segunda-feira, 31 de agosto de 2009

o maior amor do mundo

foto: Marília Rodrigues


“O amor é fogo que arde sem se ver / É ferida que dói e não se sente / É um contentamento descontente / É dor que desatina sem doer.”


Luís de Camões


O amor é um sentimento tão diverso, que, às vezes, se torna indefinível. Para mim, covardemente sempre nasce grande e intenso, à medida da reciprocidade ele tende a crescer em proporções inimagináveis ou desaparecer a perder de vista.

Após atentar-me as experiências alheias concordo com a teoria reversa, uma vez que, se o amor for tratado como uma criança, que quando estimulada se desenvolve bela e saudável ou se esquecida definha até a morte, é uma solução menos dolorosa, livra-se de pronto o sofrimento da decepção.

No entanto, quem vislumbra-se em aspirações benéficas com beleza incomparável, engana-se. O amor é egoísta: se evito rusgas, se procuro diminuir os erros, se observo os seus hábitos e me preocupo, se desejo saber das suas conquistas ou medos, se fico doente de saudades, se estou sempre ao seu lado, se as lágrimas escorrem incessantemente, se enlouqueço perante teimosias desnecessárias, se me desespero quando ouço o silêncio, se sinto ciúmes, se concedo uma segunda chance, não é por causa de um amor puro e livre, a real razão é o medo latente de um dia acordar e esse sentimento não mais pulsar.

Hoje, ainda não há como fugir, se quiser que o resultado dessa equação seja felicidade a proporção maior está ligada a alegria de espírito de outrem. Hoje é você, ontem foi ele, sempre é a minha família, de vez enquanto pessoas que marcaram momentos, qualquer dia um amigo em especial, amanhã o passado. Um dia, com sorte, talvez aprenda a amar sem cobrar tanto da vida, sem exigir tanto de mim, simplesmente ame.





Thayze Darnieri

domingo, 30 de agosto de 2009

tanto faz?




"A vida abastecida facilmente deixa a gente mole, inerte. Somos, hoje, pessoas cheias de caprichos, mas com vontade enfraquecidade. Pessoas sem poder."



trecho do texto Paulo e Eliane, de Dulce Critelli, publicado no jornal Folha de São Paulo, no dia 23 de julho de 2009.

sábado, 29 de agosto de 2009

O Morro dos Ventos Uivantes




Thayze Darnieri


Hoje, ele é minha vida, no sentido mais literal da palavra. A convivência extrema faz com que a minha rotina se misture a dele, tanto que a movimentação no quarto ao lado reflete nas ações do lado de cá, um exemplo da aspiração preceitos de rotina foi a música Wuthering Heights um hit que ecoou por várias e várias vezes nestas paredes.

Esta canção interpretada na versão original por sua autora, Kate Bush, é inspirada no livro O Morro dos Ventos Uivantes, a única obra de Emily Brontë, o romance intenso e confuso entre a orgulhosa Cathy e bruto Heathcliff. Para tanto, após um forte contato com essa melodia, nada seria completo sem o conhecimento da versão cinematográfica da história de Emily.

Confesso que deveria ter ciência do desenrolar dos fatos, uma vez que, li a novela há muitos anos atrás, por obrigação escolar. No entanto, como forçar um ser a aprender algo distante do seu interesse, simplesmente me preparei para a avaliação, nunca para guardar a essência das páginas.

O filme O Morro dos Ventos Uivantes (1939) já vale a pena pela experiência em assistir cenas em preto e branco, distante da plástica de artifícios tecnológicos que passa ainda mais veracidade à pureza do amor antigo. Típico enredo romanceado, facilmente confundido com estilo Jane Austen de traçar as teias amorosas, entretanto, fugindo do desfecho "felizes para sempre".



sexta-feira, 28 de agosto de 2009

dia do bancário





Thayze Darnieri



Quando era pequena, me imaginava uma adulta vestida de branco cuidando de crianças iguais a mim. Sonhava ser médica. Algum tempo passou, minha personalidade foi tomando forma e me descobri apaixonada pelas palavras, vieram os vestibulares e assinalava sem pensar a opção: Jornalismo. Inúmeras tentativas e nada, comecei, então, a pensar friamente, deixei de desejar e escolhi sentenças práticas. Deparei-me com a Pedagogia, estudei a teoria da sala de aula, sem nunca me enxergar a frente de uma turma. Até que um dia, cogitei seguir os passos do meu pai, finalmente, as engrenagens inacreditavelmente começaram a se encaixar. Vamos ver até quando...

Em 28 de agosto de 1951, a categoria bancária iniciava uma das mais longas e vitoriosas greves da história: após 69 dias de paralisação, os banqueiros acabaram concedendo 31% de aumento. Entretanto, os trabalhadores de São Paulo foram os únicos em todo o Brasil a manterem suas reivindicações e não aceitaram a proposta de 20% oferecida inicialmente pelos bancos. Decidiram parar e acabaram dando início ao movimento que marcaria o Dia do Bancário.

O preço pago foi alto, com forte repressão do governo estadual, do Ministério do Trabalho e até da Igreja. Logo, com o fim vitorioso da greve, os banqueiros acabaram demitindo algumas lideranças e transferindo outras para cidades do interior. Apesar da dificuldade de rearticulação dos trabalhadores nos anos seguintes, a greve resultou não só num aumento salarial maior para São Paulo, mas também levou suas lideranças a outros municípios, propiciando a formação de vários sindicatos bancários pelo Estado, além de questionar a lei de greve do governo Dutra.



quinta-feira, 27 de agosto de 2009

única verdade




"Rotineiramente desqualificamos testemunhos e exigimos comprovação. Isto é, estamos tão convencidos da justeza de nosso julgamento que invalidamos provas que não se ajustem a ele. Nada que mereça ser chamado de verdade pode ser alcançado por esses meios".



Marilynne Robinson

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

A Cabana I




"Há ocasiões em que optamos por acreditar em algo que normalmente seria considerado absolutamente irracional. Isso não significa que seja mesmo irracional, mas certamente não é racional. Talvez exista a supra-racionalidade: a razão além das definições normais dos fatos ou da lógica baseada em dados. Algo que só faz sentido se você puder ver uma imagem maior da realidade."




trecho do livro A Cabana, de William P. Young

terça-feira, 25 de agosto de 2009

dona de mim

foto: Edna Dantas



Thayze Darnieri



Quando meus olhos abriram pela primeira vez, foram os seus olhos que vi, neste momento, descobri o que era amor de verdade. Mesmo após sair do seu ventre o seu ar ainda era essencial para minha existência, meu coração morria aos poucos somente em imaginar a vida sem ela.

Durante esses anos, diversas personalidades habitaram o meu consciente e o seu inconsciente. Resultado do dia-a-dia permeado de risos e lágrimas, adaptamo-nos as surpresas diárias. Tanto que houve um tempo que éramos melhores amigas e/ou irmãs gêmeas, imaginava saber das suas dificuldades e contava prontamente as minhas, as conversas eram constantes, nem ao menos dormir longe dela eu conseguia.

Ao seu modo, criou a mim e ao meu irmão da melhor maneira que pôde, para mim, da maneira mais eficiente: baseada na confiança. Uma vez que, ao observar o relacionamento de outros filhos com suas mães, vejo laços aparemente distantes de qualquer peso, rusga e desentedimento, mas tais ligações são imersas em mentiras, preferem inventar histórias mirabolantes ao invés de colocar as cartas na mesa.

Hoje, depois de viver uma dolorosa época de desintoxicação, continuo a sentir o maior amor do mundo, no entanto, sem aquela forte dependência de outrora. Portanto, com o olhar livre para enxergar uma mulher intensa, dona de uma personalidade singular, portadora de beleza multifacetada e excepcionalmente inteligente.


segunda-feira, 24 de agosto de 2009

motivo para esquecer





"Esforço inútil, porque tudo será esquecido. A memória não é burra. Não carrega conhecimentos que não fazem sentido. A memória inteligente sabe esquecer."



trecho do texto Fim dos Vestibulares?, de Rubem Alves, publicado no jornal Folha de São Paulo, no dia 12 de maio de 2009.

domingo, 23 de agosto de 2009

Lua Nova III





"O mundo oscilou, inclinando-se do jeito errado em seu eixo.

Que tipo de lugar era esse? Poderia realmente existir um mundo onde lendas antigas ficavam vagando pelos limites de cidadezinhas mínimas e insignificantes, enfrentando monstros míticos? Isso queria dizer que todo conto de fadas impossível era baseado em alguma verdade absoluta? Havia, afinal, alguma coisa racional ou normal, ou tudo era magia e histórias de fantasmas?"



trecho do livro Lua Nova, de Stephenie Meyer

sábado, 22 de agosto de 2009

O gato que gostava de cenouras







O telefone tocou. Queriam uma entrevista sobre o livrinho "O gato que gostava de cenouras". Não entendi o nome da revista porque estou ficando meio surdo e, por vergonha, não pedi que repetissem. A entrevista começou...

Gato gosta de peixe, de rato e de passarinho. Gato não gosta de cenoura. Numa terra de gatos, um gato que gostasse de cenoura seria uma aberração, uma vergonha para os pais, motivo de chacota e zombaria na escola...

O nome dele era Gulliver; carinhosamente, Gullinho. Seus pais não sabiam do seu gosto pelas cenouras. Comer cenouras era um ato secreto, escondido. Seus pais só se preocupavam com o fato de que ele não comia os deliciosos ratinhos recém-nascidos, os pardais saborosos, os peixes cheirosos que lhe traziam para abrir o apetite.

Gullinho era diferente dos demais gatos. E isso fazia seus pais sofrerem muito porque o que os pais mais desejam é que seus filhos sejam iguais aos outros.

O fato era que os pais de Gullinho ignoravam que ele, escondido, comia a comida proibida, cenoura... A mãe acabou por desconfiar das incursões secretas do Gullinho e disse ao pai que seria melhor segui-lo para ver onde ele estava se metendo. Foi o que o pai "sogateiramente" fez.

Gullinho caminhava com cuidado, olhando para todos os lados para ver se estava sendo seguido. Andou até chegar ao sítio do senhor Joaquim. Havia canteiros com todos os tipos de hortaliça. Gullinho foi até o canteiro de cenouras e - oh! Coisa horrenda para um pai gato - começou a comer cenouras.

O pai do Gullinho quase morreu de susto. Seu filho que ele sonhara tigre não passava de um coelho. E chorou amargamente...

Resolveu procurar auxílio. Procurou um padre que ameaçou Gullinho com o Inferno. "Deus é gato. Deus ordenou que nós comêssemos peixes, ratos e passarinhos. Comer cenoura é pecado mortal!" Mas não adiantou... Gullinho continuou a vomitar peixes, ratos e passarinhos...

Aí eles o levaram ao psicanalista. A análise durou vários anos. Mas o que o doutor Gatan lhe dizia com linguagem complicada não alterava o seu gosto: ele continuava a gostar de cenouras...

Foi então que um professor da escola chamou o Gullinho para uma conversa e lhe disse: "O nosso destino está escrito nas células do nosso corpo num 'chip' bem pequeno chamado DNA. Ele já está no feto, determinando a cor do seu pelo, a cor dos seus olhos, se você vai ser menino ou menina, daltônico ou não, canhoto ou destro. Você nada pode fazer para mudar as ordens que estão no seu 'chip'. E acontece o mesmo com o nosso gosto por ratos ou por cenouras... Não é pecado, como o padre disse, porque foi o DNA que o fez assim... Não é resultado de educação porque foi o DNA que o fez assim... E nem pode ser curado, como se fosse uma doença, porque é o DNA que o fez assim... Igual ao daltonismo".

Gullinho olhou em silêncio para o professor e, pela primeira vez, entendeu tudo. E ele sentiu que um enorme peso fora tirado de cima dele. Entendeu então que ele podia gostar de cenoura porque fora o DNA que o fizera assim - e ninguém tinha nada com isso.



crônica O gato que gostava de cenouras, de Rubem Alves, publicado no jornal Folha de São Paulo, no dia 4 de agosto de 2009.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

astúcia?




"Quando sou boa, sou muito boa, mas quando sou má, sou melhor ainda".




Mary Jane West

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Nada Normal

foto: Marília Rodrigues



"... Aos nossos olhos tudo o que já vimos foi vertigem
É tudo tão real, mas nada normal


Te lembro e já me sinto ao seu lado, no seu mundo
Me identifico com você de um jeito tão profundo
E é tudo tão real, mas nada normal"



trecho da música Nada Normal, Victor e Léo

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

silêncio consentido





"A necessidade cada vez mais aguda de ruído só se explica pela necessidade de sufocar alguma coisa".



Konrad Lorenz

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Lua Nova II





"O tempo passa. Mesmo quando isso parece impossível. Mesmo quando cada batida do ponteiro dos segundos dói como o sangue pulsando sob um hematoma. Passa de modo inconstante, com guinadas estranhas e calmarias arrastadas, mas passa. Até para mim."



trecho do livro Lua Nova, de Stephenie Meyer

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

espelho genético

foto: Vitor Veríssimo



Thayze Darnieri




Quando, por muito tempo, fixa os olhos na cena, inconscientemente, aprende-se a focalizar nos contextos, decorar os passos e descartar os pontos cegos. Logo, após sair de foco os olhos perdem os clichês, reaprendem a olhar em volta e ao retomar ao primeiro ato enxerga aspectos antes invisíveis.

Ontem, revi minha mãe após alguns meses, via webcam. No entanto, não sabia o quanto assustador essa experiência a princípio simples seria, uma vez que, a disposição das imagens propõe observar-se e visualizar o outro. Para mim, se ver ao executar tarefas rotineiras já é no mínimo constrangedor, aumenta, ainda, ao ter ciência de um espectador. Por isso, foquei-me nela, entretanto, enganei-me no alívio, enquanto a assistia tinha a sensação prisioneira de estar me vendo, tudo era compassadamente igual ao meu universo e constumes: o cenário, trejeitos das mãos, os vícios de postura, as expressões, além do óbvio e “exclusivo” modo de cruzar as pernas ao sentar.

Por se tratar de duas mulheres, em idades tão distantes, experiências, oportunidades, felicidades, decepções, caminhos e sonhos diferentes, sobretudo, personalidades gritantemente contrárias, há um resquício quiçá genético intrínseco nos pequenos gestos.

Isto explica bastante coisa!

domingo, 16 de agosto de 2009

por que não ovo?




"E agora estão dizendo que foi tudo um engano, o ovo é inofensivo. O ovo é incapaz de matar uma mosca. A próxima notícia será que bacon limpa as artérias."

trecho da crônica Ovo, de Luis Fernando Verissimo



Antes de começar devo assumir: Veríssimo (este com acento), mais uma vez, você estava certo.

Entretanto, a minha afirmação ferrenha era fruto de uma crença antiga, uma lenda contada mundialmente durante séculos em todas as rodas de discussão familiar sobre saúde ou alimentação, ou as duas coisas.

- Ovo faz mal, menino! Aumenta o colesterol e junto as chances de infarto/derrame. Olha só o que aconteceu com a sua tia.

Para tanto, o grande vilão tido como perigoso durante décadas foi resgatado por pesquisadores do mundo todo. Definitivamente, ele não aumenta as taxas de colesterol no sangue e, pasmem, ajuda a emagrecer.

Em 2007, finalmente, após duas décadas de acompanhamento e análise em um grupo heterogêneo constatou-se não haver qualquer relação entre o consumo regular de ovos e o aumento da incidência de doenças cardiovasculares. Sendo que, não houve diferença entre aqueles que comiam um ovo ou mais por dia em comparação com quem não comia nenhum.

O ovo é um alimento de alto valor biológico, rico em proteínas, contém todos os aminoácidos essenciais e, ainda por cima, é muito barato. Além disso, longe das injúrias creditadas a ele, produz um antídoto natural para evitar que seus níveis de colesterol aumentem demais, uma substância chamada fosfolipídeo, ou lecitina, responsável por interferir na absorção dessa gordura e impedir que seja captado pelo intestino, a partir de onde, naturalmente, iria para a corrente sanguínea.

A lista de benefícios é extensa e, sobretudo, praticamente a totalidade dos nutrientes estão concentrados na gema, justo a região mais temida, visto que é onde localiza-se, também, gordura nociva. Por sua vez, a gema é fonte de ferro, possui altas doses da substância colina, apontada pelos pesquisadores como nutriente importantíssimo para o desenvolvimento fetal, ainda protege o cérebro e a memória. Bem como, o ácido fólico encontrado junto com as outras vitaminas, especialmente a B6, é capaz de reduzir os níveis sanguíneos de homocisteína essa, sim, uma substância que faz muito mal para o coração.

E tem mais: acredite, comer ovos mexidos no café da manhã ajuda a emagrecer. Um estudo comparou dois grupos de mulheres em dieta visando o emagrecimento: o primeiro comeu dois ovos mexidos no desjejum e o segundo alimentos à base de carboidratos, como pães, torradas e bolos. A quantidade de calorias dos dois cardápios, porém, era sempre a mesma, sem distinção nos níveis de colesterol e de outras gorduras. E, ao final de dois meses, aquelas que optaram pelos ovos emagreceram 65% mais do que as outras. Ainda não se sabe o mecanismo exato, só a comprovação de que a preparação de ovos mexidos oferece uma sensação de saciedade maior e mais duradoura.

Conclusão: o consumo de mais de um ovo por dia, moderando na quantidade de gordura depositada na frigideira, não causa impacto significativo sobre o risco de doenças coronarianas e derrame em homens e mulheres saudáveis. Portanto, essas novas evidências mostram apenas que as recomendações para que o ovo fosse retirado do cardápio foram no mínimo exageradas, causadas por excesso de zelo e conclusões apressadas.



Thayze Darnieri


sábado, 15 de agosto de 2009

simplesmente amor





"O amor pode se dividir em várias pessoas no coraçãozinho de uma única pessoa. Mas onde eu quero chegar? Eu quero chegar no fato: Uma mesma pessoa se apaixona por várias, logo tem a oportunidade de conhecer várias pessoas com quem poderia ter uma vida a dois agradável.
Pessoa.
É essa a palavra importante.
(...)
Eu me apaixono por uma pessoa, não por um sexo!"




Ígor S. Blasra, alterego de Mauro Pietrobon

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

por um segundo





Thayze Darnieri




Todos os dias, quando é necessário obedecer horários, uma rotina caminha inanimada perante os nossos olhos: a programação da televisão, os intervalos do metrô, as ofertas imperdíveis, os ambulantes de rua, os passageiros do ônibus, o cardápio do restaurante, a movimentação das pessoas, a metragem das filas são sempre iguais.

Há quem diga que a repetição leva a perfeição, nesse caso, torna-se quase uma excelência obsessiva pelos segundos exatos e o ritmo dos passos. Entretanto, hoje, experimentei estar deslocada do meu universo, uma vez que mudei, por um dia, a entrada no trabalho. Senti-me distante do caminho habitual, estranhei desde a intensidade do sol até as brecagens no andar.

Por um segundo, perdi dois metrôs quando estava apenas 3 minutos fora do plano ao sair de casa, vi um acidente de moto com uma criança sem conseguir desviar os olhos enquanto não percebi que a menina reagia, por isso cheguei 2 minutos após o ônibus sair do ponto, esperei pelo próximo por mais 5 minutos, cheguei 10 minutos depois do horário demarcado. Sendo assim, saí proporcionamente tarde, esqueci minha sacola, voltei para buscá-la e perdi um ônibus, esperei por outro, cheguei atrasada ao meu destino.

No entanto, ao pensar naquela criança de capacete rosa no meio da Domingos de Moraes, ponderei o atraso como uma reação oportuna, visto que um minuto a mais ou a menos poderia ter evitado aquela colisão. Dessa forma, enxerguei nos meus minutos perdidos a possibilidade de tempo ganho, já que jamais saberei quais consequências evitei vivenciar por causa de um elevador que nunca para.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

surto retardado





"Cansa de compreender sabe? É que dói. Eu também, o outro dia me doía tanto tudo... Parecia que um líquido vital saía de dentro de mim. E à medida que o sumo grosso ia escapando, meu corpo sentia uma espécie de torpor, ia dando uma paz sublime e eu percebia que a dor estava indo embora junto com a vida. Que delícia... Deve ser por isso que as pessoas se viciam em morfina."



trecho da crônica Ciúmes, de Maitê Proença

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Lua Nova I



"Não conseguia me lembrar de quanto tempo se passara desde o anoitecer. Será que ali era sempre tão escuro à noite? Com certeza, como sempre, alguns feixes de luz do luar se infiltrariam pelas nuvens, através das frestas do dossel das árvores, e encontrariam o chão.

Não naquela noite. Naquela noite o céu estava completamente negro. Talvez não houvesse lua - um eclipse lunar, uma lua nova.

Uma lua nova. Eu tremi, embora não estivesse com frio.

Ficou escuro por um longo tempo antes que eu os ouvisse chamando.

Alguém gritava meu nome."



trecho do livro Lua Nova, de Stephenie Meyer

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Sutilmente

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"E quando eu estiver bobo, sutilmente, disfarce..."



trecho da música Sultimente, do Skank

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

paixonite pelo falso





"Quando sentimos falta de uma pessoa, surge a centelha que dá espaço para o imaginário. Tendo tudo a tempo, não pensamos. Esperar põe em contato o que se percebe e a memória e é o passo inicial para um dos primeiros "insights" da vida: saber se algo é conhecido ou não. Ao lançar mão da memória, avaliamos se o percebido é agradável ou desagradável. Daí, nossa mente pode escolher entre certo e errado. Sempre comparando.

Diante de uma falta, comparamos se é igual ou parecido com o que desejamos. Queremos nos aproximar ou nos afastar?"


trecho do texto O celular e o pensamento, de Anna Veronica Mautner, publicado no jornal Folha de São Paulo, no dia 16 de julho de 2009.

domingo, 9 de agosto de 2009

herói de cristal

foto: Angélica Abe


Thayze Darnieri





Sempre fui a queridinha do papai e, durante muito tempo, ele foi meu herói, um ser livre de defeitos ou ações puníveis e recrimináveis. O meu olhar era puro e os problemas inexistiam no meu universo infantil, no entanto, a menininha do papai não seria eternamente criança.

Um dia, meu mundo caiu e com ele o significado intocável da paternidade. Aquele homem perfeito deixou de ser imortal e mostrou sua face humana, sofri bastante ao constatar a decepção, no entanto, diante de furor do adolescer reagi institivamente com violência, destinei a ele a totalidade dos problemas de ordem psicológica e interpessoal.

Passei anos negando a sua existência, desejei até que fosse engano: ele não poderia ser meu pai. Entretanto, de um dia para o outro suscitou em mim a consciência de que essa não era a postura correta, independente dos acontecimentos e conceitos fantasiosos ele era de fato o meu pai e à sua maneira fez parte do meu desenvolver.

Hoje, somos adultos e não sobra o mínimo vestígio de rancor ou mágoa; acabamos por nos tornar companheiros de farra, bebedeira e balada; vimo-nos, de repente, sozinhos, cujo companheirismo foi nosso esteio mútuo; viramos amigos e confidentes; decidimos ao mesmo tempo mudar de vida e lutamos lado a lado por isso. Sendo assim, terminamos de crescer juntos regado a menos brigas, mais amor, pitadas de compreensão e compaixão, e regalo na força de vontade.

Tempo e maturidade: receita de sucesso para a discórdia familiar.

sábado, 8 de agosto de 2009

Museu da Língua Portuguesa

foto: Thayze Darnieri



Thayze Darnieri


Dia lindo de sol e céu azul, após algumas semanas chuvosas com baixas temperaturas, permanecer em casa é praticamente uma afronta a Deus ao concender essa pausa para apreciar o belo na natureza. Sendo assim, saímos a fim de desbravar o infinito mundo de possibilidades que há por trás da nossa porta. Contudo, devido às circunstâncias, paramos em destinos repetidos, um deles o interativo e didático Museu da Língua Portuguesa, localizado na Estação da Luz, concebido pela Secretaria da Cultura paulista em conjunto com a Fundação Roberto Marinho.

No entanto, por se tratar de um local já conhecido, acreditei não haver mais novidades para os meus olhos. Ledo engano, além de encontrar uma diferente exposição temporária, no primeiro andar: O Francês no Brasil em todos os sentidos, que explora as influências do idioma francês em nossa língua e cotidiano. A velha conhecida exposição permanente, no segundo andar, que fala da construção idioma português por meio do contato com tantos povos, entretanto, dessa vez tive a possibilidade de sentar e descobrir a origem e significado de velhas palavras. Por fim, o terceiro andar, onde está o auditório que conta com uma apresentação de um filme de 10 minutos sobre as origens da língua com a narração de Fernanda Montenegro e a fascinante Praça da Língua, uma espécie de planetário, composto projetadas e áudio de conhecidas obras escritores brasileiros.

O objetivo desse museu nada convecional é criar um espaço vivo sobre a língua portuguesa, onde há a possibilidade de causar surpresa nos visitantes com os aspectos inusitados e, muitas vezes, desconhecidos de sua língua materna. Segundo os organizadores do museu, "deseja-se que, no museu, esse público tenha acesso a novos conhecimentos e reflexões, de maneira intensa e prazerosa". Seu alvo principal é a parcela da população brasileira, composta de pessoas provenientes das mais variadas regiões e faixas sociais do país, mas que ainda não tiveram a oportunidade de obter uma idéia mais precisa e clara sobre as origens, a história e a evolução contínua da língua.



sexta-feira, 7 de agosto de 2009

pra que arrogância?




"A humildade é sempre invencível".



Georges Bernanos

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

MASP

foto: Vitor Veríssimo



Thayze Darnieri



Imúmeras vezes andando pela Paulista ao avistar aqueles enormes pilares vermelhos, suscitava em mim um desejo imenso de estar por cima do vão-livre de mais de 70 metros que compõem a estrutura do Museu de Arte de São Paulo. Entretanto, após quase 10 meses vivendo debaixo do mesmo céu, nunca havia tido a oportunidade de adentrar os seus domínios.

Esta importante instituição cultural e ícone da capital paulistana tombado por três esferas do poder executivo, é um projeto de Lina Bo Bard, esposa de Pietro Maria Bardi, idealizador junto com Assis Chateaubriand, coadjuvadas por Edmundo Monteiro, visionários para sua época, e apoiados por um grupo de amigos.

Fundado em 1947, o MASP foi criado para ser um museu dinâmico, com um perfil de centro cultural. Por isso possui espaços diferenciados para realização de exposições temporárias. O visitante sempre encontra uma novidade em sua visita ao museu. As exposições temporárias apresentam os mais variados temas ou suportes. Exposições nacionais e internacionais de arte contemporânea, fotografia, design e arquitetura se revezam durante o ano, trazendo ao público um universo de imagens.

Notável, ao longo de sua história, por uma série de iniciativas importantes no campo da museologia e da formação artística, bem como por sua forte atuação didática, visto que essa entidade cultural sem fins lucrativos mantem, para esse fim, Pinacoteca, Biblioteca, Fototeca, Filmoteca, Videoteca, Cursos de Artes e serviço educativo de apoio às exposições, exibição de filmes e concertos musicais de interesse artístico e cultural.

Contudo, na última terça-feira, dia cuja entrada é livre, finalmente, conheci o interior deste imponente exemplar arquitetônico. Talvez devido ao ingresso gratuito e a ausência de alguma exposição temporária, o acesso estava disponível apenas a um andar, dessa forma, apesar de ter contato com obras como: O Escolar, de Van Gogh e O Lavrador de Café, de Cândido Portinari, saí do prédio com a sensação de que me faltava algo.





quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Cenas Obscenas

foto: http://www.brdance.com.br/


Thayze Darnieri



O que é obsceno? Talvez nudez, violência sem propósito, cafetinagem, arrogância ou prostituição. O musical Cenas Obscenas explicíta esses elementos no costurar do espetáculo, ao suplantar o cotidiano em um bordel ao ritmo da música.

Sem o pretexto de contar um história no sentido clássico: início, meio e fim. No entanto, o título fala sozinho, cenas soltas interpretadas com o desenhar do corpo, os traços da dança, pinceladas ao som da música e no ritmo dos movimentos a fim de retratar a vida de uma prostituta em um cabaré. Não obstante, no drama em sua temática, conta com pitadas de humor, interação com a plateia e piano e voz ao vivo.

Portanto, obsceno não é obrigatóriamente lascivo e indecente, aqui ele mostra sua possível outra faceta que tende ao belo e marcante como o voar da bailarina no palco. Por isso, destaque maior para a iluminação que entorpece o público e compassa o elenco.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

À Deriva





Thayze Darnieri



Às vezes, algumas etapas da vida de tão confusas se tornam um insuportável emaranhado de sentimentos. É díficil resistir aos impulsos, dessa forma, um ser aparentemente indefeso ou desmotivado transforma-se em uma pessoa capaz dos maiores feitos.

À Deriva fala, basicamente, disso: aquele ponto onde não é mais possível suportar. Entretanto, não se prende apenas a vivência de Felipa, uma adolescente no aflorar da juventude, como transpõe as perturbações e descaminhos de todos a sua volta, uma vez que, não é só na adolescência que vive-se dolorosamente uma etapa de transição.

Para tanto, a trama por si demonstra sinais claros de que não se trata de mais um enlatado do cinema brasileiro, cujo o aspecto televisivo fica enraizado ou se prende em subterfúgios baratos na conclusão do roteiro. Saí do cinema com a sensação de ter assistido um filme europeu, talvez francês.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Harry Potter e o Enigma do Príncipe





Thayze Darnieri



Acompanho a saga do garoto de óculos redondos e cicatriz de raio desde quando meu irmão tinha idade suficiente para ainda precisar de estímulos literários, ganhou o Harry Potter e a Pedra Filosofal leu os primeiros capítulos e largou pela casa. O livro ficou dando sopa, não resisti e comecei a lê-lo compulsivamente, em menos de dois dias já havia terminado e seca pela próximo volume.

Sendo assim, não poderia deixar de ver o filme lançado no cinema há duas semanas e mesmo assim responsável por filas intermináveis. Para mim, tanto impresso como em imagens Harry Potter e o Enigma do Príncipe é o capítulo mais revelator e intrigante de toda história, uma vez que, nada foi solucionado, mas os sinais das resoluções começam, finalmente, a se formar.

Harry, Hermione e Rony não são mais crianças, ao passo que, as responsabilidades e os gritos do adolescer clamam por decisão, contudo, o caminho ainda será tortuoso até a desfecho final e enquanto isso não acontece aproveitam todos os clichês da juventude.

Longe de entrar nos méritos da adaptação, imagino que o roteirista e o diretor pecaram julgando que a totalidade dos expectadores leram o livro e filmaram para os leitores aficcionados, que conhecem os mínimos detalhes da trama, portanto, deixou muito a desejar nos elos do enredo, sem esquecer das cenas cruciais e mais emocionantes.




domingo, 2 de agosto de 2009

sorte do dia




Sorte de hoje: O sucesso não é o final e o fracasso não é fatal: o que conta é a coragem para seguir em frente



segundo o Orkut, está é a frase que permeia o meu caminho no dia de hoje

sábado, 1 de agosto de 2009

Obrigada, amigos!

foto: Marília Rodrigues


Thayze Darnieri




Quem disse que uma amizade não resiste ao tempo?

Morria de inveja do meu melhor amigo, que por ser uma figura ímpar e peculiarmente adorável possui uma lista interminável de amigos. Sendo que algumas dessas amizades duram há quase vinte anos, considerando que esse tempo custa 80% da sua vida, para mim, é bastante tempo para manter um relacionamento de afeto.

Entretanto, como é sabido o tempo é pérfido, sem percebê-lo passou anos, quando menos se nota mudou o destino, as certezas voam, os pensamentos se confundem. Inconscientemente mantinha à distância uma amizade de oito anos.

Como tentou explicar o inexplicável, uma vez há muito tempo, um filósofo chinês chamado Deng Ming-Dao: As pessoas realmente ligadas não precisam de ligação física. Quando se reencontram, mesmo depois de muitos anos afastados, sua amizade é tão forte quanto sempre.

Por fim, agora, só me resta agradecer aos poucos, mas valiosíssimos amigos que cruzaram e floreiam a minha vida até hoje, apesar da distância, do desequilíbrio das personalidades, da loucura do dia a dia, da ausência infortuna de compreensão, da falta de tempo, por motivos aquém da vontade, do passado, do futuro e tudo mais para que permaneçam na memória e na existência por anos e anos ou quem sabe por todo sempre.

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