segunda-feira, 30 de junho de 2008

de volta!?




"Já morei em tanta casa
Que nem me lembro mais..."



trecho da música Pais e filhos, do Legião Urbana

domingo, 29 de junho de 2008

Feliz Ano Velho V




"Sempre tive como filosofia de vida que 'do céu não cai nada além de chuva e avião sem gasolina'"



trecho do livro Feliz Ano Velho, de Marcelo Rubens Paiva

sábado, 28 de junho de 2008

algum dia





"Se você quer
Que eu feche os olhos
Pra alguém que foi viver
Algum dia lá fora
E nesse dia
Se o mundo acabar
Não vou ligar
Pra aquilo que eu não fiz


Faz muito pouco tempo
Aprendi a aceitar
Quem é dono da verdade
Não é dono de ninguém
Só não se esqueça que atrás
Do veneno das palavras
Sobra só o desespero
De ver tudo mudar


Talvez até porque
Ninguém mude por você..."



trecho da música Algum dia, do Capital Inicial

sexta-feira, 27 de junho de 2008

mágicas




Luiz Fernando Veríssimo





Peguei meu filho no colo (naquele tempo ainda dava), apertei-o com força e disse que só o soltaria se ele dissesse a palavra mágica. E ele disse a palavra "mágica". Soltei-o em seguida. Um adulto teria procurado outra palavra, uma encantação que o libertasse. Ele não teve dúvida. Me entendeu mal, mas acertou. Disse o que eu pedi. (Não, não, hoje ele não se dedica às ciências exatas. É cantor e compositor). Nenhuma palavra era mais mágica do que a palavra "mágica".


Quem tem o chamado dom da palavra cedo ou tarde se descobre um impostor. Ou se regenera, e passa a usar a palavra com economia e precisão, ou se refestela na impostura: Nabokov e seus borboleteios, Borges e seus labirintos. Impostura no bom sentido, claro - nada mais fascinante do que ver um bom mágico em ação. Você está ali pelos truques, não pelo seu desmascaramento. Mas quem quer usar a palavra não para fascinar mas para transmitir um pensamento ou apenas contar uma história tem um desafio maior, o de fazer mágica sem truques. Não transformar o lenço em pomba mas usar o lenço para dar o recado, um lenço-correio. Cuidando, o tempo todo, para que as palavras não se tornem mais importante do que o recado e o artifício - a impostura - não apareça, ou não atrapalhe.


O Mário Quintana disse que estilo é uma dificuldade de expressão. Na época em que a gente não podia escrever tudo o que queria, estilo muitas vezes era disfarce. Apelava-se para metáforas, elipses, entrelinhas, e dê-lhe parábolas sobre déspotas militares - China do século XV. Uma impostura maior, a do poder ilegítimo, obrigava à impostura da meia-palavra, do truque mais ou menos óbvio.


O consolo era que o medo da palavra de certa forma a enaltecia: estava implícito que o regime só sobrevivia porque a palavra não podia exercer todo o seu sortilégio. Hoje, livres da obrigação de dissimular, podendo ser econômicos e precisos sem artifício, nos descobrimos sem nem estilo nem muita relevância, mais impostores do que nunca. Pois pode-se escrever tudo e - já que, na manhã seguinte, o Brasil e o mundo continuam do mesmo jeito - não adianta nada. A palavra "mágica" é só a palavra "mágica".

quinta-feira, 26 de junho de 2008

já foi




"Eu sempre quis fazer você feliz
Às vezes me deixava pra outra hora
Eu sempre quis falar o que eu sentia
Mas dessa vez foi o silêncio
Que falou por mim..."


trecho da música Já foi, do Jota Quest

quarta-feira, 25 de junho de 2008

O mundo faliu




Tati Bernardi



Essa foi a frase da minha mãe no último domingo, saindo do Hospital Samaritano. Depois de quatro horas repetindo um exame de sangue para saber se ela estava enfartando (e ela e eu quase enfartamos de verdade com tantas repetições, pensando que só poderia ser algo grave!) descobrimos que a máquina do hospital estava quebrada! E as enfermeiras vinham na maior cara de pau e falavam “senhora, o problema é o seu sangue”. Não agüento isso, não agüento o mundo. Se tem uma coisa que é boa na minha família, é o sangue italiano que esquenta muito mais do que eu gostaria de esquentar a cara da vaca da enfermeira falando mal do sangue da minha mãe. Foram quatro horas no hospital e era a porra da máquina que estava quebrada. E nós, classe média, felizes por estarmos em um hospital de Higienópolis coberto por nossos planinhos médicos de classe média. Eu imagino o que não sofre e o que não é enganado quem nem isso tem.


Mas tudo bem, dane-se a merda da máquina de processar sangue do hospital Samaritano e a enfermeira vaca que nos enganou. E o médico que nos enganou. Mal sabem eles que o que minha mãe tinha era um problema de estômago facilmente solucionado por ela mesma que agora deu de se automedicar lendo o Google. Até quis brigar com ela...mas com que argumento depois do que aconteceu? Viva o Doutor Google que não falha nunca!


Depois de uma manhã no hospital, tudo o que eu queria era pegar meu carro logo, no estacionamento do hospital, e correr pra casa. Vi que estava sem dinheiro mas isso não seria um problema, segundo o manobrista “aceita crédito e débito, moça”. Ah é? E quem disse que eu tenho crédito ou débito? Meu Credicard Mastercard internacional foi bloqueado por clonagem (algum infeliz quis comprar 3 mil reais em besteiras nas Lojas americanas no Rio de Janeiro enquanto eu pagava um cafezinho de 3 reais numa cafeteria no Jardins, em São Paulo. E meu cafezinho, por estar em São Paulo, foi bloqueado. Isso já faz dez dias e cadê um novo cartão? Não sei. Cada vez que tento reclamar alguma vaca me atende mal e me deixa esperando 3 minutos numa musiquinha chata. Desisti.


Meu cartão de débito venceu em maio. Ligo no cartão para pedir um novo e eles falam que é com a minha gerente do Bradesco, uma imbecil que vive rouca de tanto ir em micareta. Ligo pra imbecil e ela me diz que é problema da central do cartão. O fato é que estou há um mês sem poder movimentar minha conta, fazendo cheques de dois reais para comprar bala. E a gente pagando aquelas taxas e mais taxas e aturando comerciais com aquela voz grossa. Uma “completamerda”.


Mas tudo bem, minha querida e ex quase enfartada mãe me empresta dinheiro para o estacionamento. Vamos em frente. Agora é chegar em casa e curtir o resto do domingo. Certo? Errado. Quem me aguarda em casa, desesperada, é a luzinha verde da secretária eletrônica. Quinze chamadas não atendidas do meu pai. Ele não sabe o que fazer, já que a Nextel instalou um gerador de força praticamente dentro de sua casa e ele não dorme há uma semana. Ele já ligou pro SAC da Nextel, pro Psiu e até pra polícia. Nada foi feito. Na-da! Ele tem quase 70 anos e não dorme há uma semana. Minha mãe escapou de enfartar, mas agora é ele quem está correndo riscos. Mundo de merda. O mundo faliu, minha mãe diz antes de tomar remédio pro estômago prescrito pelo Doutor Google. Esse sim funciona. Só ele.Penso que para alegrar meu pai, talvez, hoje a NET instale o combo “telefone, internet e tv a cabo” que comprei para dar de presente a ele, há mais de um mês. Como assim a NET ainda não instalou, pai? E nem ligou pra combinar uma hora com você? Ligo pra NET, sou atendida por 567 babacas que só passam o problema pra frente e nada resolvem. Depois de 35 minutos no telefone em esperas insuportáveis e aturando gente que me perguntava as mesmas coisas 567 vezes, um ser mal humorado e semi analfabeto me informa que a rua do meu pai está “fora da área de instalação da NET”. O mundo faliu. Era domingo a noite e eu só queria cuidar dos meus pais como eles, um dia, já cuidaram de mim. O jeito foi fazer piada porque sorrir ainda é de graça e, graças a deus, não depende dessas marcas que nos bombardeiam o dia inteiro de informações e ódio. E agora, pra completar, ainda tem a nova CPMF. O mundo faliu.

terça-feira, 24 de junho de 2008

O apagador




Luiz Fernando Veríssimo



No filme "La Chinoise", de Jean-Luc Godard, um personagem se vê diante de um quadro-negro em que estão escritos os nomes de todos os principais escritores, compositores, pensadores e artistas da História - e começa a apagá-los, nome por nome, até sobrar só um. Está fazendo uma espécie de purgação intelectual.


Experimente fazer o mesmo. Encha um quadro-negro com todos os nomes que lhe ocorrerem, em nenhum tipo de ordem. Uma seqüência pode ser, por exemplo, "Heródoto, Nietzsche, São Tomaz de Aquino e Charlie Parker", outra "Villa-Lobos, Steinberg, Marques De Sade, Platão e Frida Kalo". Quando não sobrar espaço no quadro negro nem para um nome curto ("Meu Deus, esqueci o Rilke!"), comece a apagar. Nome por nome.


O importante é não racionalizar. Não estabelecer critério ou hierarquia. Deixar a apagador fazer seu trabalho sem interferência da sua consciência ou da sua emoção. Apenas ir apagando. Você pode descobrir coisas surpreendentes a seu próprio respeito. Nomes que, até aquele momento, faziam parte da sua galeria de veneráveis se revelarão apagáveis, outros serão poupados até quase o fim.


E no fim, o nome que sobrar, o único nome que você não apagar, poderá ser a maior revelação de todas. Não será, necessariamente, o nome de quem você considera o mais importante, influente, valioso ou simpático da história das idéias ou das artes. Será apenas o nome que, por alguma razão, você não conseguiu apagar. Depois você só precisará se explicar para você mesmo.
No filme do Godard, o único nome que ficava no quadro-negro era o de Brecht.

segunda-feira, 23 de junho de 2008

pedagogia da sabedoria





"Aquilo que você mais sabe ensinar, é o que você mais precisa aprender..."


Richard Bach

domingo, 22 de junho de 2008

Feliz Ano Velho IV




"A maioria dos que lá estavam, solitariamente bêbados, mas solidariamente loucos."



trecho do livro Feliz Ano Velho, de Marcelo Rubens Paiva

sábado, 21 de junho de 2008

pétalas...




"Eu lhe convido a descobrir que dentro de você há uma rosa imensa onde cada pessoa ocupa um pedaço de pétala, algumas abertas que você já conheceu a beleza inteira, mas há outras que estão se abrindo aos poucos, assim como vamos conhecendo aos poucos aqueles que amamos... E fazer com que essa rosa cresça em significados...

A vida em Deus é importante descobrir rosas, descobrir jardins... São os amigos que nos amam, pessoas que nos amam que nos indicam os lugares secretos das nossas almas


E quando você menos imagina a rosa floresce de novo..."



Pe. Fábio de Melo

sexta-feira, 20 de junho de 2008

crônica do dia ruim




Marília Rodrigues






Tem dias que a gente gostaria de receber mais carinho.


Tem dias que a gente gostaria de ter por perto as pessoas que nos transitem paz, afeto, coisas boas...


Mas quando esses dias chegam, normalmente estamos em plena quarta-feira, com um chefe insuportável gritando sem parar na sua cabeça, uma consulta marcada, a mãe reclamando que seu quarto está uma bagunça (e você fez doze anos a muito tempo!), seu cachorro está doente, o condomínio está atrasado...


Esses dias chegam quando você não tem como ligar para um amigo, ou sair pra espairecer. Eles não têm data marcada, não te avisam com antecedência, nem vem com manual de instruções!


São dias negros na sua existência! Dia que dá vontade de jogar paciência, e não fazer os roteiros atrasados. Dia que dá vontade de ir pro bar, e não fazer prova na faculdade.


Eu bem que gostaria de ter a solução pra esses dias... É doido ver como eles passam devagar, sem nem um pingo de pressa de ver seu sofrimento acabar. Parece que o mundo adora rir um pouco do seu infortúnio, e cada cara feia que você faz é um brinde!


Seria bom se tivéssemos auto-controle suficiente para não descontar a raiva em ninguém. Evitaria aquele sentimento de culpa depois da raiva.


Mas se aceitar um conselho, não esquente tanto com esse dia. Assim como os outros dias, bons ou ruins, esse também vai passar! Além disso, sempre tem uma coisa boa no fim de um dia desses: a prova que foi adiada, o bolo de chocolate da sua mãe, o namorado que faz uma surpresa tarde da noite, uma ligação que dura mais de uma hora, o carinho dos amigos... E até aquela saudade que insiste em bater no coração, fica boa nessas horas!


Ah! Já ia me esquecendo... Normalmente, isso é TPM!

quinta-feira, 19 de junho de 2008

a solidariedade




"A integração social é garantida por meio da solidariedade, que deve ser entendida não como sendo um mero sentimento de simpatia, mas como uma força intersubjetiva que cria um sentimento de pertencimento à mesma comunidade na consciência da dependência recíproca que une os indivíduos.


Ela consiste no reconhecimento da fragilidade dos sujeitos, da própria e da alheia. E da existência de necessidades e carências, tipicamente humanas, que podem ser satisfeitas somente no contexto social íntegro.


A solidariedade é evidentemente um recurso escasso e frágil. A economia e a burocracia servem-se de outros recursos, a saber, o dinheiro e o poder administrativo, que são substituídos pela solidariedade na criação e manutenção dos laços intersubjetivos. Nossas relações com os outros acabam sendo estabelecidas, primariamente, como relações econômicas ou de poder, enquanto a dimensão solidária da dependência recíproca tende a desaparecer, embora fique indispensável para a formação da identidade individual. O resultado são o surgimento de patologias nos processos formativos da subjetividade e uma crescente alienação nas relações interindividuais."




Habermas Honneth

quarta-feira, 18 de junho de 2008

Feliz Ano Velho III




"De que vale a eternidade? Um orgasmo dura poucos segundos. A história se fará com ou sem a sua presença. A morte é apenas um grande sonho sem despertador para interromper. Não sentirá dor, medo, solidão. Não sentirá nada, o que é ótimo. O sol continuará nascendo. A terra se fertilizará com o seu corpo. Suas fotografias amarelarão nos álbuns de família."



trecho do livro Feliz Ano Velho, de Marcelo Rubens Paiva

terça-feira, 17 de junho de 2008

Ausência




Vinicius de Moraes


Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces

Porque nada te poderia dar senão a mágoa de me veres externamente exausto

No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida

E eu sinto que eu meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz

Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado

Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados

Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldilçoada

Que ficou sobre a minha carne como uma nódoa do passado

Eu deixarei... tu irás e encontrarás a tua face em outra face

Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabricharás para a madrugada

Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite

Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço

E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado

Eu ficarei só como os veleiros nos portos silenciosos

Mas eu te possuirei mais que ninguém porque poderei partir

E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas

Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada

segunda-feira, 16 de junho de 2008

fomos perfeitos




Cléo Araújo


Segurei sua mão antes de atravessar a rua.

E de repente, pensei: acho que quero esse homem para sempre.

Você e seu jeito engraçado de ser elegante, seu jeito elegante de ser engraçado.

Como naquela vez, quando cruzou a sala para me acudir de uma cantada inoportuna... Foi como se não quisesse resgatar ninguém que você seguiu, despretensiosamente determinado a me tirar da área de investidas do amigo embriagado. Eu fingi nem perceber. Toda a sedução estava em deixar você ser assim, meio lord, mesmo quando tinha que lidar com um amigo cheio de mãos. Com você fui até meio mulherzinha. Foi naquele jantar, em que eu deixei você escolher o prato para mim. Logo eu, que chegava aos lugares com o menu lido previamente pela internet e que costumava indicar os pedidos que os outros deveriam fazer. Você me quebrou, me deixou gaga e me apresentou cordeiro ao molho de menta. E eu gostei.

Você segurava minha mão sobre a mesa, onde uma luzinha de vela iluminava o estreito espaço entre nós. E eu nunca mais iria querer ser sozinha na minha vida se tivesse você me mimando daquele jeito, a segurar minha mão, a me indicar pratos de cordeiro ao molho de menta, a me servir taças de vinho e a me fazer querer você para sempre.Um pouco era só por causa daquela entrada que você tinha do lado direito da testa. Outro pouco era porque você tinha aquele olhar safado/cavalheiro de Matthew Mcconaughey. Ou talvez fosse só porque você era quentinho num dia frio.

Eu gostava particularmente da manhã. Você era mais perfeito do que em outras horas do dia, pela manhã. Seus braços davam a volta no meu corpo e eu me sentia sedutoramente pequena e franzina. Acho que poderia me sentir pequena e franzina para sempre, ali. Eu ficava na cama e você ia se arrumando enquanto o quarto se perfumava de um aroma de melão. Então, você se vestia. Nunca houve no mundo alguém que ficasse tão bem em uma camisa branca.

Você me arrastava até a cozinha, preparava ovo mexido, suco de laranja e café. Eu só assistia. Não fazia nada, a não ser deixar você cuidar de mim e de tudo.A gente saía, você segurava minha mão e assim ficava fácil de a vida ganhar sentido. Acontecia em cada esquina, quando a gente parava para esperar os carros e você me beijava. E segurava a minha mão. E me beijava de novo. E de repente, eu pensei: acho que quero esse homem para sempre.

De mim você não esperou nada de elementar. De mim, eu sei, você sentiu saudade logo depois. Mas foi como num trecho de Lygia Fagundes Telles que o resto aconteceu.

O meu “para sempre” virou um casamento com os mistérios. O seu “para sempre” eu nunca soube.

Eu só sei que é do toque morno das suas mãos sobre meu rosto frio que eu me lembro...

Toda vez que a temperatura cai.

domingo, 15 de junho de 2008

Feliz Ano Velho II




"Uma maneira de passar o tempo foi pegar uma determinada pessoa, lembrar todos os momentos que estive com ela, os papos. Aliás, é uma mania que tenho até hoje. Isso me angustia um pouco, pois acabo conhecendo muito mais a pessoa do que ela a mim, e dando um valor que nem sempre essa pessoa merece. Cada palavra que ela tenha dito, o gesto ao acender um cigaro, o beijo de despedida, acabam-se tornando imagens marcantes e importantes no meu dia-a-dia."



trecho do livro Feliz Ano Velho, de Marcelo Rubens Paiva

sábado, 14 de junho de 2008

O Pequeno Príncipe I



"O pequeno príncipe arrancou também, não sem um pouco de tristeza, os últimos rebentos de baobás. Ele pensava nunca mais voltar. Mas todos esses trabalhos rotineiros lhe pareceram, aquela manhã, extremamente agradáveis. E quando regou pela última vez a flor, e se preparava para colocá-la sob a redoma, percebeu que tinha vontade de chorar.

- Adeus - disse ele à flor.

Mas a flor não respondeu.

- Adeus - repetiu ele.

A flor tossiu. Mas não era por causa do refriado.

- Eu fui uma tola - disse finalmente. - Peço-te perdão. Procura ser feliz.



trecho do livo O Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry

sexta-feira, 13 de junho de 2008

solitária liberdade!



“Conquistei uma liberdade que me atrai profundamente..."


Adriane Galisteu






quinta-feira, 12 de junho de 2008

verde e laranja: 1 ano!




Thayze Darnieri


Há um ano, dei sentido a uma vontade antiga, elucidar meus sonhos, meus anseios, meu cotidiano, meus sentimentos por meios de palavras, mesmo não sendo sempre minhas, mas de autores cujo reconhecimento seja momentâneo ou atemporal. Para isso, precisava de um meio que me obrigasse a exercitar ao mesmo tempo minha visão crítica e uma percepção mais profunda das nuances do dia-a-dia. Nesse ambiente de incertezas e devaneios nasceu o "verdeelaranja"!


Todo mundo, à sua maneira, tem a necessidade de propagar e refletir seus pensamentos, uma vez que, até inconscientemente analisamos nossas ações durante o dia. Se não funcinasse assim seriamos apáticos a qualquer atitude, própria ou alheia, acarretando uma sociedade sem perspectivas ou futuro. No entanto, apenas algumas mentes atentam-se para o habital conscientemente.




imagem: contribuição e homenagem do blog http://naraianacosta.blogspot.com/

quarta-feira, 11 de junho de 2008

A menina que roubava livros X




"O ser humano não tem um coração como o meu. O coração humano é uma linha, ao passo que o meu é um círculo, e tenho a capacidade interminável de estar no lugar certo na hora certa. A conseqüência disso é que estou sempre achando seres humanos no que eles têm de melhor e pior. Vejo sua feiúra e sua beleza, e me pergunto como uma mesma coisa pode ser duas. Mas eles têm uma coisa que eu invejo. Que mais não seja, os humanos têm o bom senso de morrer".



trecho do livro A menina que roubava livros, de Markus Zusak

divino mistério profundo




Thaty Hamada


Estou incomodada. Parece que aqui dentro tudo se afunda em luzes pisca-pisca. Por um momento apareço no espelho com um sorriso leve, por outro estou com as sobrancelhas tão juntas que mal consigo respirar. Pisca-pisca. Eu não deveria estar assim, a tpm já passou, o namorado é tudo de bom, os amigos, as conversas, o apartamento são ótimos, está tudo tão bem. Acho que é esse "estar bem" que me aflige. Não levo um puxão de orelha, nem tive uma boa ressaca nos últimos meses, talvez anos.

Tudo era menos perfeitinho quando eu tinha 14 anos, menina meio rebelde, meio nerd. Agora tudo é tão real, não existem mais aquelas meninas surreais, aquelas que iam sem uniforme, aquelas que viviam me olhando com medo. Hoje há contas, telefonemas para a central de atendimento, pai e mãe que me entendem em tudo, irmão já paquerando e sendo paquerado, tudo na mesma proporção. Eu gosto de proporções, mas às vezes a falta dela é necessária.

Estou endividada, menos polida, mais cabeça dura e ao mesmo tempo mais romântica. Nunca imaginei que dívidas, teimosia e romance combinassem tanto. Caraca, quantas coisas eu sinto em apenas três horas. Desde o meu banho eu espero que algo aconteça, mas não faço acontecer. Eu poderia estar lá fora com os meninos da faculdade bebendo algo fermentado e comendo uma porçãozinha de qualquer coisa com colesterol altíssimo, afinal só tenho dezenove anos.

Eu poderia não ter gasto um real com o chocolate com mousse de maracujá, mas ele é tão bom. Eu poderia ter passado menos hidratante de morango e não ficar assim enjoada quando passo a mão no rosto. Estou compulsiva por fechar os olhos e os apertar. E eu poderia parar com isso. E deveria sim sair agora e ir beber, ficar de ressaca para a prova de amanhã, mas estou endividada, teimosa e romântica. O romance não tem culpa de nada. Mas eu o culpo mesmo assim.

Estou revoltadinha. Não assim com o mundo, com a devastação da Amazônia ou com o fogo da Ilha Grande. Nem assim revoltada com meu cabelo ou com o rímel que acabou. É uma coisa equilibrada, proporcional e isso me irrita à beça. Acho que preciso ser menos responsável. Ir até o fundo do mar sem lembrar minha mãe dizendo "filha, cuidado, o mar é perigoso", a vida é perigosa e ela não disse isso, porque eu precisava enfrentar. Preciso enfrentar o mar.

No entando, às vezes enterrar o pé em qualquer coisa pode ser divertido e ao mesmo tempo desestruturador, e a vida é assim mesmo, a gente se equilibra na areia fofa e se segura pra não cair com as ondas, mas no final tudo é um belo dia de sol, de preferência em pisca-pisca, por favor.

terça-feira, 10 de junho de 2008

A menina que roubava livros IX




"Por outro lado, você é um ser humano - deve entender dessa obsessão consigo mesmo".



trecho do livro A menina que roubava livros, de Markus Zusak

segunda-feira, 9 de junho de 2008

ficar?




"A melhor maneira de manter os filhos dentro de casa é criar uma atmosfera doméstica agradavél - e esvaziar os pneus do carro".


Dorothy Parker

domingo, 8 de junho de 2008

whisky




Pedro Neschling



“Você gosta de Whisky”, ele disse ao vê-lo pedir a sexta dose seguida.
“Não. Eu gosto do efeito que ele me causa”, o outro respondeu e levantou o copo curto com pouco gelo, mencionando um brinde.
Já haviam se visto por ali algumas vezes. Os dois estavam sempre na mesma situação: bebendo, sozinhos, sentados no balcão. O bar era pequeno, vazio, mas até então nunca haviam se falado, sequer se cumprimentaram. Acontece que naquele dia ele estava se sentindo especialmente sozinho.
Ficaram em silêncio por alguns minutos, talvez mais de uma hora. E então ao terminar mais um copo, o nono ou o décimo, ele já não conseguia mais contar, o outro se aproximou.
“Posso?”, disse se referindo ao banco alto ao lado dele.
“À vontade”, ele balbuciou de volta.
“Minha mulher me largou”, foi assim que o outro começou seu lento monólogo. “Assim, puf, me largou, foi embora, levou meus filhos e foi morar com o filho da puta do meu sócio. Cagou pra mim, pro que eu sentia, foda-se, me largou.”
Respirou antes de continuar.
"Seis meses já. Seis meses que a infeliz me largou. Foi embora, e eu... Porra... Filho da puta do meu sócio! Filha da puta ela! Seis meses já.”
Ele sorriu triste. “A minha também”, e continuou, “De manhã disse que estava cansada de tudo, eu fui trabalhar e quando voltei, encontrei um bilhete. Uma porra de um bilhete. E nunca mais. Não sei pra onde foi, com quem ela está... Não posso nem dar porrada no filho da puta do meu sócio!”
Dito isso, eles brindaram e voltaram a ficar em silêncio.


Levantaram-se juntos e caminharam até a saída.
“Até mais.”
“Até.”Ele caminhou para o carro e o outro fez sinal para um táxi, que o ignorou e seguiu.
“Filho da puta!”
“Quer carona?”
“Vai dirigir?”
“Algum motivo pra não?”, ele disse.


Entraram no apartamento dele em silêncio. Ele acendeu uma luminária que deixava o ambiente com uma luz amarelada meio sombria. Serviram-se mais drinks e se sentaram no macio sofá de camurça para três lugares.
Dava para escutarem suas respirações.
“Eu sinto falta dela.”
...
“Eu também.”
...
O copo de whisky do outro caiu de sua mão e molhou tudo.
“Caralho!”
“Deixa pra lá.”
E enquanto falaram isso naturalmente se aproximaram. Se olharam. E num gesto meio desesperado, meio impulsivo, se beijaram.
Enquanto se agarravam com força, começaram a tirar as próprias roupas. Não demorou para ficarem nus no meio da sala. Um com a mão no sexo do outro.
Ambos impotentes.
Continuaram se agarrando com mais sofreguidão, mas continuavam assim. Membros inertes.


Choraram.
Muito.
De cair no chão.

sábado, 7 de junho de 2008

A menina que roubava livros VIII




"Tive vontade de dizer muitas coisas à roubadora de livros, sobre a beleza e a brutalidade. Mas que poderia dizer-lhe sobre essas coisas que ela já não soubesse? Tive vontade de lhe explicar que constantemente superestimo e subestimo a raça humana - que raras vezes simplesmente a estimo. Tive vontade de lhe perguntar como uma mesma coisas podia ser tão medonha e tão gloriosa, e ter palavras e histórias tão amaldiçoadas e tão brilhantes. Nenhuma dessas coisas, porém, saiu da minha boca".



trecho do livro A menina que roubava livros, de Markus Zusak

sexta-feira, 6 de junho de 2008

meu ritmo!




"Eu não sei se a vida é que vai rápida demais ou se sou eu que estou mais lento. O que sei é que ando me atropelando nos próprios passos. Eu resolvi desacelerar. Eu vou no rítmo que posso. Não é fácil. É sabedoria que requer aprendizado! Eu quero aprender.O descompasso é a causa de todo cansaço. O corpo é rápido, mas o coração não."


Pe. Fábio de Melo

quinta-feira, 5 de junho de 2008

Feliz Ano Velho I




"O espelho nos dá esta sensação mágica de, subitamente, tomar consciência de si mesmo. É o momento que você se encotra com o que você representa para o mundo".



trecho do livro Feliz Ano Velho, de Marcelo Rubens Paiva

quarta-feira, 4 de junho de 2008

você



Nelson Botter Jr.


Dois peixes num aquário.
A luz neon refletida nos olhares, tímidos, fixos e cobertos de desejo.
Na vitrolinha os acordes melódicos de One tentam abafar os burburinhos da cidade lá fora.
Is it getting better?
Foi-se o tempo em que havia esperança num mundo melhor, foi-se o tempo em que as ilusões tapavam nossas turvas visões.
Naquele instante, milésimos de segundo, só havia aqueles dois peixes, não só no aquário, mas em todo o oceano.
Assim que o dia amanheceu lá no mar alto da paixão, dava pra ver o tempo ruir.
O sorriso metálico e angelical invadia cada centímetro do concreto que separava aquelas duas bocas.
Bocas nervosas, procurando oxigênio na água artificial daquele aquário.
Qual comprimido você prefere?
O vermelho ou o azul?
Prefiro a língua, a tua, que me invade sem pedir licença e bagunça tudo por aqui, aqui por dentro, aqui, põe dentro.
Uma tormenta em nossos aquários. Enquanto os peixes nadam, dançam ao som da música da vida, o mundo lá fora pára, os tubarões não mais existem, o cheiro da fumaça se transforma em lavanda, as buzinhas viram trombetas, o sangue volta a jorrar, em gozo.
A tua carne na minha boca, todas as carnes, todas vivas e ricas em sabor.
Invado-te com a força e delicadeza de um felino, espirrando meu veneno dentro do teu ser, fazendo-te gemer e propagar todos os sons dentro da água, cravando tuas escamas nos corais e apontando novas cores para a noite escura e sem graça que nos aguarda lá fora, nos limites de nosso espesso vidro.
One love, get to share it, leaves you baby, you don't care for it.
Os altos muros mouros que cercam os quadris que agora dançam para mim, conforme a maré, trazem movidas de terras distantes, do oriente desorientado, cravados em tuas madeixas que adoram tocar minhas escamas, no vai e vem da correnteza, no ritmo da dança do teu ventre.
Miro as coxas grossas que se exibem, pedem minha boca, minha calda, minhas barbatanas.
E é assim, num pacto velado, que os peixes seguem em frente, nadando a favor ou contra a maré, mergulhando no abismo do desconhecido e voltando à tona para respirar, domando cavalos-marinhos e contando estrelas do mar no céu.
E é assim que a música acaba, numa lucidez silenciosa.
Os olhares que se distanciam.
As saudades que alimentam.
Os desejos que afogam.
Os sorrisos que novamente se encontram.
Nada mais.
Nada menos.
Na medida.
Encaixes perfeitos.
Dois peixes num aquário.

terça-feira, 3 de junho de 2008

A menina que roubava livros VII




SIGNIFICADO nº 3 DO DICIONÁRIO DUDEN
Angst - Medo:
Emoção desagradável, amiúde intensa, causada pelo
pressentimento ou pelo reconhecimento do perigo.
Vocábulos correlatos: terror, pavor, pânico, susto, sobressalto.
.
.
trecho do livro A menina que roubava livros, de Markus Zusak

segunda-feira, 2 de junho de 2008

ah, o mar!




"Eu não sei como eu posso parecer ao mundo, mas para mim, eu pareço ser apenas como uma criança brincando na beira do mar, divertindo-me e encontrando um seixo mais liso ou uma concha mais bonita do que o ordinário, enquanto o grande oceano da verdade permanece todo indescoberto diante de mim."


Issac Newton

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