sexta-feira, 31 de julho de 2009

regra do meio copo

foto: Thayze Darnieri



"Um dos grandes pecados da escola é desconsiderar tudo com que a criança chega a ela. A escola decreta que antes dela não há nada."


trecho do livro Pedagogia da Autonomia: saberes necessários para a prática educativa, de Paulo Freire




Um dia, deparei mais uma vez com o desconhecido, desta vez além da aventura no ingresso ao mundo acadêmico havia o desvendar das misteriosas e delicadas engrenagens do processo educativo: iniciei, assim, o curso de Pedagogia. Se já não bastasse, este que jamais fora o sonho de uma vida inteira, acabou por tornar meio de retorno ao universo estudantil e desenferrujar os elos mentais.

Quando pensei que não havia mais jeito estava apaixonada. Compreender o processo de ensino desde a base é simplesmente fascinante, uma vez que, não é apenas como ensinar, mas o que propor, a maneira de testar, o estímulo adequado para um perfil, como diagnosticar as variavéis de inteligência e os distúrbios de aprendizagem.

Notei, no entanto que, ironicamente, nunca será no âmbito escolar o prenúncio do aprender. Invariavelmente, qualquer criança ao encontrar a figura do professor pela primeira vez traz consigo os hábitos e costumes vistos em casa, portanto, um ser arraigado em vícios e manias que nem sempre são saudáveis para sua capacitação. Cabe ao educador, neste momento, observar essas diferenças ao implementar novas práticas e limpar a rotina do aluno.

Não será uma tarefa fácil, mas é possível e inacreditavelmente disseminadora, ao passo que se tocar o aluno com sucesso o aprendizado não estagnará no ser aprendiz, ele se transformará automaticamente em agente de ensino propagando o seu novo saber a quem quer que seja.

Lembre-se: o segredo é somar a velha história aos novos destinos.



Thayze Darnieri

quinta-feira, 30 de julho de 2009

fim do túnel





"A luz se foi e agora nada mais resta a não ser esperar por um novo sol, um novo tempo, nascido do mistério do tempo e do amor do homem pela luz".



Gore Vidal

quarta-feira, 29 de julho de 2009

O Amor nos tempos do Cólera VIII




"... esquecia sempre quando menos devia que as mulheres pensam mais no sentido oculto das perguntas que nas próprias perguntas."



trecho do livro O Amor nos tempos do Cólera, de Gabriel Garcia Marquez

terça-feira, 28 de julho de 2009

Olha





Thayze Darnieri




Olha para mim, está vendo? Agora, é possível perceber o nascer das marcas que ei de carregar por toda a vida. Recordo-me, ainda, daquele rosto puro de quem não precisa esperar nada, em contrapartida, não havia história, sem vitórias, nenhum sofrer ou dor. Apenas uma criança inocente e feliz.

Olha para mim. Meus olhos estão profundos, descobri cores e sinais que até ontem não existiam. Culpa do meu pranto quando não havia mais para onde fugir, quando protelei em decidir se ia ou ficava, quando tive medo de te perder, quando soube que era mentira, quando aprendi a ser só, quando senti saudade, quando não aguentava os seus gritos, quando você não me entendeu.

Olha para mim. Há manchas no meu corpo, consequência da inexperiência quando me aventurei no desconhecido, quando insisti no erro, quando a preocupação não me deixou dormir, quando meu coração pulava por medo de tentar, quando pensei em você.

Olha para mim. A textura da pele é outra, resultado da instabilidade do céu quando chove, quando faz muito sol, quando o tempo fica extremamente seco, quando as temperaturas caem, quando o vento corre ao meu encontro, quando vim para cá, quando voltei, quando ficou abafado, quando a luz castigou.

Olha para mim. As articulações não tem mais o mesmo viço e força de outrora, talvez foi quando passei horas escrevendo textos que jamais publicarei, quando esfreguei aquela mancha velha que de tão encardida nunca sumirá, quando distraída me pus bem próxima do fogo, quando ninguém pôde me ajudar a carregar mais um peso, quando segurei bem forte para não cair.

Olha para mim. É loucura evidenciar vestígios do tempo quando se viveu tão pouco, entretanto, sinto um dia após o outro, cada hora é um nova experiência, passa um minuto muda o humor, cada palavra pronunciada ganho um segundo.

Dessa forma, sempre lembrarei do que for importante: palavras, escolhas, lágrimas, gritos, risadas, demonstrações de afeto, frustrações, medos, atitudes, apenas com o intuito de não repetir erros ou desperdícios, bem como descobrir as soluções de problemas antigos. Ainda sim, pode parece insano, mas já me enganei demais e não quero mais insistir no desacerto.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

sem saber, sigamos!





"Quem sou eu? Eu vivo pra saber. Interessante descoberta que passa o tempo todo pela experiência de ser e estar no mundo. Eu sou e me descubro ainda mais no que faço. Faço e me descubro ainda mais no que sou. Partes que se complementam.

O interessante é que a matriz de tudo é o "ser". É nele que a vida brota como fonte original. O ser confuso, precário, esboço imperfeito de uma perfeição querida, desejada, amada.

(...)

Eu, visto pelo outro, nem sempre sou eu mesmo. Ou porque sou projetado melhor do que sou, ou porque projetado pior. Não quero nenhum dos dois. Eu sei quem eu sou. Os outros me imaginam. Inevitável destino de ser humano, de estabelecer vínculos, cruzar olhares, estender as mãos, encurtar distâncias.

Somos vítimas, mas também vitimamos. Não estamos fora dos preconceitos do mundo. Costumamos habitar a indesejada guarita de onde vigiamos a vida. Protegidos, lançamos nossos olhos curiosos sobre os que se aproximam, sobre os que se destacam, e instintivamente preparamos reações, opiniões. O desafio é não apontar as armas, mas permitir que a aproximação nos permita uma visão aprimorada. No aparente inimigo pode estar um amigo em potencial. Regra simples, mas aprendizado duro.

Mas ninguém nos prometeu que seria fácil. Quem quiser fazer diferença na história da humanidade terá que ser purificado neste processo. Sigamos juntos. Mesmo que não nos conheçamos. Sigamos, mas sem imaginar muito o que o outro é. A realidade ainda é base sólida do ser."



trecho do texto Eu, quando visto pelo outro, do Padre Fábio de Melo

domingo, 26 de julho de 2009

O Amor nos tempos do Cólera VII





"Não admitia que os conflitos com a esposa tivessem origem no ar rarefeito da casa, atribuindo-os à natureza mesma do casamento: uma invenção absurda que só podia existir pela graça infinita de Deus. Ia contra toda razão científica que duas pessoas apenas conhecidas, sem parentesco nenhum entre si, com caracteres diferentes, se vissem comprometidas de repente a viver juntas, a dormir na mesma cama, a compartilhar dois destinos que talvez estivessem determinados em sentidos divergentes."



trecho do livro O Amor nos tempos do Cólera, de Gabriel García Marquez

sábado, 25 de julho de 2009

A Fabuloso Destino de Amélie Poulain






Thayze Darnieri



É apenas uma questão de incentivo: sem ele tudo permanece a igual, com ele abre-se um leque interminável de possibilidades. Amélie Poulain vivia solitária em uma existência longe de ideais e sonhos, eis que o nada ouve um click e descobre a sua missão de vida.

Algumas pessoas nascem para dar sabor, outras para mostrar limites, algumas para a perversão, outras para diversão, algumas para a prisão, outras para inspiração, algumas para o silêncio, outras para a gritaria, algumas para entretenimento, outras para todo sempre, algumas que só fazem volume, outras, como Amélie, para transformar a vida de quem cruza seu caminho.

O Fabuloso Destino de Amélie Poulain é um filme colorido e com forma e narrativa peculiares, tanto que na primeira vez que tentei assisti-lo, sem sucesso, devido ao sono e o cansaço, imaginei que algumas das cenas eram fruto dos meus devaneios quiméricos. No entanto, não foram meus sonhos e sim a inacreditável realidade fantasiosa dessa grande menina pequena.

Para tanto, retomo a um antigo pensamento cuja felicidade verdadeira mora nas mais simples coisas e mínimos momentos, contudo, visivelmente somente com a inocência e desprendimento dos olhos infantis.


sexta-feira, 24 de julho de 2009

faxina pessoal




"O pó se acumula todos os dias sobre as emoções"



Caio Fernando Abreu

quinta-feira, 23 de julho de 2009

bonzinhos ou competentes?





Thayze Darnieri



Como os bichos, seres humanos são subclassificados em espécies, no entanto, diferente do transparente mundo animal que demonstra por meio da aparência as suas intenções, o traiçoeiro ser humano, em contrapartida, jamais mostrará a sua verdadeira face. São inúmeros os perfis e suas características, entretanto, venho evidenciando dois grupos bem distintos que se contrapõe fervorosamente: os bonzinhos e os competentes.

O bonzinho conquista pela emoção, o competente pela ação.

O bonzinho nunca faz o que lhe é mandado, o competente obedece antes mesmo da ordem.

O bonzinho sempre tem uma desculpa na manga, o competente, quando há necessidade, se justifica.

O bonzinho parece inofensivo, o competente é inofensivo.

O bonzinho é dissimulado, o competente é honesto.

Para o bonzinho nenhuma cobrança, afinal ele não consegue; para o competente mil cobranças, afinal ele é nunca reclama do que lhe confiado.

O bonzinho erra, o competente ouve.

O bonzinho não acumula expectativa, o competente é fonte de todas as críticas.

Para a diversão o bonzinho, para o trabalho o competente.

Quando o bonzinho toma iniciativa é facilmente perceptível, já que é raro; quando o competente toma iniciativa ninguém vê, uma vez que, é rotina.

O bonzinho é vaidoso, o competente prefere não ser enxergado.

E agora, você sabe o que é melhor o "bonzinho" ou o competente?

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Isso não é amor, menina





Tati Bernardi




Apesar da gente nunca ter namorado ou casado ou feito planos, hoje completamos oito anos juntos. Se nosso primeiro encontro não tivesse se dado numa data tão conhecida, jamais saberíamos. Nunca contamos o tempo ou demos nomes aos nossos sentimentos de compromisso. Simplesmente tudo se desenrolou sem drama ou pedido ou conjecturações ou vingança. Foi e foi e foi. Aquilo que dizem sobre o que é pra ser. Simplesmente fomos e continuamos sendo.

Quem diria que um dia eu seria tão feliz a ponto de não contar ou reduzir sensações a palavras? Mas é isso, sou feliz com você. Sem esforço e mesmo sendo, muitas vezes, bem infeliz. Sou feliz.

Não faz muito tempo nos mudamos pra essa casa maior. A cama gigante que sempre cabe mais gente quando a noite dá medo no vizinho de quarto. O jardim, o quartinho dos brinquedos e livros, a janela do lavabo que tem a melhor vista da casa. As figurinhas coladas perto do rodapé parecendo um cineminha de forminhas, os coquinhos destruídos na garagem, a casinha termômetro que você me deu porque eu disse que lembrava meu avô.

Daqui, deitada nesse ângulo quase indecente, vejo você, safado, acender seu cigarro de domingo e me olhar sabendo que, inexplicavelmente, justo eu, te aceito seja lá como for. Você, idem. Não fomos fáceis a nada e nem a ninguém, mas cá estamos. Sem a comemoração deslumbrada e terrivelmente curta do amor e por isso mesmo podendo celebrar o pouco cabível de cada instante. E por isso mesmo, vai ver, amando. Sabemos tanto que é amor que nem parece aquele coisa que dizem: amor. A-m-o-r. Ah, deve ser. Mas não o que um dia quisemos tanto e por isso mesmo afastamos, mas o que podemos e por isso mesmo nos soa tão possível. Sei que parece óbvio, mas só agora.

E eu continuo nessa pose quase indecente, retardando a vontade do xixi e do banho, olhando você e querendo apenas um presente pra comemorar nossos oito anos juntos. Olhando seu ombro que eu curto tanto desde o primeiro segundo. Seu pé direito retesado e tão diferente do esquerdo sempre relaxadão. A sua mania de entregar um pouco mais de “cofrinho” do que permitido, quando concentrado e um pouco curvado.

Vai começar a chover e eu posso chorar. Hoje completamos oito anos juntos e eu só queria um presente. Voltar no tempo, me encontrar e chacoalhar meu corpo. Aquela época em que eu já estava quase cínica mas ainda acreditava em um relacionamento com todas as forças do mundo. Porque quanto mais cinismo e cansaço, mais força fazemos e mais forte parece. Eu queria me chacoalhar e dizer que ele existe, sim, o tal do amor, mas você, querida, não sabe ainda nada disso. Isso que você acha que é amor, menina, não passa nem perto.

Eu me faria uma visita naquele apartamentinho pequeno e cheio de tentativas de charme e maturidade. E diria pra mim o que ninguém, sabe-se lá porquê, foi capaz de me dizer numa época tão necessária e quase triste. Época de tentar de tudo pra chegar perto do que, um dia, simplesmente acontece mesmo a gente achando que só funciona para os disciplinados na cultura da imbecilidade. Esse povo estranho que divide armário e sorriso de foto.

Eu diria: menina, amar a dúvida, o silêncio, a ingratidão, o fim, o atraso, a invenção, a lacuna, o pode ser, as hipóteses, a não resposta, a raiva, o absurdo, o não, a impossibilidade, o depois que foi, o antes de chegar, o difícil, o pode não, amar essas coisas, menina, é amar o mistério e não um homem.

Amar um homem não é o telefone que não toca, é o telefone que toca e ele tá daquele jeito que te irrita justamente porque está irritado com você e você desliga logo e ele liga de novo e vocês morrem de rir. Ah, e aí vai dando certo. Foi e foi e foi e cá estamos. Você apaga o cigarro de domingo, a luz e some. Eu escrevo esse texto na mente, tomo banho e me chacoalho. Daqui a pouco a gente, sem se dar conta de plurais e segredos, se encontra no corredor e decide o que faz do resto do dia.

terça-feira, 21 de julho de 2009

Posposto





“As verdades únicas não existem: as verdades são múltiplas, só a mentira é global”.



José Saramago

segunda-feira, 20 de julho de 2009

amizade também é amor

foto: Thayze Darnieri



"Amizade não é somente a mão estendida,
nem o sorriso carinhoso, muito menos a delícia da companhia.
A essência dela vem da inspiração que se sente quando descobre que alguém verdadeiramente acredita e confia em você, independente de concordar ou não com as suas atitudes, por mais descabidas que sejam. (...) Deve-se amar sem julgar, porque cada um sabe a dor e a alegria que traz contigo no coração.
Amizade é diálogo, é cumplicidade, é sintonia, é confiança, é sentir, é saber, é querer sempre o melhor. Mesmo sabendo que nem sempre o melhor pra voce é o melhor pra mim, bem como os meus desejos a você não são iguais aos seus sonhos.
Enfim, só resta a mim torcer para que o seu caminho seja tranquilo, mas se por qualquer fortuito, algo acontecer. Saiba que terá sempre para onde voltar, aqui nunca deixará de existir um ombro amigo e palavras sinceras.


Amizade também é amor!"






Thayze Darnieri
texto extraído de um email a um grande amigo, no dia 5 de junho de 2006.

domingo, 19 de julho de 2009

ócio produtivo





"A ociosidade é mãe de todos os vícios, mas também de todas as virtudes".



Émile-Auguste Chartier

sábado, 18 de julho de 2009

O cérebro tem sexo?




"De novo me embrenhei nos caminhos perdidos, mal descritos, da floresta de emoções da sexualidade masculina - e a resposta é sim. Separar a sexualidade masculina dos conceitos de força, poder e violência, historicamente atribuídos ao homem, é uma tarefa tão complexa quanto separar a fada da bruxa, da mãe, da libertina."


trecho do texto Força e fraqueza dos homens, de Anna Veronica Mautner, publicado no jornal Folha de São Paulo, no dia 21 de maio de 2009.



Não é regra: sexo masculino, cérebro masculino; sexo feminino, cérebro feminino. Uma vez que, independente do que lhe foi definido ao nascer ao definir uma personalidade pode carregar em si impressões e características avessas ao pré-conceito relativo ao seu gênero.

Definitivamente, está longe de ser balela. Há linhas de pesquisas para definir mais claramente as diferenças neurológicas entre homens e mulheres e, para mensurar essas disparidades, foi desenvolvido um teste com a escala de 1 a 20 e responder qual é o sexo do cérebro. O número 1 significa um cérebro mais masculino e o 20, o mais feminino. Quem se aproxima do 10 tem um cérebro misto.

Para tanto, o estudo justifica as diferenças entre o cérebro dos dois gêneros nos primórdios da evolução. Durante o desenvolvimento da espécie, o homem era o caçador, portanto, adquiriu habilidades manuais, visuais e coordenação para inventar ferramentas e adaptá-las a rotina. Por isso, um cérebro de habilidades funcionais. Em contrapartida, as funções femininas se resumiam em preparar os alimentos e cuidar dos mais novos, por sua vez, deviam entender as necessidades dos bebês por meio de linguagem corporal. Por isso, desenvolveram um cérebro sensivo e emotivo.

Os pesquisadores creditam, ainda, que a diferença de sexo entre cérebro e corpo pode estar ligada às causas do homossexualismo. “Se a concentração de testosterona no útero está mais baixa do que o padrão para os homens, então o 'centro sexual' do cérebro será feminino e esse homem sentirá atração por outros homens. Se a concentração desse hormônio estiver alta, o 'centro sexual' será masculino e ele sentirá atração por mulheres”, diz Moir.

É totalmente plausível a teoria das diferenças pontuais entre homem e mulher. No entanto, para mim, não passa de um rol de distinção de caracteristicas, um vez que, há mais de intuição nos sentidos humanos do que uma regra estabelecida, sendo assim, independente de sexo ou opção sexual, fatidicamente alguns homens serão emotivos e observadores ao passo que haverão mulheres racionais e focadas.




Thayze Darnieri



sexta-feira, 17 de julho de 2009

quero um brownie!





“Por melhor que seja, nunca vou conseguir fazer uma mulher chegar a essa cara. A gente nunca vai saber o que é dar esse prazer a vocês. Queria ser um brownie.”



Pedro Neschling

quinta-feira, 16 de julho de 2009

confuso, muito confuso!





"Às vezes as pessoas escrevem as coisas que não conseguem dizer."



Mark Schwahn

quarta-feira, 15 de julho de 2009

O Amor nos tempos do Cólera VI





"Chegou a reconhecê-la no tumulto através das lágrimas da dor que jamais se repetiria de morrer sem ela, e a olhou pela última vez para todo o sempre com os mais luminosos, mais tristes e mais agradecidos olhos que ela jamais vira no rosto dele em meio século de vida em comum, e ainda conseguiu dizer-lhe com o último alento:

- Só Deus sabe quanto amei você."




trecho do livro O Amor nos tempos do Cólera, de Gabriel García Marquez

terça-feira, 14 de julho de 2009

IMAX: Estação Espacial 3D

foto: Cecilia Barroso


Thayze Darnieri



Conhece aquele olhar de criança quando conhece algo novo e de dimensões muito maiores que a sua pequenez? Foi assim que o IMAX viu os meus olhos logo quando adentrei a sala.

Confesso que já fazia um bom tempo que cultivava a curiosidade a respeito desse "cinemão", prioritariamente devido ao êxtase na qual encontrei alguns amigos quando conheceram, no dia seguinte a estréia, a primeira sala IMAX do Brasil. Portanto, uma experiência que precisava vivenciar.

Desde então, um desses meus amigos, firmou uma dura batalha para me fazer entender o que seria IMAX, uma vez que, não desvencilhava o conceito 3D da ideia. No entanto, de tanto explicar e reexplicar compreendi que nada mais é que um formato de filme que tem a capacidade de mostrar imagens muito maiores em tamanho e resolução do que os sistemas convencionais de exibição de filmes. Sua tela padrão tem 22 metros de largura e 16,1 metros de altura, e podem ser maiores.

Imagine só o quanto essa grandiosidade não aumenta quando o filme a ser assistido é na versão 3D? As sensações impressas na tela ficam ao alcance da mão, tanto que praticamente impossível não esticar os braços em direção a tela ou se esquivar de algo que teoricamente vem em sua direção.

Enfim, o IMAX provoca tamanho encantamento que, por enquanto, pode se dar ao luxo de passar um filme irmão dos documentários da Discovery Channel, de apenas 47 minutos, cobrando o dobro de um cinema comum, sobre o espaço, e ainda sim não ser maçante.



segunda-feira, 13 de julho de 2009

para saber

foto: Vitor Veríssimo



Tag: termo para associação com uma informação que o descreve e permite uma classificação baseada em palavras-chave. Usualmente, são escolhidas informalmente e como escolha pessoal do autor ou criador do item de conteúdo - isto é, não é parte de um esquema formal de classificação.





O verdeelaranja se tornou adepto do uso de tags com o tempo, devido ao inevitável crescimento de publicações adveio a necessidade catalogá-los. Atualmente, são 41 marcadores, cada um com a sua peculiaridade e razão pela citação dentro do contexto, dessa forma não existe a possibilidade de explicar um por um, visto que alguns possuem significado variável.

Em contrapartida, outros que de tão certos não tem como sair do padrão. Esse é o caso do tag para saber, inspirado no blog Talvez Útil, visto que o seu autor, repentinamente, me questionou sobre a serventia dos meus escritos e por causa disso fui instigada a afora os préstimos corriqueiros buscar assuntos na qual eu pudesse além da emoção e reflexão habituais, informar.

domingo, 12 de julho de 2009

amor indulgente





Como o amor pode se revelar tão indulgente? Há quem considere isso uma virtude dos grandes amores. Discordo! Para mim, quando é verdadeiro existe algo muito maior que o perdão e este sim sublima toda e qualquer forma de rancor ou dor.



Thayze Darnieri

sábado, 11 de julho de 2009

Meu nome não é Johnny






Thayze Darnieri



A adolescência é uma fase para ser vivida e não para ser desperdiçada. Para tanto, do mesmo modo que há quem deixe esses anos de ouro simplesmente passarem, esquecendo que esse é o momento para viver a juventude, existe aqueles que sobrepujam o curtir e alcançam o cúmulo das emoções que o adolescer proporciona. Errado ou não, é uma questão de limites e conceitos, bem como, da índole de cada um.

João Estrela, o protagonista de Meu Nome não é Johnny, faz ainda mais. Além de aproveitar a sua mocidade ao extremo, transforma a curtição em meio de subsistência, entretanto, se não fosse o fato do seu "trabalho" ser ilegal trataria-se de um gênio, no entanto, configura-se um desperdício.

Contudo, considerá-lo exemplo para as próximas gerações seria um tanto de exagero. A verdade é que o maior traficante de cocaína da alta roda carioca durante os anos 80 e 90 teve bastante sorte, uma vez que, mesmo ele començando errado, continuando errado por muito tempo, a vida ainda sim não lhe negou a mão quando já era um caminho sem volta.




sexta-feira, 10 de julho de 2009

Da arte de ser mais um





Tati Bernardi



Acontece de repente, quando acaba o pão de queijo no café com revistas ao lado do prédio que tem cheiro de umidade. Um dia que não prometia absolutamente nada, talvez chuva, mas nem isso se cumpriu. Não é dia de trânsito nem de acidente. Não é véspera de nada e tudo vai tão calmo que você poderia até esquecer o celular em algum lugar e só se dar conta no dia seguinte, na hora do despertador. Naquele segundo, lá no café sem pão de queijo, você topa o pão de batata mesmo, se esquece um segundo pra ver uma chamada do Caderno 2 e sabe que foi aceito. Simples assim. Você está há meses indo de escova e lápis de olho e nada. Você levou todos os seus livros e algumas reportagens que saíram falando de você, e nada. Você tentou ser inteligente, ágil, prestativo, misterioso, difícil, fazer piadas sexuais, nada. Até que numa tarde, de repente, porque já acostumaram com a sua cara ou só porque enfim sua natureza legal venceu a sua vontade de ser legal, você se torna mais um. Você consegue, finalmente, ficar em silêncio ao lado das pessoas, e as pessoas conseguem, finalmente, gostar de você mesmo, ou principalmente, porque você, finalmente, ficou em silêncio. E então você é mais um. E tanta dor de barriga e medo, tudo aquilo que faz você se sentir tão especial. Você esquece que é especial e se torna mais um. Só mais um a comer um pão de batata velho desejando o pão de queijo recém saído do forno. Só mais um. E no meio de tanta gente querendo provar coisas, você dá o desconto e só as escuta. E de repente, estão fazendo silêncio para escutar você. E, de repente, pela primeira vez, porque dessa vez sim é a sua vez, você diz algo e todos riem de modo a te mostrar que você conseguiu. E você não tem mais dor de barriga e nem ódio e muito menos ânsia de vômito. Você não tem nada, você tem é uma massa que se mistura e sente tanto com todos que se anula. Se anular, você vai descobrir, era só o que você precisava pra ser feliz. Ser mais um, você vai descobrir, é o que faz a gente passar meses exaltando o que somos. O fim de toda a arrogância e genialidade é uma simples frase do tipo “ah, você já vai?”. Fazer falta é simples, popular, sem nenhuma dramaticidade e quase não dá bons textos. Ser sozinho rende o mundo, mas me parece tão pequeno perto dos meus passinhos de dança, depois, ao chegar em casa.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

O Amor nos tempos do Cólera V





"Ela o sentira sair do seu corpo com o alívio de se livrar de algo que não era seu, e tinha sofrido com o próprio espanto ao comprovar que não sentia o menor afeto por aquele bezerro nonato que a parteira lhe mostrou em carne viva, sujo de sebo e de sangue, e com a tripa umbilical enrolada no pescoço. Mas na solidão do palácio aprendeu a conhecê-lo, se conheceram, e descobriu com uma grande emoção que os filhos não são queridos por serem filhos e sim pela amizade que surge quando os criamos."



trecho do livro O Amor nos tempos do Cólera, de Gabriel García Marquez

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Transtorno de Déficit de Atenção





Thayze Darnieri



Você não se atenta a detalhes? Não consegue efetuar tarefas distintas ao mesmo tempo? Começa a falar e esquece seu raciocínio no meio porque se perdeu em seus pensamentos? Tem a "síndrome das pernas inquietas"? Fala pelos cotovelos? Intromete-se em conversas alheias por não aguentar ouvir o desencontro de informações? Responde às perguntas antes de serem concluídas?

Estes são sinais claros do Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH): um distúrbio neurobiológico, relacionado a uma lesão cerebral mínima. No entanto, lá pelos idos de 1960, devido à dificuldade de comprovação da lesão, sua definição tinha uma perspectiva mais funcional, caracterizada como uma síndrome de conduta, tendo como sintoma essencial a atividade motora excessiva e o déficit de atenção, apesar de exisitir o distúrbio sem a presença da hiperatividade.

Nos anos 80, a partir de novas investigações, passou-se a ressaltar aspectos cognitivos da definição de síndrome, principalmente o déficit de atenção e a impulsividade ou falta de controle, considerando que, além disso, a atividade motora excessiva é resultado do alcance reduzido da atenção da criança e da mudança contínua de objetivos e metas a que é submetida.

Hoje, é reconhecido pela Organização Mudial da Saúde, tendo inclusive em muitos países, lei de proteção, assistência e ajuda tanto aos que têm este transtorno ou distúrbios quanto aos seus familiares.

Entretanto, há, ainda, muita controvérsia sobre o assunto. Alguns especialistas defendem o uso de medicamentos, visto que é um problema de saúde mental, podendo levar a dificuldades emocionais, de relacionamento, bem como baixo desempenho escolar, em contrapartida, outros argumentam que por tratar-se de um transtorno social, o indivíduo deve aprender a lidar com ele sem a utilização de medicamentos, com a ajuda da Psicopedagogia.

Para tanto, é importante salientar que nem toda desatenção, inquietude ou impulsividade é sinal de TDAH, já que não há ninguém que não responda a pelo menos um dos sintomas. Portanto, antes de diagnosticar um hiperativo procure auxílio médico, uma vez que, é um mal biológico que o acompanhará pelo resto da vida.




terça-feira, 7 de julho de 2009

culpa?





"A culpa me encanta. Os olhos vidrados de dor, a alma torturada pela terrível verdade sobre si mesma.

A literatura está cheia de exemplos nos quais o herói ou a heroína chora de desespero pela consciência de sua responsabilidade no mal do mundo. Entre os vários erros cometidos pela cultura moderna, um deles é tentar negar que a culpa seja um instrumento essencial de humanização. Não existe experiência moral sem culpa. Nelson Rodrigues dizia: "Tire a imortalidade do homem e ele cai de quatro". Eu diria, seguindo sua maravilhosa intuição: tire a culpa e o homem cai de quatro."



trecho do texto De joelhos, de Luiz Felipe Pondé, publicado no jornal Folha de São Paulo, no dia 11 de maio de 2009.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Homem de ferro





Henrique Szklo





Me sinto ameaçado pelo mundo. Uma ameaça constante e perturbadora. Por isso sou duro, muitas vezes inflexível e implacável. Sinto que se o vento bater forte eu vou quebrar, por isso não vergo. Travo, resisto até a morte. Bato de volta no vento pra ele deixar de ser besta. Sei que é inútil. Sei que preciso relaxar, pra minha própria sanidade, pra minha própria sobrevivência. Sei de tanta coisa que não serve pra nada. Mas como vou abrir a minha guarda assim sem mais nem menos, esperando o direto no meu queixo. Como vou relaxar e gozar se a ameaça está sempre à espreita? Como, se eu sinto que um mínimo momento de fraqueza pode abrir as portas do meu castelo e me destruir por dentro? Estou cercado por cavalos de tróia. Isso se reflete na minha atitude, nas minhas relações, nos meus gestos. Sou uma pessoa dura. Acredito que minha linguagem corporal expressa essa inflexibilidade com mais presteza que as palavras. Isso afasta as pessoas, afasta os empregos, afasta tudo. Como diferenciar uma ameaça de um carinho? Como saber se a mão que chega vem para esmurrar ou para afagar? Na dúvida, eu impeço a mão de me tocar. Às vezes de forma áspera, como que uma mensagem subliminar: não volte mais aqui, não se atreva. Quem consegue uma aproximação comigo o faz à maneira dos adestradores de cães raivosos. Vêm com calma. Tentam ganhar a confiança lentamente com gestos nunca bruscos. Tentando comprar a confiança com pequenos pedaços de carne. Mas a maioria das pessoas não tem esta paciência, por isso correm o risco de serem mordidas pelo cão que tentam alimentar. Aliás, mesmo aqueles que acreditam ter adestrado o animal, correm risco constante de levar uma abocanhada. Ao meu lado, ninguém está totalmente seguro. Tentar transpassar minhas defesas, meu campo de força, minha carapaça é uma missão inglória. Sou uma pessoa blindada. Sou o homem de ferro. Tenho uma capacidade de proteção e de ataque invejável, mas não me comunico com o mundo exterior e tenho meus movimentos prejudicados pelo peso e pela falta de flexibilidade da armadura. É isso que eu sou, um herói solitário. Minhas pretensas boas intenções se perdem na minha luta contra o mal. Uma luta que brutaliza aos poucos, que desfigura lentamente as feições humanas. Não sei se algum dia conseguirei tirar meu traje protetor e encarar o vento e o sol e as pessoas de peito aberto. Todo herói tem seus dilemas. Herói bem resolvido não é herói. Talvez eu não queira ser herói. Mas só talvez. Talvez o que eu queira de verdade ainda não foi desvendado. Talvez nunca seja. Certamente nunca será.

domingo, 5 de julho de 2009

Maniqueísmo

foto: Thayze Darnieri



Thayze Darnieri



Em tempos muito antigos, os seres que habitavam à Terra não faziam distinção entre o bem e o mal. Dessa forma, quaisquer ações experimentadas por eles era isenta de culpa ou outro tipo de auto-punição, uma vez que, se não existe o errado, logo não há castigo.

Entretanto, em algum momento, houve a separação dos limites, o homem antes instintivo e passional passou a ser recoberto pela consciência e a razão. Contudo, o consciente não conseguiu sobrepujar a força do insconsciente, o irracional cujo efeito são as passagens aos atos ainda domina grande parte do existir humano.

É um jogo de forças: o desejo versus a cultura.

Todavia, o maniqueísmo é uma perspectiva religiosa de pensar, não como religião autônoma, mas enquanto comando camuflado a fim de influenciar os discursos do cotidiano. O modo de pensar maniqueísta é oportunista, no entanto, o seu poder fica mais evidente quando o ser se torna suscetível perante as situações-limite. Portanto, mais que uma forma simplista e dogmática de pensar, o maniqueísmo propõe uma ação, uma luta eterna contra o mal personificado em coisas, pessoas ou situações.

Para tanto, a atitude cética é o melhor remédio contra o maniqueísmo. O cético cessa o juízo, não toma partido, não se entrega ao simplismo de encurralar o pensamento entre as grades do certo e o errado. Contudo, suspender o juízo não denota inação, quer dizer elaborar um melhor pensamento para além da solução dualista, ou seja, um agir com sabedoria.

sábado, 4 de julho de 2009

Estranho amor


"Casamento é o tumulo do amor, foi inventado para seres humanos medianos, que não são aptos nem para um grande amor, nem para a grande amizade, portanto, pra maioria."


Friedrich Nietzsche

sexta-feira, 3 de julho de 2009

O Amor nos tempos do Cólera IV





"Os motivos dele eram certos: nunca precisava tanto dela, viva e lúcida, com nesses momentos de confusão".



trecho do livro O Amor nos tempos do Cólera, de Gabriel García Marquez

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Tênis e frescobol





Rubem Alves




Depois de muito meditar sobre o assunto concluí que os casamentos são de dois tipos: há os casamentos do tipo tênis e há os casamentos do tipo frescobol. Os casamentos do tipo tênis são uma fonte de raiva e ressentimentos e terminam sempre mal. Os casamentos do tipo frescobol são uma fonte de alegria e têm a chance de ter vida longa.

Explico-me. Para começar, uma afirmação de Nietzsche, com a qual concordo inteiramente. Dizia ele: "Ao pensar sobre a possibilidade do casamento cada um deveria se fazer a seguinte pergunta: Você crê que seria capaz de conversar com prazer com esta pessoa até a sua velhice? Tudo o mais no casamento é transitório, mas as relações que desafiam o tempo são aquelas construídas sobre a arte de conversar."

Xerazade sabia disso. Sabia que os casamentos baseados nos prazeres da cama são sempre decapitados pela manhã, terminam em separação, pois os prazeres do sexo se esgotam rapidamente, terminam na morte, como no filme O império dos sentidos. Por isso, quando o sexo já estava morto na cama, e o amor não mais se podia dizer através dele, ela o ressuscitava pela magia da palavra: começava uma longa conversa, conversa sem fim, que deveria durar mil e uma noites. O sultão se calava e escutava as suas palavras como se fossem música. A música dos sons ou da palavra - é a sexualidade sob a forma da eternidade: é o amor que ressuscita sempre, depois de morrer. Há os carinhos que se fazem com o corpo e há os carinhos que se fazem com as palavras. E contrariamente ao que pensam os amantes inexperientes, fazer carinho com as palavras não é ficar repetindo o tempo todo: Eu te amo, eu te amo... Barthes advertia: "Passada a primeira confissão, 'eu te amo' não quer dizer mais nada." É na conversa que o nosso verdadeiro corpo se mostra, não em sua nudez anatômica, mas em sua nudez poética. Recordo a sabedoria de Adélia Prado: "Erótica é a alma."

O tênis é um jogo feroz. O seu objetivo é derrotar o adversário. E a sua derrota se revela no seu erro: o outro foi incapaz de devolver a bola. Joga-se tênis para fazer o outro errar. O bom jogador é aquele que tem a exata noção do ponto fraco do seu adversário, e é justamente para aí que ele vai dirigir a sua cortada - palavra muito sugestiva, que indica o seu objetivo sádico, que é o de cortar, interromper, derrotar. O prazer do tênis se encontra, portanto, justamente no momento em que o jogo não pode mais continuar porque o adversário foi colocado fora de jogo. Termina sempre com a alegria de um e a tristeza de outro.

O frescobol se parece muito com o tênis: dois jogadores, duas raquetes e uma bola. Só que, para o jogo ser bom, é preciso que nenhum dos dois perca. Se a bola veio meio torta, a gente sabe que não foi de propósito e faz o maior esforço do mundo para devolvê-la gostosa, no lugar certo, para que o outro possa pegá-la. Não existe adversário porque não há ninguém a ser derrotado. Aqui ou os dois ganham ou ninguém ganha. E ninguém fica feliz quando o outro erra - pois o que se deseja é que ninguém erre. O erro de um, no frescobol, é como ejaculação precoce: um acidente lamentável que não deveria ter acontecido, pois o gostoso mesmo é aquele ir e vir, ir e vir, ir e vir... E o que errou pede desculpas; e o que provocou o erro se sente culpado. Mas não tem importância: começa-se de novo este delicioso jogo em que ninguém marca pontos...

A bola: são as nossas fantasias, irrealidades, sonhos sob a forma de palavras. Conversar é ficar batendo sonho pra lá, sonho pra cá...

Mas há casais que jogam com os sonhos como se jogassem tênis. Ficam à espera do momento certo para a cortada. Camus anotava no seu diário pequenos fragmentos para os livros que pretendia escrever. Um deles, que se encontra nos Primeiros cadernos, é sobre este jogo de tênis:


"Cena: o marido, a mulher, a galeria. O primeiro tem valor e gosta de brilhar. A segunda guarda silêncio, mas, com pequenas frases secas, destrói todos os propósitos do caro esposo. Desta forma marca constantemente a sua superioridade. O outro domina-se, mas sofre uma humilhação e é assim que nasce o ódio. Exemplo: com um sorriso: 'Não se faça mais estúpido do que é, meu amigo'. A galeria torce e sorri pouco à vontade. Ele cora, aproxima-se dela, beija-lhe a mão suspirando: 'Tens razão, minha querida'. A situação está salva e o ódio vai aumentando."

Tênis é assim: recebe-se o sonho do outro para destruí-lo, arrebentá-lo, como bolha de sabão... O que se busca é ter razão e o que se ganha é o distanciamento. Aqui, quem ganha sempre perde.

Já no frescobol é diferente: o sonho do outro é um brinquedo que deve ser preservado, pois se sabe que, se é sonho, é coisa delicada, do coração. O bom ouvinte é aquele que, ao falar, abre espaços para que as bolhas de sabão do outro voem livres. Bola vai, bola vem - cresce o amor... Ninguém ganha para que os dois ganhem. E se deseja então que o outro viva sempre, eternamente, para que o jogo nunca tenha fim.




extraído do blog Onde as nuvens acabam..., de Mauro Pietrobon

quarta-feira, 1 de julho de 2009

mais que sonho





"Afinal, na falta de inquietantes sinais divinos ou conspiratórios, resta o enigma de nosso desejo. Não é pouca coisa, pois cada um de nós poderia dizer: "Tenho em mim todos os sonhos do mundo"."



trecho do texto Anjos, demônios e chocolate, de Contardo Calligaris, publicado no jornal Folha de São Paulo, no dia 21 de maio de 2009.

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