sábado, 31 de maio de 2008

Ensaio sobre São Paulo




Thayze Darnieri


É natural do homem criar pré-conceitos acerca do objeto desconhecido para, em síntese, ter um panorama do assunto relacionado. Em decorrência dessa postura banal havia construído o meu discurso limitado sobre a cidade de São Paulo, sem a devida vivência racionalizei um misto de conceitos prontos e enlatados. Para mim, São Paulo era uma panela de pressão prestes à explodir, ou seja, um turbilhão de gente apressada em um amontoado envolto por uma nuvem de fumaça cinza, um verdadeiro caos.

No entanto, como é sabido o conhecimento teórico, nem sempre, tem credibilidade. Noções aferidas por meio de suposições são infinitamente inferiores às adquiridas através da experimentação. Nesse caso, o modo de absorver informações das crianças é o mais aconselhável, a necessidade de olhar e tocar para confirmar o verdadeiro sabor, logo, nada melhor que viajar afim de saciar a sede de liberdade.

A vista aérea confirma a minha impressão anterior, São Paulo nada mais é que uma plantação de prédios e arranha-céus, um choque ao olhos de quem está acostumada aos prédios baixos de Brasília. Outro constraste à capital federal foi a temperatura, habituada ao clima inconstante mas ameno, se assusta quando se depara com temperaturas entre 10 e 14 graus.

Entretanto, no meu ensaio como turista não pude deixar de sentir o quão surreal é estar presente no mesmo espaço de acontecimentos memoráveis da história brasileira. O Teatro Municipal, palco da Semana da Arte Moderna de 1922, marco inicial do Modernismo no Brasil, dotado de um estilo arquitônico capaz de levar a retroceder no tempo e viajar à época longínqua cuja literatura contava com o brilhantismo de Mário e Oswald de Andrade. O Vale do Anhangabaú, espaço onde ocorreu o célebre comício pelas Diretas Já, em um tempo onde a democracia era utopia e acreditar significava o mesmo que lutar, abrigou uma multidão de manifestantes que contavam com nomes como Mário Covas e Leonel Brizola. A BOVESPA e BM&F, assuntos tão atuais e recorrentes representados por instalações de caráter histórico, talvez para remeter a um paralelo entre as fórmulas antigas a evolução dos métodos cada vez mais eficientes do mercado financeiro. O Mercado Municipal, entreposto dos amantes da cozinha, reduto de milhares de especiarias, além dos belíssimos vitrais, também difícil não lembrar da novela A Próxima Vítima da Globo, que ambientava a Banca do Juca, personagem do Tony Ramos. A Liberdade, bairro da colônia japonesa na cidade, cuja a influência cultural é fortíssima tanto que é impossível não se sentir no Japão, seja por causa das construções e das luminárias tipicamente orientais espalhadas pelas ruas, o comércio de produtos japoneses de fato, inclusive com rótulos escritos em japonês, afora a concentração maciça de rostos de olhos puxados. O Pátio do Colégio, símbolo do nascimento da cidade de São Paulo, onde os jesuítas a mando de Portugal, estabeleceram um núcleo para a catequisação dos indígenas daquela região. A Catedral da Sé, de notável beleza, inspirada no estilo gótico, que funde perfeitamente a arquetetura com religião, facilmente perceptível pelos traços comuns ao gênero, no entanto, como centro de fé transmite paz em oposição ao rebuliço de fés e distintas contemplações encontradas na Praça da Sé onde se encontra. O Parque do Ibirapuera, mais um verde para cidade cinza, para tanto, na composição do parque é possível avistar a diversidade da vegetação, contando com placas que além de outras informações esclarecem a origem das árvores, entre outras informações, o espaço conta também com diversas construções no interior do parque que promovem a convergência cultural da cidade. O Lago do Ibirapuera, uma vez que apesar dos malefícios da poluição urbana ainda existem refúgios para exercitar a qualidade de vida. O Obelisco de São Paulo, monumento funerário localizado no Parque do Ibirapuera que homenageia e resguarda os corpos do estudantes mortos durante a Revolução de 1932 e outros ex-combatentes, por isso há em relevo cenas bíblicas e passagens da história paulista. O Auditório Ibirapuera, obra característica de Oscar Niemeyer, um bloco branco com a labareda vermelha em destaque na porta de entrada, sendo sua marca registrada. Em frente situa-se o Pavilhão Lucas Nogueira Garcez, popularmente conhecido como Oca, obviamente devido a sua forma, um espaço para exposições. Face ao Parque está o Monumento às Bandeiras, escultura que representa os bandeirantes, expondo suas diversas etnias e o esforço para desbravar o país, vê-se na obra os portugueses, negros, mamelucos e indíos. O MASP, uma ousadia arquitetônica para a época, naquele tempo, o maior vão-livre do mundo, nota-se, também, o extrordinário e mais completo acervo, pois abrange obras desde a Antiguidade Clássica a Contemporânea, que infelizmente não tive a oportunidade de conhecer. Tal qual o museu, outros pontos de marcante importância situam-se na Avenida Paulista, como diz Marcelo Rubens Paiva no livro Feliz Ano Velho: "Uma paulista chamada avenida", centro financeiro, cultural e entreterimento, devido a grande concentração de sedes de empresas, bancos, hospitais, restaurantes, por conseguinte, a intensa movimentação de pessoas de todos os lugares do país e do mundo, além de sua extensão, bem como eixo de outras ruas importantes, historicamente era sinônimo de status, visto que abrigava a elite da sociedade paulista, quando da inauguração seguia padrões urbanísticos relativamente novos para a época, em seus palacetes haviam regras de implantação, entretanto, os casarões construído após essa época se diferenciava dos demais, constituindo um tecido urbano eclético, tanto que até hoje é possível ver edificações antigas misturada aos arranha-céus.

Em suma, a cidade de São Paulo é conjunção de povos e culturas. Um grande espaço construído por milhares de mãos, portanto o resultado não poderia ser outro que um universo diverso. Tanto que estar nessa cidade causa um turbilhão de sensações, uma vez que mesmo sendo uma coisa só reflete mundos diferentes. Encontra-se a multidão na Paulista, bem como tranquilidade nos bairros mais afastados, a cidade é gigantesca, contudo conta com um metrô vai a quase todos os lugares. Enfim, um lugar como qualquer outro e uma cidade como nenhuma outra!

sexta-feira, 30 de maio de 2008

existe razão?




"E quem um dia irá dizer que existe razão nas coisas feitas pelo coração? E quem irá dizer que não existe razão?"



trecho da música Eduardo e Mônica, do Legião Urbana

quinta-feira, 29 de maio de 2008

... e ainda somos os mesmos!





Por favor, não me analise
Não fique procurando cada ponto fraco meu.
Se ninguém resiste a uma análise profunda,
Quanto mais eu...
Ciumento, exigente, inseguro, carente
Todo cheio de marcas que a vida deixou
Vejo em cada grito de exigência
Um pedido de carência, um pedido de amor.
Amor é síntese
É uma integração de dados
Não há que tirar nem pôr
Não me corte em fatias
Ninguém consegue abraçar um pedaço
Me envolva todo em seus braços
E eu serei o perfeito amor.



Mário Quintana
extraído do blog http://naraianacosta.blogspot.com/

quarta-feira, 28 de maio de 2008

A menina que roubava livros VI




"Se ao menos pudesse voltar a ser tão distraída, a sentir tanto amor sem saber, tomando-o por engano pelo riso e pelo pão com um levíssimo cheiro de geléia espalhado por cima. Foi a melhor época da sua vida".



trecho do livro A menina que roubava livros, de Markus Zusak

terça-feira, 27 de maio de 2008

não quero só!




"A gente não quer só comer, a gente quer prazer pra aliviar a dor..."


trecho da música Comida, dos Titãs

segunda-feira, 26 de maio de 2008

A menina que roubava livros V




"Só confiamos nas pessoas em quem temos de confiar".



trecho do livro A menina que roubava livros, de Markus Zusak

domingo, 25 de maio de 2008

saudade





Miguel Falabella



Trancar o dedo numa porta dói. Bater com o queixo no chão dói. Torcer o tornozelo dói. Um tapa, um soco, um pontapé, doem. Dói bater a cabeça na quina da mesa, dói morder a língua, dói cólica, cárie e pedra no rim. Mas o que mais dói é a saudade.


Saudade de um irmão que mora longe. Saudade de uma cachoeira da infância. Saudade de um filho que estuda fora. Saudade do gosto de uma fruta que não se encontra mais. Saudade do pai que morreu, do amigo imaginário que nunca existiu. Saudade de uma cidade. Saudade da gente mesmo, que o tempo não perdoa. Doem essas saudades todas. Mas a saudade mais dolorida é a saudade de quem se ama.


Saudade da pele, do cheiro, dos beijos. Saudade da presença, e até da ausência consentida. Você podia ficar na sala e ela no quarto, sem se verem, mas sabiam-se lá. Você podia ir para o dentista e ela para a faculdade, mas sabiam-se onde. Você podia ficar o dia sem vê-la, ela o dia sem vê-lo, mas sabiam-se amanhã. Contudo, quando o amor de um acaba, ou torna-se menor, ao outro sobra uma saudade que ninguém sabe como deter.


Saudade é basicamente não saber. Não saber mais se ela continua fungando num ambiente mais frio. Não saber se ele continua sem fazer a barba por causa daquela alergia. Não saber se ela ainda usa aquela saia. Não saber se ele foi na consulta com o dermatologistacomo prometeu. Não saber se ela tem comido bem por causa daquela mania de estar sempre ocupada; se ele tem assistido às aulas de inglês, se aprendeu a entrar na Internet e encontrar a página do Diário Oficial; se ela aprendeu a estacionar entre dois carros; se ele continua preferindo Malzebier; se ela continua preferindo suco; se ele continua sorrindo com aqueles olhinhos apertados; se ela continua dançando daquele jeitinho enlouquecedor; se ele continua cantando tão bem; se ela continua detestando o MC Donald's; se ele continua amando; se ela continua a chorar até nas comédias.


Saudade é não saber mesmo! Não saber o que fazer com os dias que ficaram mais compridos; não saber como encontrar tarefas que lhe cessem o pensamento; não saber como frear as lágrimas diante de uma música; não saber como vencer a dor de um silêncio que nada preenche. Saudade é não querer saber se ela está com outro, e ao mesmo tempo querer. É não saber se ele está feliz, e ao mesmo tempo perguntar a todos os amigos. É não querer saber se ele está mais magro, se ela está mais bela. Saudade é nunca mais saber de quem se ama, e ainda assim doer...


Saudade é isso que senti enquanto estive escrevendoe o que você, provavelmente, está sentindo agora depois que acabou de ler.

same mistake


James Blunt

So while I'm turning in my sheets
And once again, I cannot sleep
Walk out the door and up the street
Look at the stars beneath my feet
Remember rights that I did wrong
So here I go


Hello, hello
There is no place I cannot go
My mind is muddy but
My heart is heavy, does it show
I lose the track that loses me
So here I go
Oh...


And so I sent some men to fight
And one came back at dead of night
said "Have you seen my enemy?"
said "he looked just like me"
So I set out to cut myself
And here I go
Oh...


I'm not calling for a second chance
I'm screaming at the top of my voice
Give me reason, but don't give me choice
'Cause I'll just make the same mistake again
Oh...


And maybe someday we will meet
And maybe talk and not just speak
Don't buy the promises 'cause
There are no promises I keep
And my reflection troubles me
So here I go
Oh...


I'm not calling for a second chance
I'm screaming at the top of my voice
Give me reason, but don't give me choice
'Cause I'll just make the same mistake...
I'm not calling for a second chance
I'm screaming at the top of my voice
Give me reason, but don't give me choice
'Cause I'll just make the same mistake again
Oh...


So while I'm turning in my sheets
Oh...


And once again, I cannot sleep
Oh...


Walk out the door and up the street
Oh...


Look at the stars
Oh...


Look at the stars, falling down
Oh...


And I wonder where,
Oh... did I go wrong

sexta-feira, 23 de maio de 2008

amor e amizade!




"E sei que a poesia está para a prosa, assim como o amor está para a amizade. E quem há de negar que esta lhe é superior?"




trecho da música Língua, de Caetano Veloso

quinta-feira, 22 de maio de 2008

o amor é brega




"O amor é lindo. É. Mas é brega. Se não é brega é porque é pouco."



trecho da crônica O amor é brega, de Maitê Proença

quarta-feira, 21 de maio de 2008

apologia ao tédio ou nada com coisa alguma




Analise, ou melhor faça uma reflexão, como diria o ex-governador Leonel Brizola, "pai do PDT" e herdeiro do trabalhismo getulista, se todas as coisas do universo fossem organizadas da mesma maneira, formando uma só coisa.


Imaginemos se os formandos em comunicação, com especialização em jornalismo, seguissem, rigorosamente ou rigidamente, as regras impostas pelas faculdades e seus professores ou mestres.


Afinal diz o ditado popular. "Quem sabe faz. Quem não sabe tenta ensinar e se complica".


Antes de ser jornalista, o cidadão tem que ser repórter. Nascer com esta vocação. Saber separar a política.


Ser suprapartidário e não ideológico, caso contrário ele deixará de ser repórter, não se transformara em jornalista, e passará a ser um simples assessor de imprensa, com direito a ser promovido a "aspone", ou a "ascone". O que não deixa de ser muito melhor.


Afinal, ganhará mais, trabalhará menos e aparecerá mais na mídia.


Todo o jornalista tem que ser firme, ético e honesto consigo mesmo, assim como o ser humano em geral, para então estender esta qualidade para os demais da sociedade, e aplica-la no dia a dia.


Para ser um bom jornalista é necessário prática, humildade, raciocínio e muita cultura popular, caso contrário teremos eternamente um "foca".


Aquela figura que faz tudo que seu patrão manda e bate palmas para as burrices dos editores ou dos "coleguinhas" que estão sempre na mídia, falando bobagens ou não, através das redes de televisão.


Jornalista tem fígado e não coração, jornalista é servido pela fonte e não serve jamais a fonte.


Se não for desta maneira, teremos um universo de "concordinos" que por um alto cachê muda de lado.


Deixa até mesmo de ser "comunista". Basta ganhar seu primeiro "milhão". Que nos digam o presidente Lula, a ministra Dilma Roussef, o ministro Franklim Martins e outros mais.


Todos se renderam ao ócio e entraram em harmonia com o universo organizado dos políticos profissionais.


Posso estar completamente errado, porém prefiro errar sozinho do que acertar com aqueles que hoje defendem o que eu sempre critiquei. O famoso vale tudo pelo Poder e pelo dinheiro!


O Brasil tem que deixar de ser um país do futuro, acordar do berço esplêndido e se tornar um país do presente. Não quero morrer e ressuscitar daqui a dois mil anos e ter que ouvir esta mesma frase. "Brasil um país do futuro".


Cabe a uma imprensa viva, rebelde, contestadora, séria na informação e, principalmente, livre individualmente continuar lutando para mudar esta situação.


Se não for verdade não merece ser publicado. O que não podemos permitir é que se abafem escândalos das autoridades. Afinal todos somos iguais perante a Lei.


Basta da apologia ao tédio, ou do nada com coisa alguma, conforme nós estamos assistindo há vários séculos no país. Basta de sermos "focas", vamos assumir nossa profissão de repórter/jornalista.


artigo escrito por Almiro Archimedes para o Manual dos Focas
http://manualdosfocas.blogspot.com/


Em tempo: Almiro Archimedes é um dinossauro do jornalismo que até hoje trabalha nos corredores do Congresso atrás da melhor pauta.

terça-feira, 20 de maio de 2008

"nova" língua portuguesa




O Parlamento português aprovou, nesta sexta-feira, o segundo protocolo modificativo do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, o que encerra décadas de discussão sobre a questão. Assim, Portugal se une a Brasil, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe que em 2007 ratificaram o protocolo.

O acordo passa a valer no Brasil no dia 1º de janeiro de 2009 e o país terá três anos para se adaptar à nova maneira de se escrever. Portugal terá seis, uma vez que as mudanças por lá serão bem maiores do que aqui. O dicionário português terá de trocar 1,42% das palavras, enquanto o nosso, apenas 0,43%.


Com o Acordo, o alfabeto passará a ter 26 letras, com a volta de "k", "w", "y". Nas gramática brasileira, as principais mudanças são a eliminação do trema, do acento nos ditongos abertos "ei" e "oi" de palavras paroxítonas (como idéia e heróico), no hiato "oo" (de enjôo ou vôo) e nas formas verbais crêem, lêem, dêem.


Em Portugal, serão suprimidas as consoantes mudas (de acção ou director) e o "h" inicial de palavras como "húmido".


publicado no jornal O Globo

segunda-feira, 19 de maio de 2008

A menina que roubava livros IV




"... mais uma prova que o ser humano é contraditório. Um punhado de bem, um punhado de mal. É só misturar com água."



trecho do livro A menina que roubava livros, de Markus Zusak

à vontade




"Não há lugar como nosso lar".



Dorothy em O Maravilhoso Mágico de Oz, de Lyman Frank

sábado, 17 de maio de 2008

o país do quem diria




Luiz Fernando Veríssimo



Um brasileiro que tivesse ido para o espaço em 2002 e voltado agora teria toda a razão para estar tonto, e não apenas pelo choque da reentrada na atmosfera. Teria viajado em meio a manifestações de pânico do mercado financeiro com a iminência da eleição do Lula e voltado em meio à festa pelo governo Lula ter recebido a mais alta condecoração que a cabala financeira mundial pode dar, a Medalha do Pagador Confiável, grau de convertido mor. Nosso perplexo viajante no espaço não pararia de repetir a frase mais ouvida no país das expectativas furadas, nestes últimos tempos: "Quem diria... Quem diria..."

Quem diria que quem um dia pregou o calote acabaria um pagador premiado? Quem diria que os barbudos que mudariam tudo quando chegassem ao governo, começando pela política econômica, não apenas continuariam a mesma política como conseguiriam o reconhecimento internacional que as fatiotas do governo anterior não alcançaram?

Quem diria que em vez do caos que previam com a eleição do Lula os bancos se vissem, no seu governo, favorecidos e ricos como nunca antes? Quem diria que, com sua aprovação popular empatando com a aprovação da irmandade financeira, o governo do PT se transformaria num exemplo inédito de populismo conservador?

É verdade que o "quem diria" pode ser dito com tanto quanto agradável surpresa, dependendo da expectativa furada de cada um. Para quem tinha esperanças mais de esquerda, a decepção com o conservadorismo do PT no governo, mesmo compensada com o golpe para a auto-estima do patriciado brasileiro que é o prestígio do torneiro-mecânico nas altas rodas do dinheiro, e mesmo com os avanços simultâneos havidos na distribuição de renda no país, ainda é uma decepção.

Para quem já estava fazendo as malas para fugir do caos em 2002, mesmo após o Lula ter avisado que não faria nada do que eles estavam temendo no governo, o "quem diria" vem acompanhado de um sorriso incrédulo. Quem diria que seria logo num governo do PT a apoteose do pensamento único?

O grau de país seguro para investimentos significa, em linguagem menos cabalística, que é seguro jogar neste cassino. O crupiê não tira cartas da manga, a roleta está no nível certo. A analogia só não é completa porque nos cassinos reais a casa costuma ganhar mais do que os apostadores e, no Cassino Brasil, onde o dinheiro entra e sai sem controles — e agora entrará e sairá com mais volume —, a casa é a que menos ganha.

sexta-feira, 16 de maio de 2008

em breve: o futuro



"Somos tão pequenos diante do nosso futuro, mas qualquer serenata nos torna imensos e eternos."


trecho do texto Delícia, de Thaty Hamada

quinta-feira, 15 de maio de 2008

um segredo!




"O segredo da criatividade é esconder bem as suas fontes."



Albert Einstein

quarta-feira, 14 de maio de 2008

Delícia





"Dizem que me divirto com muito pouco, mas se eu não risse das coisas bonitas, fofas e engraçadas, o que seria divertido? O medo do lobo mau? O urbanismo avantajado e cinza? O medo da próxima entrevista de emprego? O casamento e gravidez? Prefiro um bom sunday de maracujá com cereja e rezar para você não ficar bravo por eu colocar sorvete no seu nariz. Para depois eu sentir o gosto cítrico e adocicado que me faz sorrir e desejar aquele monstro em minha vida."



trecho do texto Delícia, de Thaty Hamada

terça-feira, 13 de maio de 2008

mais turbulências...




"Épocas de turbulência são sempre perigosas, mas seu maior perigo é a tentação de negar a realidade."


Peter Drucker

segunda-feira, 12 de maio de 2008

adoro gay




Maitê Proença



- Eu adoro gay!

- Como assim, minha filha, quem você conhece que seja gay?
.
- Todos os seus amigos, e os meus que ainda não têm idade, mas que serão.
.
- Como todos os meus amigos?
.
- Mamãe, acorda, você está lentinha, um gay já teria entendido. Tô falando dos seus amigos que são gays, e dos meus, que serão porque tá na cara. Eles gostam de conversar com as meninas, são engraçados, rápidos, vão às compras com a gente, dão palpite na roupa, reparam em detalhes fundamentais e só recomendam filmes que prestam. Os outros meninos gostam de futebol.

Essa é a opinião de minha filha de 13 anos. E juro que não é influência minha, apesar de concordar com quase tudo. Aliás, parece que o mundo concorda. Nunca se viu tanto gay assumido e com fé, e nunca se viu tanta tolerância com isso. Estive em Buenos Aires recentemente e fiquei choquita com a quantidade de bicha chique circulando por las calles. Existe um turismo gay correndo em paralelo, cheio de redutos gay-friendly (o termo não é meu e é sinal dos tempos) para apoiá-lo. São bares, restaurantes, lojas, boates, até casa de tango, aquela dança maravilhosamente chauvinista em que o homem subjuga a mulher, aquela coisa de macho, sabe? Pois é, agora existe, só pra rapazes. O mercado descobriu os gays! E os gays, encantados, responderam com um furor consumista muito acima do esperado. Eles têm dinheiro pra gastar - não têm filhos, e, em geral, num casal ambos trabalham. Gostam da rua, da balada e têm tempo e espírito pra isso. Gay não é quietinho, difícil encontrar um, parece que uma vez saídos do armário querem se exibir pro mundo com orgulho e alegria. Com o senso estético apurado, o apreço por boas roupas, o amor aos acessórios, a cremes, perfumes, loções, vinhos de qualidade, ambientes bem decorados e cidades sofisticadas, esses meninos, agora mais soltos, fazem a festa por onde passam.

Mulher gay já é outra conversa. São corporativistas, vivem em guetos e gostam de outras gays. Não gostam de homens e gostam de mulheres, mas com restrições - se forem peruas, por exemplo, já não gostam. Bebem muito, tem seus bares, suas músicas (Bethânia, Cássia, Ana, Simone, Zélia...), vestem-se com o que lhes esconda as formas e andam de perna aberta. Até de bicicleta, pode reparar, mulher hétero pedala de perna junta, enquanto elas, vão felizes de coxão aberto pelas ciclovias. Vou levar puxão de orelha, já tô vendo, tenho uma penca de amigas simpatizantes que adoram uma discussão, e tem coisa aqui, perna aberta e o escambau, que vai render no meu ouvido. Briguem comigo não, vocês sabem que, quando a coisa aperta no amor com os moços, só vocês me entendem, e um dia ainda mudo de lado. E, pra levantar, não há como negar-lhes o talento administrativo. Coloque num cargo de chefia e observe. São incansáveis, concentradas, organizadas, responsáveis, detalhistas, perfeccionistas e têm espírito de liderança. Estão cada vez mais na cabeça de grandes empresas e mandam como ninguém. Dizem os astrólogos, arrastando a sardinha, que essas características de ambos os lados se devem aos céus. Mulher gay geralmente (aqui é tudo geralmente, não se generaliza nesse assunto) tem Marte forte com Vênus fraca, e homem gay, o contrário - Marte representando o comando e objetividade, e Vênus a estética e curiosidade por outras culturas. Aquela bichinha comissária presente em todos os vôos está portanto explicada, o maquiador, o cabeleireiro, os decoradores, designers, figurinistas, camareiros, atores, também. É gay pra todo lado e já virou até refrão: tá faltando homem! A debandada é voraz e, na ala de cá, os machos que restam estão cada dia mais acuados, sem graça, e com o entusiasmo na sola do pé. Sinto dizer, meninas, mas boa parte disso se deve a nós mesmas - estamos masculinizadas! Pois se agora andam abolindo até a menstruação... Coloca-se uma plaquinha aderente no corpo e simplesmente a moça pára de sangrar. Não tem mais TPM, cólicas, inchaço, e até a celulite diminui. É perfeito, mas o romantismo, a possibilidade de procriar, o instinto maternal, as oscilações de humor, ou seja, tudo o que a faz mulher, ela também não tem. Então sai por aí no troca-troca desvairado, caçando feito homem, em nome de uma liberdade besta que está longe de satisfazer quem quer que seja. Ora, meninas, nós já ganhamos tanto espaço, será que não está na hora de aprender a lidar com isso? Esse 'faço, quero, aconteço e não dependo de ninguém' tá chato pra caramba. Sei não, mas sinto que um pouco de elegância, graça e doçura, a volta dessas delicadezas que a gente sempre teve sobrando, cairia feito uma bênção nesse momento de aperto.

domingo, 11 de maio de 2008

mamãe e o sentido da vida





— É bom conversar, mamãe. Esta é a primeira vez. Talvez eu sempre tenha desejado isso, e é por essa razão que você continua na minha cabeça e nos meus sonhos. Talvez agora seja diferente.

— Diferente como?

— Bem, poderei ser mais eu, viver para as causas e os objetivos que eu escolher para acalentar.

— Você quer se livrar de mim?

— Não. Bem, não dessa maneira, isto é, não de uma maneira ruim. Quero a mesma coisa para você. Quero que você possa descansar.

— Descansar? Algum dia você me viu descansar? O papai cochilava todos os dias. Alguma vez você me viu cochilar?

— O que eu quero dizer é que você devia ter seu próprio objetivo na vida, não isso — disse eu, apontando para sua sacola de compras. — Não os meus livros! E eu deveria ter meu próprio objetivo.

— Mas eu acabei de explicar — replicou ela, passando a sacola de compras para a outra mão, para longe de mim. — Esses não são só seus livros. São meus livros também!

Seu braço, que eu ainda estava segurando, de repente ficou frio, e eu o soltei.

— O que você quer dizer com essa história de eu ter meu objetivo? — continuou ela. — Estes livros são o meu objetivo. Trabalhei por você e por eles. A minha vida inteira eu trabalhei por esses livros, meus livros. — Mamãe enfiou a mão na sacola de compras e tirou mais dois. Encolhi-me, com medo de que ela os levantasse e saísse exibindo-os para a pequena multidão de espectadores que haviam se juntado a nossa volta.

— Mas você não entende, mamãe. Nós temos que ser separados, e não atados uns aos outros. Isso é que é tornar-se uma pessoa. É exatamente sobre isso que escrevo nesses livros. É o modo como quero que meus filhos sejam, todos os filhos. Desatados.

— Vos meinen, desabados?

— Não, não, desatados: uma palavra que significa livre ou liberto. Não estou conseguindo me fazer entender, mamãe. Deixe-me dizer desta maneira: toda pessoa no mundo é fundamentalmente sozinha. É duro, mas é assim que as coisas são, e temos de encarar isso. Então, quero ter minhas próprias idéias e meus próprios sonhos. Você também deveria ter os seus. Mamãe, eu quero você fora dos meus sonhos.

Seu rosto se contraiu severamente e ela deu um passo atrás, afastando-se de mim. Apressei-me a acrescentar:

— Não é por eu não gostar de você, e sim porque quero o que é bom para todos nós, para mim e para você também. Você deve ter seus próprios sonhos na vida. Certamente você consegue entender isso.

— Oyvin, você continua a achar que eu não entendo nada e você entende tudo. Mas eu também olho para a vida. E para a morte. Entendo mais de morte do que você.

Pode acreditar. E entendo de estar sozinha mais do que você.

— Mas, mamãe, você não enfrenta a solidão. Você fica comigo. Não me larga. Vagueia nos meus pensamentos. Nos meus sonhos.

— Não, filhote.

"Filhote": fazia cinqüenta anos que eu não ouvia essa palavra; tinha esquecido que era assim que ela e meu pai costumavam me chamar.

— Não é como você pensa, filhote — continuou ela. — Há coisas que você não entende, coisas que você virou de cabeça para baixo. Sabe aquele sonho, aquele em que eu fico lá no meio da multidão, vendo você no carrinho acenando para mim, me chamando, me perguntando como se saiu na vida?

— Sim, é claro que me lembro do meu sonho, mamãe. Foi onde isso tudo começou.

— Seu sonho? É isso que eu quero lhe dizer. O erro é esse, Oyvin, é você pensar que eu estava no seu sonho. Aquele sonho não era seu, filhote. Era o meu sonho. As mães também têm sonhos.



trecho do livro Mamãe e o Sentido da vida, de Irvin D. Yalom

sábado, 10 de maio de 2008

bandeira do divino



Ivan Lins


Os devotos do Divino
Vão abrir sua morada
Pra bandeira do menino
Ser bem-vinda, ser louvada, ai, ai


Deus nos salve esse devoto
Pela esmola em vosso nome
Dando água a quem tem sede,
Dando pão a quem tem fome, ai, ai


A bandeira acredita
Que a semente seja tanta
Que essa mesa seja farta,
Que essa casa seja santa, ai, ai


Que o perdão seja sagrado,
Que a fé seja infinita
Que o homem seja livre,
Que a justiça sobreviva, ai, ai


Assim como os três reis magos
Que seguiram a estrela guia
A bandeira segue em frente
Atrás de melhores dias
No estandarte vai escrito
Que ele voltará de novo
Que o rei será bendito
Ele nascerá do povo

sexta-feira, 9 de maio de 2008

o inacabado que há em mim





Pe. Fábio de Melo



Eu me experimento inacabado. Da obra, o rascunho. Do gesto, o que não termina. Sou como o rio em processo de vir a ser. A confluência de outras águas e o encontro com filhos de outras nascentes o tornam outro. O rio é a mistura de pequenos encontros. Eu sou feito de águas, muitas águas. Também recebo afluentes e com eles me transformo. O que sai de mim cada vez que amo? O que em mim acontece quando me deparo com a dor que não é minha, mas que pela força do olhar que me fita vem morar em mim? Eu me transformo em outros? Eu vivo para saber. O que do outro recebo leva tempo para ser decifrado. O que sei é que a vida me afeta com seu poder de vivência. Empurra-me para reações inusitadas, tão cheias de sentidos ocultos. Cultivo em mim o acúmulo de muitos mundos.

Por vezes o cansaço me faz querer parar. Sensação de que já vivi mais do que meu coração suporta. Os encontros são muitos; as pessoas também. As chegadas e partidas se misturam e confundem o coração. É nesta hora em que me pego alimentando sonhos de cotidianos estreitos, previsíveis.

Mas quando me enxergo na perspectiva de selar o passaporte e cancelar as saídas, eis que me aproximo de uma tristeza infértil.

Melhor mesmo é continuar na esperança confluências futuras. Viver para sorver os novos rios que virão. Eu sou inacabado. Preciso continuar.

Se a mim for concedido o direito de pausas repositoras, então já anuncio que eu continuo na vida. A trama de minha criatividade depende deste contraste, deste inacabado que há em mim. Um dia sou multidão; no outro sou solidão. Não quero ser multidão todo dia. Num dia experimento o frescor da amizade; no outro a febre que me faz querer ser só. Eu sou assim. Sem culpas.

avesso dos ponteiros

Ana Carolina


Sempre chega a hora da solidão
Sempre chega a hora de arrumar o armário
Sempre chega a hora do poeta a plêiade
Sempre chega a hora em que o camelo tem sede

O tempo passa e engraxa a gastura do sapato
Na pressa a gente nem nota que a Lua muda de formato
Pessoas passam por mim pra pegar o metrô
Confundo a vida ser um longa-metragem
O diretor segue seu destino de cortar as cenas
E o velho vai ficando fraco esvaziando os frascos
E já não vai mais ao cinema

Tudo passa e eu ainda ando pensando em você
Tudo passa e eu ainda ando pensando em você

Penso quando você partiu
Assim... sem olhar pra trás
Como um navio que vai ao longe
E já nem se lembra do cais
Os carros na minha frente vão indo
E eu nunca sei pra onde
Será que é lá que você se esconde?

Tudo passa e eu ainda ando pensando em você
Tudo passa e eu ainda ando pensando em você

A idade aponta na falha dos cabelos
Outro mês aponta na folha do calendário
As senhoras vão trocando o vestuário
As meninas viram a página do diário

O tempo faz tudo valer a pena
E nem o erro é desperdício
Tudo cresce e o início
Deixa de ser início
E vai chegando ao meio
Aí começo a pensar que nada tem fim...

quarta-feira, 7 de maio de 2008

eu posso viver sem você




"Eu posso viver sem você. Claro que posso. Posso ficar sem você, e não vou morrer se isso não acontecer. Tem gente que diz que amar alguém é não conseguir viver sem aquela pessoa. Morrer se ficar sem ela. Não concordo. Isso seria falta de escolha. Se você não consegue, mesmo se não amasse teria que ficar com a pessoa. Por isso, eu conseguiria ficar sem você e, como já disse, não morreria se você me deixasse. Não mesmo. Eu posso ficar sem você. Mas eu não quero. Eu continuaria a escrever, a trabalhar e tudo mais, mas com você, eu escrevo muito melhor, e trabalho com muito mais vontade e com humor. Eu continuaria vivendo, continuaria por aí, no mundo, pela vida. Mas com você minha vida seria muito melhor, e andar por aí no mundo seria muito menos doloroso e penoso, e pareceria um passeio de domingo."




trecho do texto Eu posso viver sem você, de Leonardo Luz

terça-feira, 6 de maio de 2008

seria...





"Eu não preciso de você nem pra andar e nem pra ser feliz, mas como seria bom andar e ser feliz ao seu lado"



Tati Bernardi

segunda-feira, 5 de maio de 2008

marque com X




Ailin Aleixo



Durante muito tempo acreditei que o que me fazia amar um homem era a inteligência. Ficava enfeitiçada com citações, elucubrações e teses. Mas não era. De nada adianta um perito em física nuclear, se ele não rir das pequenas besteiras que faz, se não souber aproveitar um sábado quente simplesmente não fazendo nada (e curtindo o ócio), se virar um psicopata quando alguém o fecha no trânsito. Então saquei: bom humor era o que mais me atraía.


Sempre achei delicioso estar com alguém que não vê o mundo como uma grande e monstruosa boca cheia de dentes prestes a mastigá-lo, que vive sem arrastar correntes, faz de tudo uma possível piada. Só que nem tudo é uma piada e, em certas horas, tudo o que quero é alguém que me escute e diga algo que me conforte a alma. E, nesses momentos, o pior que pode acontecer é ser levada na piada - existe uma grande diferença entre alegria de viver e recusa a sair da infância. Pois é, não era bom humor o que me fazia amar alguém: era, antes, sensibilidade.


Telefonemas de bom-dia, atenção a informações aparentemente banais mas que dizem muito a meu respeito, não ficar azedo e arredio por causa das minhas pequenas (ou grandes) oscilações de humor - tudo o que eu podia querer. Quase tudo. Tenho personalidade forte e só sobrevive ao meu lado um homem que grite comigo quando eu passar dos limites do bom senso, demonstre desagrado quando eu exigir demais e oferecer de menos. Preciso ser cuidada, mas tenho que sentir que quem está comigo é um homem de verdade e não um principezinho criado pela avó. Quero ser domada, tomada. Mais uma vez minha certeza caiu por terra: nem inteligência, bom humor ou sensibilidade eram o que me fazia amar alguém. Era - isso, sim - virilidade.


Mal abrir a porta da sala e ser consumida por beijos. Ter a roupa arrancada no caminho da cozinha, ser jogada na mesa de jantar sem tempo pra pensar no que está acontecendo, só sentir e saber o tesão incontido daquele homem por mim. Ser desejada com urgência e paixão é um dos maiores elogios que uma mulher pode receber, mas só ser desejada de nada adianta, pelo menos não depois da décima trepada monumental: quando acaba o suadouro, o que resta? Se pouco importa o saldo, o que interessa mesmo é a movimentação, então estamos feitos. Mas, se existe a possibilidade de ser esmagada pelo vazio de sentido após o orgasmo, de nada vale. Pelo menos se não vier acompanhada de carinho. Taí: pensei, então, que carinho era a pedra fundamental pra despertar meu amor.


Mas logo descobri que não era. Carinho é um sentimento abrangente demais: nos invade desde a visão de um cachorro abandonado até a palavra confortadora para alguém que pouco nos importa mas a quem também não queremos mal. Não bastava, era muito pouco. Daí constatei que o essencial para que eu amasse alguém era notar no outro a vontade de ficar, o desejo de estar comigo. Constatei coisas demais e fiquei paralisada diante do ideal que havia criado: absurdo e fictício.


Hoje, enfim, aprendi que toda enumeração é uma estupidez e qualquer tipo de formulário emocional, uma passagem sem escalas pra frustração. Claro que gosto de homens cultos, atenciosos, interessantes, divertidos e viris - seria mentira negar. Mas a verdade é que, para que eu ame alguém, basta que eu ame alguém. Porque, quando se precisa justificar o amor, é porque ele não existe. Simples assim.

sábado, 3 de maio de 2008

amor da minha vida




Maitê Proença




O amor da minha vida eu encontrei, tem nome, é de carne e osso, e me ama também. Agora falta encontrar alguém com quem possa me relacionar. É que o homem da minha vida não cabe em mim e eu não caibo nele. Não basta que a gente se queira há muitos anos. Não basta nossos namoros longos, os rompimentos e a teimosia de desejar mais daquilo que não há de ser. Não presta que ele me visite pra acabar com as saudades e fuja correndo de pernas bambas e um bumbo no peito. Não importa que eu esqueça meu nome depois, nem que me perca num oco, ou que os sentimentos corram de ambos os lados, intensos e desarvorados. Não basta que haja amor para se viver um amor. Eu e ele somos as cruzadas da idade média, o Osama e o Tio Sam, o preto e o branco da apartheid, o falcão e o lobo, o Feitiço de Áquila. Seus mistérios me perturbam e minha clareza o ofusca. Tenho fascínio pelo plutão que ele habita, e ele vive intrigado por minha vênus, mas quando eu falo vem, ele entende vai. Enquanto ele avista o mar eu olho pra montanha. Quando um se sente em paz o outro quer a guerra. É preciso me traduzir a cada centímetro do caminho enquanto ele explica que eu também não entendi nada. Discordamos sobre o tempo, o tamanho das ondas, a cor da cadeira. O desacerto é de lascar, e não há cama que resista a tantas reconciliações - um dia a cama cai.


Esta semana fui ver a Ópera do Malandro em cartaz no Rio de Janeiro. Se o Chico Buarque nunca mais tivesse feito outra coisa na vida, ainda assim teria de ser imortalizado pelas alturas em que transita sua poesia nesta obra. Como ando as voltas com assuntos de amor, prestei atenção na cafetina Vitória que, do alto de sua experiência, ensinava: O amor jamais foi um sonho, o amor, eu bem sei, já provei, é um veneno medonho. É por isso que se há de entender que o amor não é ócio, e compreender que o amor não é um vício, o amor é sacrifício, o amor é sacerdócio.


Mais adiante Terezinha, a heroína quase ingênua, sofria:


Oh pedaço de mim, oh metade arrancada de mim, leva o vulto teu, que a saudade é o revés de um parto, a saudade é arrumar o quarto do filho que já morreu. Leva o que há de ti, que a saudade dói latejada, é assim como uma fisgada no membro que já perdi.


Naquela noite, inspirada pelo Chico, voltei pra casa decidida - não quero mais o amor da minha vida ocupando o lugar de amor da minha vida. Venho portanto, pedir a ele publicamente, que libere a vaga. É com você mesmo que estou falando, você aí, que se instalou feito um posseiro dentro do meu coração, faça o favor de desinstalar-se. Xô. Há de haver um homem bom, me esperando em alguma esquina desse mundo. Um homem que aprecie o meu carinho, goste do meu jeito, fale a minha língua, e queira cuidar de mim. As qualidades podem até variar, mas aos interessados, se houver, vou avisando; existem defeitos que considero indispensáveis.


Meu amor tem de ter uns certos ciúmes, e reclamar quando eu precisar viajar pra longe. Pode se meter com minha roupa, com corte do cabelo, e achar que sou distraída e não sei dirigir. Quando ficar surpreso de eu ter chegado até aqui sem ele, afirmarei sem ironia, que foi mesmo por milagre. Este homem deve querer nosso lar impecável, com flores no jarro, e é imperativo que faça tromba quando não estiver assim. Ele irá me buscar no trabalho e levará direto pra casa, nada de madrugadas na rua! Desejo enfim que meu amor me reprima um pouco, e que me tolha as liberdades - esse vôo alucinante e sem rumo, anda me dando um cansaço danado.



Revista Época (2004)

sexta-feira, 2 de maio de 2008

tá perdoado



Maria Rita





Defumei o corredor
Perfumei o elevador
Prá tirar de vez o mal olhado
A saudade me esquentou
Consertei o ventilador
Pro teu corpo não ficar suado
Nessa onda de calor
Eu até peguei uma cor
Tô com o corpo todo bronzeado...




Seja do jeito que for
Eu te juro meu amor
Se quiser voltar
Tá Perdoado!...




Fui a pé a Salvador
De joelho ao Redentor
Prá ver nosso amor abençoado
Nosso lar se enfeitou
A esperança germinou
Ah! Tem muita flor
Prá todo lado
Prá curar a minha dor
Procurei um bom doutor
Me mandou beijar
Teu beijo mais molhado...




Seja do jeito que for
Eu te juro meu amor
Se quiser voltar
Tá Perdoado!...




E se voltar te dou café
Preliminar com cafuné
Prá deixar teu dia mais gostoso
Pode almoçar o que quiser
E repetir, te dou colher
Faz aquele jeito carinhoso
Deixa pintar o entardecer
E o sol brincar de se esconder
Tarde e chuva eu fico mais fogosa
E vá ficando pro jantar
Tu vai ver só, pode esperar
Que a noite será maravilhosa
Yeh! Yeh! Yeh!...




Fui a pé a salvador
De joelho ao redentor
Prá ver nosso amor abençoado
Nosso lar se enfeitou
A esperança germinou
Ah! Tem muita flor
Prá todo lado
Prá curar a minha dor
Procurei um bom doutor
Me mandou beijar
Teu beijo mais molhado
Yeh! Yeh! Yeh!...




Seja do jeito que for
Eu te juro meu amor
Se quiser voltar
Tá Perdoado!...




E se voltar te dou café
Preliminar com cafuné
Prá deixar teu dia mais gostoso
Pode almoçar o que quiser
E repetir, te dou colher
Faz aquele jeito carinhoso
Deixa pintar o entardecer
E o sol brincar de se esconder
Tarde e chuva eu fico mais fogosa
E vá ficando pro jantar
Tu vai ver só, pode esperar
Que a noite será maravilhosa...




Pode almoçar o que quiser
E repetir, te dou colher
Faz aquele jeito carinhoso
E vá ficando pro jantar
Tu vai ver só, pode esperar
Que a noite será maravilhosa...

quinta-feira, 1 de maio de 2008

primeiro de maio




Luiz Fernando Veríssimo



Frases que nunca mais ouviremos: "Madame, sua liteira chegou", "Quem será o center-forward do scratch?" e "Trabalhadores do mundo, uni-vos". Os trabalhadores do mundo são vítimas da globalização perversa que aboliu as fronteiras para empregadores atrás de mão-de-obra barata e desregulada, mas não para eles. Trabalhadores do mundo rico são prisioneiros das vantagens que conquistaram, que os impedem de competir com os trabalhadores do mundo pobre. Estes não podem ser solidários com suas reivindicações de tarifas altas para proteger seus empregos pois perderiam os seus. Nenhuma solidariedade proletária é possível num mundo em que o capital vai atrás do lucro onde quiser e o único internacionalismo permitido ao trabalho é a migração ilegal e o tráfego tétrico de empregos exportados cruzando com desemprego importado.

Economistas neoclássicos dizem que o exercício continuado do livre comércio dará razão ao ur-clássico David Ricardo, que no século XVIII teorizou que estados nacionais explorando suas respectivas vantagens em recursos naturais, capacidade industrial e mão-de-obra acabariam se complementando e todos ganhariam com isto, inclusive os trabalhadores, no melhor de todos os modelos econômicos possíveis. Mas o Ricardão tinha outra teoria, que chamava de "a lei férrea dos salários". Para ele, mesmo no melhor dos mundos teóricos, os salários tenderiam a se estabilizar ao nível da subexistência mínima, já que o trabalho é um recurso universalmente disponível e infinitamente substituível.

A organização do trabalho a partir do século XIX e o crescimento dos sindicatos pareciam desmentir esse fatalismo de Ricardo, pois os trabalhadores aos poucos deixaram de ser o lado indefeso do modelo ideal. A legislação social, em maior ou menor grau, nos países industrializados - ou em países como o Brasil, em que a legislação precedeu a industrialização - prevenia a teoria de Ricardo, pelo menos em teoria, e as condições para a confirmação da sua lei férrea. A globalização restaurou estas condições. O trabalho organizado perde a sua força até em países como a França e a Alemanha, onde sindicatos e movimentos sociais sempre tiveram grande participação política, e a receita para "responsabilidade" econômica passa pela flexibilização de leis trabalhistas e outros eufemismos para roubar do trabalho o seu poder de barganha. Trabalhadores do mundo inteiro hoje não têm nada a perder a não ser uns duzentos anos de luta, mais ou menos. O pensamento de David Ricardo estava tristemente certo. Só foi um pouco prematuro.

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