tempo passe. E que tudo seja apenas aquilo ali. (...) Que nada mais importe do que o que realmente importa, que é o que mesmo?

Tem dias que são apenas dias. E esse dias não são apenas dias, porque são esses dias que dão sentido a todos os outros dias, tantas vezes sem sentido. Tem palavras que justificam emoções que não se expressam com palavras e tem emoções que inspiram palavras, que inspiram canções que geram emoções que me dão vontade de sentar e ficar só ouvindo música sem parar. Até o mundo parar e depois voltar a girar.



texto O Profesor, de Pedro Neschling




segunda-feira, 28 de setembro de 2009

O Amor nos tempos do Cólera IX





Thayze Darnieri



Quanto tempo você esperaria por seu amor?

Diante das mocinhas mais românticas a resposta seria "para sempre", afora feminismos, muito difícil imaginar a figura masculina amando a mesma mulher sem ao menos tê-la ao lado. No entanto, para mim, seja homem ou mulher, esperar por 54 anos, nove meses e quatro dias, uma pessoa casada, com família instituída e aparentemente feliz, sobrepuja qualquer sentido e consciência de realidade.

Contudo, uma porção romântica ainda vive em mim, e esta acredita no amor eterno. Para tanto, sabe que amor nada tem a ver com consciência, realidade ou bom senso, trata-se de seguir os desmandos do coração, pois desobedecer significa ferir a si próprio, ao mesmo tempo que independente da maneira que se concretize o amor está intrínseco no menor dos gestos.

Ao seu modo, Fermina Daza e Florentino Ariza viveram sua vida como a vida lhes propôs, ela aprendeu a amar o marido que seu pai acreditou ser o melhor partido, ele tratou de se transformar no bom partido para ela. Obviamente, o filme não conseguiu absorver os sentimentos deste casal e as razões para este amor sobreviver por anos e anos, em contrapartida, deu mais sentido à doença citada no título quase não abordada no decorrer do livro.


domingo, 27 de setembro de 2009

Crime e Castigo III





"Além de que, para conhecer uma pessoa, seja ela quem for, é preciso proceder de maneira prudente e discreta, a fim de não incorrermos em erros nem juízos precipitados, que depois custam muito a desfazer e a retificar."



trecho do livro Crime e Castigo, de Fiódor Dostoiévski

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

em greve





Thayze Darnieri



Quando julgo estar vigiando uma conduta errada, logo surge um bloqueio. Esqueço como agir e as convicções se perdem, perante a atitude que devo tomar. Senti-me assim, essa semana, no momento em que precisei decidir se aderia ou não à greve, para tanto, necessitava antes de classificar em certo ou errado, compreender os mecanismos da cessação coletiva.

É um direito outorgado pelo artigo 9° da Constituição Federal, que diz: "É assegurado o direito de greve, competindo aos trabalhadores decidir sobre a oportunidade de exercê-lo e sobre os interesses que devam por meio dele defender" e disposto pela lei 7.783, de 28 de junho de 1989, que rege as minúncias de direitos e deveres dos grevistas.

Portanto, ao se tratar de direito regulamentado por lei, não haveria sentido algum ainda me imaginar contraventora e baderneira, distante disso, passo a me considerar ciente do que insatisfaz a mim e toda a classe, bem como apta a me juntar a luta por mudança. E se estou no meio, por que não ver o funcionamento de perto? Adentrei e votei em uma assembleia, iguais aquelas que só conhecia por foto históricas do tempo que o presidente era um debatente e fiz massa em passeata, como as vistas em filme, talvez em menor número, sobre a ditadura.

Hoje, acredito verdadeiramente no poder da vontade direcionada a uma razão, visto que uma luta por um ideal se conduzida com atos persuasivos pode ser eficiente. Ficar de braços cruzados não dá, mas cruzá-los por uma causa, descaracteriza-se de pronto a estagnação.


quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Direito dos trabalhadores





"Artigo 1º - É assegurado o direito de greve, competindo aos trabalhadores decidir sobre a oportunidade de exercê-lo e sobre os interesses que devam por meio dele defender.

Parágrafo único - O direito de greve será exercido na forma estabelecida nesta Lei.

Artigo 2º - Para os fins desta Lei, considera-se legítimo exercício do direito de greve a suspensão coletiva, temporária e pacífica, total ou parcial, de prestação pessoal de serviços a empregador."



trechos da lei 7.783, de 28 de junho de 1989, que garante o direito de greve.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

o medo de brigar

foto: Thayze Darnieri



Thayze Darnieri




Não duvide, meus medos são poucos e listáveis. Apesar disso, não cabe revelar gratuitamente todos os objetos da minha aflição, entretanto, citarei o maior: o medo de brigar.

Parece idiota, e talvez seja. No entanto, é praticamente patológico: sinto um aperto no peito, uma vontade desesperadora de chorar e minhas pernas se voltam rapidamente para a saída mais próxima. Logo, meu coração dispara e percebo a vermelhidão estampada nos meus olhos, e me questiono, qual o motivo para tal desespero?

Recorrendo as explicações mais acessíveis e enlatadas, justifico essas atitudes aquém do meu controle e sem plausibilidade as minhas experiências familiares, quando discussões e brigas eram o meu cotidiano. Naquela época, possuía um dom de rebater argumentos com uma agilidade inexpressível, sempre havia resposta para a mais ínfima atitude, além de usar da fraqueza feminina como álibi.

Confesso: eu era uma peste. Contudo, como dizem “excesso em demasia”, logo perde a graça. Briguei o suficiente para mais de uma vida, discuti, gritei, me desentendi com mais pessoas que o necessário, perdi a razão. Hoje, após entender que argumentação em momentos de raiva, não tem sentido, tornei-me uma pessoa tranquila e vivo em paz.

Para tanto, não pense que é fácil me desestruturar. Tal vulnerabilidade só aflora ao toque de alguns poucos corações, é necessário conquistar o meu amor incondicional primeiro, e só dessa forma a entrada para o meu inconsciente estará aberta ao menor barulho, seja para me fazer excessivamente feliz com apenas um olhar ou jorrar um rio de lágrimas com um tom de voz.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

milhas e milhas




"Você pode dizer adeus a sua família e a seus amigos e afastar-se milhas e milhas e, ao mesmo tempo, carregá-lo em seu coração, em sua mente, em seu estômago, pois você não apenas vive no mundo, mas o mundo vive em você".



Frederick Buechner

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

aprendendo a escrever

foto: Vitor Veríssimo



Thayze Darnieri



Sempre escrevi a torto e a direita, um vendaval de palavras sussurrava em meu ouvido devagando com os pensamentos sobre todo e qualquer assunto. O único trabalho era transcrever, e quando necessário estruturá-lo, seja correções básicas seja palavras descolocadas. No entanto, ao ler as instigantes crônicas de Rubem Braga ou os contos de Lygia Fagundes Telles, suscitava em mim a ânsia em dar forma e estilo as minhas idéias.

Para tanto, é imprescindível conhecer dos estilos da qual pretendo compor. Antes o que julgo ser um gênero mais maleável pela sua proximidade com o cotidiano. Crônica, palavra que deriva do latim chronica que significava, no início da era cristã, o relato de acontecimentos em ordem cronológica. Portanto, um breve registro de eventos. Entretanto, há diferenças entre este estilo e um texto exclusivamente informativo. Mesmo o cronista buscando igual inspiração dos repórteres, algumas características distinguem um texto do outro, uma vez que, após se cercar dos acontecimentos diários, o cronista dá-lhes um toque próprio, incluindo em seu texto elementos como ficção, fantasia e criticismo, elementos que o texto essencialmente informativo não contém.

A crônica, na maioria dos casos, é um texto curto e narrado em primeira pessoa, ou seja, o próprio escritor está "dialogando" com o leitor. Isso faz com que a crônica apresente uma visão totalmente pessoal de um determinado assunto: a visão do cronista. Ao desenvolver seu estilo e ao selecionar as palavras, o cronista está transmitindo ao leitor a sua visão de mundo. Ao passo que, na verdade, expõe sua forma pessoal de compreender os acontecimentos que o cercam, geralmente, em linguagem simples, espontânea, situada entre a linguagem oral e a literária. Isso contribui também para que o leitor se identifique com o cronista, que acaba se tornando o porta-voz daquele que lê.

Em breve, tentativas.


domingo, 20 de setembro de 2009

Crime e Castigo II





"Às vezes dão-se encontros, até com pessoas totalmente desconhecidas, que despertam o nosso interesse logo ao primeiro olhar, assim, de repente, de improviso, antes de se ter trocado uma só palavra."



trecho do livro Crime e Castigo, de Fiódor Dostoiévski


sábado, 19 de setembro de 2009

Partes





Tha Basile



Meu coração muitas vezes se aperta. E me conhecendo como ele conhece, sabe a razão. Nunca pertenço, apesar de parecer livre e segura. Não me acho, apesar da auto-análise diária e de tanto esforço pra ir a fundo. Nunca chego no ponto, apesar de discorrer sobre ele como ninguém. Não mudo, apesar da constante reviravolta.

Minha cabeça pensa tudo, agora, ontem, amanhã. O corpo queria ser outro. As mãos já calejadas e algo experientes, (...). Os pés, indecisos, sempre prontos pra próxima caminhada.

Meu estômago tem borboletas voando dentro dele. Meu peito tem coragem e uma raiva que consegue ir pra garganta e sair no formato que eu quero, suave porém ácida. No meu colo, a segurança das coisas aprendidas.

Meus olhos são livres, crianças pra dentro e fora de mim, sempre à frente, sempre no mundo criado, aprendido, usado pra se esconder e pra viver diferente. Eles guardam meus sonhos e sabem de tudo que se pode tocar.

Meus lábios podem, percorrem, chamam, contam. Os ombros sofrem o peso. Agacho, levanto, dou a volta, vou até você. Todos estão aqui, em todas as partes. Me separo, mas não sei onde começo e onde acabo.


sexta-feira, 18 de setembro de 2009

visita ao médico





Thayze Darnieri



Algumas pessoas dirigem-se ao hospital em apenas duas alternativas: quando são insistentemente obrigadas ou quando sente um mal súbito de urgência. Estou, felizmente, no primeiro grupo, encaminhei-me a um médico por formalidade de trabalho, após exame, um chato questionário e longa espera, cheguei ao fatídico compromisso.

- Olá, tudo bem? Sente-se.

- Obrigada.

- Tem sentido alguma dor ou anormalidade recentemente?

- Não, só uma dor no braço. Normal!

- Venha até a maca.

- Sim, pode deitar?

- Por enquanto não. Sente-se e junte o dorso das mãos na altura do peito. Dói?

- Não, nada.

- É preciso esperar um minuto. Dói?

- Não, talvez uma pontadinha no pescoço. Normal!

Tirou o estetoscópio que estava envolto no seu pescoço e encostou no meu peito.

- Respire fundo com boca aberta.

Agora nas costas.

- Novamente. Huum! Deite-se.

Sondou dores e irregularidades no meu ventre.

- Dói. Normal!

- De novo.

- Doeu mais, mas normal!

- É, esse excesso de dores não é normal, embora seja necessário investigar a intensidade e as origens. Na verdade, se quer classificar, chame-as de habituais, uma vez que, parece-me que elas te fazem companhia, então, acabou por se acostumar. Normal é não sentir dor!

Saí de lá com a sensação de dever cumprido e junto comigo as minhas dores normais.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

"Cosa mentale"





"Criaram a lenda de que ele escrevia com rapidez capaz de fazer um romance em 11 dias e crônicas em cinco minutos. Era em parte verdade, mas bastava uma olhada superficial na sua produção para avaliar o grau de sua incontinência literária. Uns pelos outros, tudo o que vinha dele tinha o sinal da pressa, até mesmo da afobação em ficar livre do compromisso com uma editora ou com um jornal.

Com o tempo, ele se habituou a receber a crítica, que era mais negativa do que positiva, mas não dava muita bola para isso. Antes mesmo de alguns políticos declararem que se lixavam para a opinião pública, ele continuava na dele, não sabendo produzir nada a não ser a seu modo e circunstâncias.
.
Até o dia em que uma amiga o viu preocupada. Passara o dia fechado em si mesmo, não queria nada, pediu que ela ficasse quietinha, o deixasse em paz. Paz que ele prolongou até a tarde seguinte, quando teve de enfrentar o computador e desovar a matéria pedida pelo editor. Não gastou mais de cinco minutos. A amiga elogiou sua facilidade. Em poucos minutos saíra uma crônica que dava para o gasto.

Olhou com espanto para a amiga. Ela contara apenas o tempo que ele digitara o texto. Mas esquecera de contar os dias, meses e anos que levara para chegar áquele ponto. Para ser exata, ela deveria contar 50 e tantos anos mais os cinco minutos gastos na digitação.

E, como o tempo continuava a passar, cada vez mais ele tinha de dosar a rapidez da tarefa com a permanência dos assuntos que o preocupavam mais fundamente. Chegou a fazer uma espécie de tabela: um dia inteiro para produzir uma crônica, sua vida inteira para produzir um romance. Parafrasenando Leonardo da Vinci, ele descobriu que viver também era uma 'cosa mentale'".



crônica "Cosa mentale", de Carlos Heitor Cony, publicado no jornal Folha de São Paulo, no dia 4 de agosto de 2009.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Crime e Castigo I




"E nisso não porque fosse covarde ou tímido, pelo contrário; simplesmente, havia algum tempo já que se encontrava num estado de excitação e enervamento parecido com o da hipocondria. Estava a tal ponto apegado ao seu quarto e afastado de todos, que receava encontrar-se com quem quer que fosse e não somente com a dona da casa."



trecho do livro Crime e Castigo, de Fiódor Dostoiévski

terça-feira, 15 de setembro de 2009

caminho de volta

foto: Thayze Darnieri



Thayze Darnieri



Ontem, no trabalho, surgiu do nada o cheiro da saída arborizada da biblioteca onde estudávamos, aproveitei o ensejo sensorial e fiz conosco o caminho de volta para casa.

Talvez seja devido a data de hoje, conjurei as cenas que sucederam, lembrei-me do dia da convocação. Naquele dia, assistia aula, saí de súbito quando vi que era você quem ligava, ouvi atentamente a sua notícia, desliguei o telefone, sentei e passei a imaginar qual seria a sensação.

Era a concretização de um desejo, o resultado da busca e o início de uma nova vida. Isso tudo sem considerar a sede onde aconteceria esses fatos. Hoje, faz um ano que estive doente só de imaginar a minha vida tão distante da sua, o vazio e a espera crescente a cada dia sem notícia.

Logo, passamos a dividir o mesmo tempo, iguais tarefas, coincidências inacreditáveis, dentro e fora do ambiente de trabalho. Assim, fomos obrigados a aprender, mais do que nunca, o exercício da convivência extrema: quase nos matamos, morremos de dar risadas juntos, sofremos por condições parecidas, equiparamos costumes e hábitos, discutimos e conversamos demasiadamente e nisso vão muitas semanas sem um pio.

Fico sem saber onde por as mãos, se felicito ou vibro por um ano vencido e retomo a contagem regressiva. Sei apenas que o produto dos dias vividos ao seu lado é uma nova tarefa a ser executada aliado ao desafio a ser vencido, uma vez que, diariamente nem que seja um olhar, uma expressão, um silêncio ou um longo papo, inevitavelmente, vêm intrínseco uma gigantesca gama de conhecimento e aprendizado.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

quem será a vítima?




"Como ouço desde pequeno que o muno vai acabar, e nunca acaba, pelo menos até hoje, não sou de dar ouvidos a esses profetas. Principalmente aqueles que profetizam ameaças para curvar súditos a seus interesses mundanos.

Agora, convenhamos, não é preciso ser profeta para vislumbrar que alguma ruína virá. Quem será a vítima?"


trecho do texto Juízo final, de Valdo Cruz, publicado no jornal Folha de São Paulo, no dia 29 de julho de 2009.

domingo, 13 de setembro de 2009

sem asas






“Seria como se este pássaro, cuja natureza é voar, optasse somente por andar e permanecer no chão. Ele não deixa de ser pássaro, mas isso altera significativamente sua experiência de vida.”


trecho do livro A Cabana, de William P. Young




Não sou bonita, nem vaidosa ou sequer fashionista. Remotamente falante, pouco comunicativa e esforço-me em parecer simpática. Fatidicamente, perdi a espontaneidade na rua do tempo sem preocupações.

Não sou inteligente, nem polêmica, muito menos carismática ou sequer informada. Inconscientemente, fugi de leituras compulsivas e da procura incessante por notícias, ainda que os papéis permaneçam em minhas mãos, sem tino, faro ou criticidade, transformaram-se em um jorro inútil de tinta, palavra atrás de palavra, sem valor.

Não sou sensível, nem observadora ou organizada, meus olhos e mente não aprenderam a distinguir miudezas, frestas, cores, poeiras ou detalhes. Jamais serei uma mulher compulsivamente metódica, apesar de ser viciada em planejamentos.

Não sou uma figura prática, desconheço a ciência e a teoria de como agir após o segundo clique. Esqueci como se enxerga os defeitos ou desenganos, construí uma linha em volta de mim para sobreviver e não há mais forças para ultrapassá-la.

Houve uma época que tive a impressão de me conhecer completamente, portanto, apta a ditar o meu destino. Hoje, senti saudade daquela menina que se julgava "gente grande", com sua destemida impetuosidade e sugestiva segurança, mas evaporou rapidamente. Sem pensar duas vezes, emprego meu apreço na intuição e na paciência, uma vez que, mesmo que o pensamento viaje milhas do chão, são elas que me resgatam e adequam as inquietações ao ambiente que vivo.




Thayze Darnieri

sábado, 12 de setembro de 2009

muitas vezes




"É muito difícil você conseguir vencer numa boa. Pra vencer você tem que lutar, e essa luta muitas vezes significa indispor de certa forma com algumas pessoas, pra prevalecer aquilo que você acredita. Teu ponto de vista, tua cabeça, a tua personalidade acima de tudo. E se você não lutar pra valer, você acaba perdendo teu próprio rumo. E se você perde o teu próprio caminho, você não é ninguém. Então, pra conseguir manter essa linha de conduta, você tem que lutar muito. E, muitas vezes, tem que brigar mesmo."



Ayrton Senna

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

verdade sem rosto




Thayze Darnieri




Se um dia, fosse contar a sua história, você mudaria o nome dos personagens?

É uma questão de princípios, uma vez que automaticamente designa violação de privacidade. No entanto, para quem não é parte ativa do enredo, um nome é apenas um nome, não será este que denominará o indíviduo, o julgamento se dará perante a conduta adotada no decorrer da trama.

Em contrapartida, um vilão veste a maldade diante da perspectiva na qual a história é construída, existe a possibilidade plausível das suas atitudes não configurarem atos perversos por outro ângulo. Nessa mesma linha de pensamento, o mocinho jamais será totalmente puro, logo, surgirá um embate no meio do caminho que o fará decidir entre destinos distantes do senso comum.

Dentro de mim, moram vilões e mocinhos, sem rosto ou sequer nome, devidamente adornados com suas máscaras e fantasias. Às vezes, transformam-se ou se escondem tão bem que conseguem a façanha de tapear mente e enganar coração, dessa forma, o entendimento se torna difuso e é preciso calma para tomar a direção correta.

O mal não tem nome, entretanto, possui forma e derivações aparentemente belas e confiantes. Recentemente, entendi, finalmente, que é necessário acreditar que o bem reside no ser humano, sem perder a maldade de foco, visto que ao refletir assim haverá sempre, na pior das hipóteses, um alívio na realidade.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

(falsa)modéstia x humildade




"Apesar de próximas, a modéstia é um defeito, e a humildade é uma qualidade das melhores!"



Mauro Pietrobon

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

A Cabana IV





"Julgar exige que você se considere superior a quem você julga.

(...)

Como é que ele ousava julgar alguém? Todos os seus julgamentos haviam sido superficiais, baseados na aparência e nos atos, motivados por preconceitos, estados de espírito ou por sua necessidade de sentir-se melhor ou superior."



trecho do livro A Cabana, de William P. Young

terça-feira, 8 de setembro de 2009

superar e novamente superar




"Não é fazer o que dá prazer que garante a integridade pessoal nem a autonomia. Muito menos a liberdade. O prazer passa logo, como também os desejos variados e superficiais que sentimos. Muitas vezes, o prazer sentido está ligado só a aspirações sem raízes, a interesses vagabundos.

(...)

Felicidade, autonomia, integridade só vêm como resultado de nossas ações. E só nos sentimos livres quando superamos nossas limitações."



trecho do texto Paulo e Eliane, de Dulce Critelli, publicado no jornal Folha de São Paulo, no dia 23 de julho de 2009.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

A Cabana III





“Vivera em um só dia anos de emoções e agora sentia-se entorpecido, à deriva num mundo subitamente sem significado.”



trecho do livro A Cabana, de William P. Young

domingo, 6 de setembro de 2009

foi melhor assim

foto: Vitor Veríssimo



"Quanto mais você julga, menos você ama".


Balzac


Um sonho: viver uma vida pacata, distante de qualquer percalço. Contudo, a vida mergulhada em sua cremosa ironia insiste em ferir-me com o baú das lembranças, no momento que, finalmente, consegui voltar a superfície.

Ainda não posso proclamar uma felicidade completa, entretanto, apesar dos pesares, vivo uma rotina tranquila. Era uma criança mimada, mas de súbito o meu castelo de areia desmoronou, de um dia para o outro, perdi refúgio, esteio e fortaleza. Estava perdida e sozinha, não havia familiaridade ou sequer afinidades, dessa forma, obriguei-me a esquecer prepotência, inquietude, timidez, traumas, manias, medos, bem como internalizar a tagarelice acerca das resoluções firmadas por mim para mim.

Devo muito aos meus pais. No entanto, sobretudo, graças as pessoas que estenderam suas mãos em minha direção, adentraram sorrateira ou violentamente os meus dias, abriram as portas de suas casas, dividiram seu teto comigo e ofereceram lições eternas de vida, transformei-me no ser humano que sou hoje.

Podia ter sido diferente, mas prefiro acreditar que foi melhor assim.



Thayze Darnieri

sábado, 5 de setembro de 2009

Canção Nova

foto: Thayze Darnieri



Thayze Darnieri



Com o tempo, percebi-me distante de qualquer preconceito, sem saber sempre estive aberta as experiências e oportunidades propostas pela vida. Após tomar ciência desse preceito antigo decidir deixou de ser um processo doloroso, visto que automaticamente segue-se no íntimo da mente a pergunta: por que não?

Foi pensando assim que parei na cidade de Cachoeria Paulista, no interior do estado, disposta a regalar o feriado da independência. Entretanto, qual o atrativo deste pacato município com pouco mais de 30 mil habitantes? A força de vontade aliada a uma imensa gana pela evangelização: a Comunidade Canção Nova, um dos maiores sistemas de doutrinação católico, uma vez que, possui diversas as emissoras de rádio espalhadas pelo país, uma rede de televisão de longo alcance e o site recordista de acessos do segmento.

Contudo, antes de atingir a grandiosidade atual, esta comunidade fundada pelo Monsenhor Jonas Abib, no ano de 1978, seguindo as linhas da Renovação Carismática Católica levou a crescente massa de fiéis a sua sede agitando uma pequena cidade, por meio do turismo religioso, um peculiar segmento de mercado, ao passo que a sua motivação fundamental é a fé. Portanto, depende profundamente do calendário religioso da localidade receptora do fluxo turístico, bem como a história da atividade, sendo assim com períodos menores de baixa temporada. Promove, constantemente, eventos, como shows, retiros, encontros, acampamentos e peregrinações, juntando ao redor de si grupos de pessoas que participam de suas atividades e de seus grupos de oração, além de uma linha de produtos diversificada: livros, CDs, vídeos, roupas, bonés, entre outros suvenirs. Conta, também, com o Centro de Evangelização Dom João Hipólito, um rincão que tem a capacidade de receber quase 100 mil pessoas sentadas sendo o maior vão livre da América Latina.

A Canção Nova tem sua sede na Chácara Santa Barbara que conta com dois centro de evangelizações, amplo espaço para acampamentos campal, o DAVI - Departameno de Áudio Visual fuciona como um centro de distribuição de todos os produto da Canção Nova. A exemplo de ordens católicas e de outras religiões, a comunidade "Canção Nova" conta com a contribuição de fiéis, através de doações. Estima-se que a comunidade movimente ao mês cerca de 15 milhões de reais.


sexta-feira, 4 de setembro de 2009

má-fé não declarada





"A leitura de alguns textos sugere que seus autores não têm interlocutores: têm inimigos! Consideram-se portadores de uma "ciência" e creem que os qualificam suas conclusões, ou são ignorantes ou escondem objetivos não declarados e, na pior hipótese, têm má-fé."




trecho do texto Os puristas e o Brasil, de Antonio Delfin Neto, publicado no jornal Folha de São Paulo, no dia 29 de julho de 2009.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

A dança da fada de açúcar





Thayze Darnieri




A educação que recebi jamais privilegiou sutilezas como a música clássica, nem mesmo os culpo, ainda que acredite no incrível poder das notas soltas nos ouvidos desde a infância, o meu contato só se deu na idade adulta, quando fui morar com uns amigos e passei a frequentar esporadicamente, nas terças-feiras, gratuitamente as apresentações da Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional Claudio Santoro.

Ouvia obras, em casa e na orquestra, de compositores que conhecia apenas o nome. Até hoje, entretanto, o meu saber acerca desse estilo musical é ínfimo, diagnostico preferências de acordo com o coração, se a melodia me toca de alguma forma gosto de imediato, depois que venho a tomar conhecimento do autor, época e estilo.

Para tanto, semana passada, recebi a incumbência de encontrar uma música que havia ouvido apenas algumas vezes, sem saber nem mesmo o nome. Sapeei daqui, escafunchei de lá: a canção era A dança da fada de açúcar, de Tchaikovsky. Tal criação expressa através da combinação de sons a magia de uma fada com uma melodia rica e inovadora, por meio de um instrumento novo para aquele tempo: a celesta (vide imagem), aparentemente muito semelhante ao piano.

Coincidência ou não, é um dos compositores favoritos do propositor da missão.





quarta-feira, 2 de setembro de 2009

isso é tudo




"Nada lhe posso dar que já não existam em você mesmo. Não posso abrir-lhe outro mundo de imagens, além daquele que há em sua própria alma. Nada lhe posso dar a não ser a oportunidade, o impulso, a chave. Eu o ajudarei a tornar visível o seu próprio mundo, e isso é tudo".



Hermann Hesse

terça-feira, 1 de setembro de 2009

A Cabana II




“Quando fala, dá a impressão de ser uma espécie de alienígena que vê a paisagem das ideias e experiências humanas de modo diferente de todas as outras pessoas.
O que acontece é que as coisas que ele diz causam um certo desconforto em um mundo onde a maioria das pessoas prefere escutar o que está acostumada a ouvir, o que frequentemente não é grande coisa.”



trecho do livro A Cabana, de William P. Young

Pop