quarta-feira, 30 de abril de 2008

onde você mora?





"Não quero estar de fora
Aonde está você?
Eu tive que ir embora
Mesmo querendo ficar
Agora eu sei


Eu sei que eu fui embora
Agora eu quero você
De volta pra mim


Amor igual ao teu
Eu nunca mais terei


Amor que eu nunca vi igual
Que eu nunca mais, nunca mais terei..."



trecho da música Onde você mora?, do Cidade Negra

terça-feira, 29 de abril de 2008

sem sentido




"O insuportável não é só a dor, mas a falta de sentido da dor, mais ainda, a dor da falta de sentido".



Oswaldo Giacoia Jr

segunda-feira, 28 de abril de 2008

a dor da falta de sentido




"Cidadania é merecimento. Surgiu na miséria do país uma raça de subumanos, sub-bichos que todos os dias degolam, esquartejam, botam no "microondas", e são "cidadãos" - "tão ligados?" Qual será o nome dessa coisa informe que a miséria está gerando? É uma mistura de lixo e sangue, uma nova língua de grunhidos, mais além da maldade, uma pura explosão de vingança. Não se trata mais de uma perversão do "humano", mas de uma perversão do "animal" em nós."






trecho de Caso Isabella: a dor da falta de sentido, de Arnaldo Jabor, publicado no jornal O Globo.

domingo, 27 de abril de 2008

quase tudo




"Tenho várias caras. Uma é quase bonita, outra é quase feia. Sou um o quê? Um quase tudo".




Clarice Lispector

sábado, 26 de abril de 2008

dança do créu



MC Créu



É creu!
É créu neles!
É creu!
É créu nelas!
Vamo bora, vamo que vamo!
Vamo bora, vamo que vamo!



Pra dançar créu tem que ter disposição
Pra dançar créu tem que ter habilidade
Pois essa dança, ela não é mole não
Eu venho te lembrar, são cinco velocidades



Pra dançar créu tem que ter disposição.
Pra dançar créu tem que ter habilidade.
Eu venho te lembrar, que ela não é mole não.
Eu venho te falar, que são cinco velocidades.



A primeira é devagarzinho, só o aprendizado...


Número 2!
Créu, créu, créu, créu, créu, créu


Numero 3!
Créu, créu, créu, créu...


Agora eu quero ver a 4!
Créu, créu, créu, créu


Vou confessar a vocêsQue eu não consigo a número 5
DJ! Velocidade cinco na dança do créu!!
Créu-Créu-Créu-Créu-Créu-Créu-Créu-Créu

texto curto, sim!




Thaty Hamada



Não seja corajoso em me encarar. Não me toque, não me note, deixe-me no silêncio abafado e resmungão. Não faça movimentos bruscos, meu reflexo está sensível a qualquer pensamento. Há dois dias não durmo direito, não como, não sambo, não me obedeço. Se obedecesse metade do mundo estaria machucado. Cale-se e siga seu caminho, deixe-me agoniar a minha raiva injustificada e o meu desejo de fugir de mim. Nem meu espelho me reconhece e quero tanto passar despercebida que meus ouvidos estão lacrados. É um mau-humor incalculável, curável e passageiro, porém intenso. Apenas não me diga o que fazer, o que ler, o que falar. Deixe-me entre minhas sobrancelhas, vá e não olhe pra trás, senão um copo voará.

Deixe-me.

quinta-feira, 24 de abril de 2008

tempo de transcendência





Leonardo Boff


O que é anterior e o que subjaz às expressões imanência-transcendência? É a experiência do próprio ser humano como um ser histórico, um ser que está se fazendo continuamente. É o que chamamos de experiência originária. Quando falamos filosoficamente em existência, dizemos: ex-istência. Estamos sempre nos projetando para fora (ex), construindo nosso ser. Nós não o ganhamos pronto. Nós o moldamos mediante a nossa liberdade, mediante os enfrentamentos e intimidações do real. Ao reagir, assumir, rejeitar e modelar, vamos construindo a nossa ex-istëncia. O ser humano é um ser nunca pronto, por isso não há antropologia, há antropogênese, que é a gênese do ser humano. Nessa experiência emerge aquilo que somos, seres de imanência e de transcendência, como dimensões de um único ser humano. Imanência e transcendência não são aspectos inteiramente distintos, mas dimensões de uma única realidade que somos nós.


Então, a afirmação de base de uma atitude radicalmente filosofante, que procura ver atrás das coisas, detecta aquele motor secreto que faz nascer tudo e que move o surgimento das projeções: a própria ex-istëncia humana sempre em aberto, sempre se construindo.


Usando uma metáfora, eu diria que somos seres de enraizamento e seres de abertura. Primeiramente nos sentimos seres enraizados. Temos raiz, como uma árvore. E a raiz nos limita, porque nascemos numa determinada família, numa língua específica, com um capital limitado de inteligência, de afetividade, de amorosidade. Ademais, temos a dimensão sã e também a dimensão patológica. Porque não somos só homo sapiens sapiens. Somos hoje, fundamentalmente, homo demens, duplamente demens, coisa esquecida na modernidade iluminista. Hoje somos dementes, em grau supremo. É a nossa situação. É o nosso arranjo existencial. Eis nosso enraizamento, nossa imanência.


Mas somos simultaneamente seres de abertura. Ninguém segura os pensamentos, ninguém amarra as emoções. Elas podem nos levar longe no universo. Podem estar na pessoa amada, podem estar no coração de Deus. Rompemos tudo, ninguém nos aprisiona. Mesmo que os escravos sejam mantidos nos calabouços e obrigados a cantar hinos à liberdade, são livres, porque sempre nasceram livres, e sua essência está na liberdade.


Então, possuímos essa dimensão de abertura, de romper barreiras, de superar interditos, de ir para além de todos os limites. É isso que chamamos de transcendência. Essa é uma estrutura de base do ser humano.

quarta-feira, 23 de abril de 2008

terça-feira, 22 de abril de 2008

Perdição de linha




Maitê Proença




Aos 13 anos me encantei por um rapaz de 17. Lá pelas tantas, dividida entre o bombardeio hormonal que se detonava em meu corpo e as regras do bom comportamento, resolvi perguntar a meu pai se já podia dar beijo de língua. Foram minhas últimas palavras, no dia seguinte fui embarcada num avião rumo à França para permanecer quatro longos meses distante do beijador potencial que ameaçava-me a integridade. Mal sabia meu pai que era justamente nas lonjuras daquele país que sua criança descobriria, irreversivelmente, a diferença entre uma jujuba e um bom french kiss.


Pois agora é minha vez.


Minha filha de 13 anos está no auge da puberdade. Maria não me pergunta o que pode fazer com as vontades que tem, mas, ao contrário de mim, percebo que enxerga bem os limites entre o desejo e a velocidade com que deve desabrochar nesse princípio de tudo. Acontece que o pode-não-pode mudou um bocado dos meus 13 pros dela, e beijo na boca hoje é normal até em mais de um na mesma festa - tanto e tão abertamente que existe até nome pra isso. Fica-se com um, com dois, com dez. Confesso que já achei o hábito estranho - será que a geração de minha filha eliminou o sentimento de posse, os ciúmes, a paixão ao primeiro beijo, e tudo ficou de repente livre, solto, e frio? Quando foi que as fronteiras cederam assim?


Nunca!


Numa pesquisa caseira, percebi que os códigos são bem menos frouxos do que parecem e que as regras continuam rígidas e até mais parecidas com as de outrora do que seria desejável. Ou seja, o mundo girou e girou e foi parar nos mesmos dois pesos e duas medidas, em que meninos podem tudo, e as-meninas-que-se-comportem.


Simplificando a coisa, é mais ou menos assim:


Se você for menino e ficar com sete garotas na mesma noite, seus amigos dirão que tu pegou geral, e que tu é farpa e espada, entre outros adjetivos enaltecedores. Já a menina, se ficar quietinha com um, tudo bem, se ficar com dois, começam os comentários, mas, se beijar três, acabou - é perdição de linha, piranhice e galinhagem. Outra coisa, o menino que passa meses sem pegar ninguém (existe termo mais abominável?) é um liso. Ele pode inclusive ser farpa, mas estar liso naquele momento. Um farpa, mesmo que circunstancialmente liso será sempre farpa porque conquistou seu posto com múltiplas demonstrações de exibicionismo testosterônico. Já a menina, que não deve nunca ficar com muitos, também não pode ficar sem ninguém - quando acontece, ela passa rapidamente de desejável a encalhada. E ainda o menino que dá em cima de todo mundo é um singelo arroz, mas a menina que faz o mesmo continua sendo a velha galinha de sempre. A lista de nomes tem algumas novidades, mas, de maneira geral, garotos permanecem os bravos garanhões de sempre, enquanto as garotas se revezam entre o peixinho agressivo e a burríssima ave.


Pois eu estive aqui pensando... Todo homem que se vê por aí saiu de uma barriga feminina, e este milagre cotidiano de saber fazer filhos, de certa forma, dá à mulher uma dimensão divina. Além disso, os atributos que a natureza associou ao dom ainda ampliam sua complexidade - meninas já vêm do ventre com intuição apurada, com facilidade introspectiva e com uma forte tendência ao amor incondicional. Tenho a impressão de que isso tudo deixa os rapazes atordoados e que, não dando conta do tamanho das entidades que os atraem, preferem lidar conosco por partes. Por isso, eles nos retalham em palavras depreciativas, não conseguem relacionar-se com a mulher-substantivo, então nos reduzem a um adjetivozinho qualquer.


Mas nós, que os amamos acima de tudo, sublimamos a falta de jeito e, conformadas, percorremos e percorreremos gerações lambendo infinitamente a frágil virilidade de nossos apolos.


Que assim seja.

segunda-feira, 21 de abril de 2008

ah, brasília!




"O céu é o mar de Brasília"


Lúcio Costa

domingo, 20 de abril de 2008

...?




"Fi-lo porque qui-lo".


Jânio Quadros

sábado, 19 de abril de 2008

durante a vida




"Conhecemos pessoas que vem e que ficam,
Outras que, vem e passam.
Existem aquelas que,
Vem, ficam e depois de algum tempo se vão.
Mas existem aquelas que vem e se vão com uma enorme vontade de ficar..."



Charles Chaplin

sexta-feira, 18 de abril de 2008

como é o seu nome?








Um título. Taí coisinha difícil de se conseguir, seja para o que for – teatro, livro, cinema, programa de rádio, um quadro que se pintou…



(...)



Houve um tempo em que eu tinha uma grande preocupação, na hora de encontrar um titulo, depois deixei isto para lá, vendo o sucesso conseguido por um livro chamado “A insustentável leveza do ser”. Ora. O que o ser produz de leveza insustentável, é o pum. Depois deste título dar certo, qualquer um dará.


Se antes eu procurava defeitos nos títulos em português, comparando-os com o original em inglês, agora já não ligo a menor importância. Que cada um batize como bem quiser.




trechos do texto Como é o seu nome?, de Chico Anysio

quinta-feira, 17 de abril de 2008

quanto mais...




"Alma quanto mais a gente dá, mais a gente tem".



Tati Bernardi

quarta-feira, 16 de abril de 2008

A menina que roubava livros III




UMA DEFINIÇÃO NÃO ENCONTRADA NO DICIONÁRIO
Não ir embora: ato de confiança e amor,
comumente decifrado pelas crianças



trecho do livro A menina que roubava livros, de Markus Zusak

terça-feira, 15 de abril de 2008

Só os feios salvam





Xico Sá



"Por que ser feio é mais interessante? Ora, a beleza é passageira; a feiúra é para sempre" (Serge Gainsbourg)




Como dizem aqueles cartazes de estádio de futebol em finais de campeonatos, todo regozijo, toda poesia, todo triunfo e prosa: Eu já sabia!


Repare, amigo, no que disse o informe da BBC de Londres, rádio de confiança que ouvia há séculos com meu avó João Patriolino lá no sítio das Cobras, Santana do Cariri, ali entre Nova Olinda e Assaré, na confluência do Ceará, Pernambuco e Piauí, música ao longe entre uma rasga-mortalha e outra a ranger nas telhas dos mal-assombros possíveis do museu de almas e botijas:


“Mulheres casadas com homens feios são mais felizes!!!”


Ponham exclamação nisso, colegas tipógrafos ai nas oficinas dos velhos jornais e almanaques da vida, no tempo em que os gráficos tocavam fogo no mundo e paravam tudo, no tempo em que Manoel Caboclo e Silva fazia o seu lunário “O Juízo do Ano”, rua de Todos os Santos, Juazeiro, salve, salve meu vizinho e suas nuvens brancas sobre a caixola.


Ponham aspas nisso, tipógrafos da modernidade: "Mulheres casadas com homens feios são mais felizes!"


Feio o quê, caras pálidas de maquiagem! Perguntem às crias das nossas costelas ou às nossas mães mais lindas ainda lá nos seus sagrados cantinhos e altares!Mulheres casadas com homens feios são mais felizes. Isso mesmo. Releia, acredite, repita comigo a manchete da semana. É a ciência comprovando a tese dos mal-diagramados pela mãe natureza.


É o que diz o informe da BBC, agora transmitindo apenas no mundo virtual e interneteiro, que pobreza, aquela emissora que me fez ouvir, no meio da Serra do Araripe, a linda “Hey Jude”, The Beatles, pela primeira vez, que coisa. Mas bora ao que interessa nessa crônica, chega de nostalgia, rapaz, a vida segue, a vida é bronca permanente como a revolução de Mao Tsé-Tung, eita que agora o homem comunistou-se de vez!


"Os homens mais bonitos que suas parceiras demonstraram tendência a oferecer menos apoio emocional e prático às suas mulheres", avaliou o professor James McNulty, que coordenou o estudo. "Homens mais bonitos têm à disposição mais possibilidades de relacionamentos de curto prazo, o que os torna menos satisfeitos e comprometidos com o relacionamento."


Si, Pedro Bó, ri, macaco darwinista!


É o que dizem os pesquisadores da tal notícia.


Mal-diagramado que só vendo, eu não digo é mais nada, sob pena de parecer exaltada e panfletária defesa corporativa dos feios do mundo, uni-vos.Os lindos são muito mal-resolvidos. Acostumaram achar que a vida é uma luta de boxe que sempre vencem por nocaute.


Os feios são mais devotos e amorosos. Passam a vida vencendo apenas por pontos. E passarão, gracias.


Os mal-diagramados sempre tiveram que minar as resistências, gastar o latim de todas as missas, cozinhar os juízos, priquitins molhados de sertões difíceis de chuvas, desertos semi-áridos que se águam com muita prosa, governo em ano bom ou língua.


Faz todo sentido do universo essa pesquisa do triunfo dos mal-amanhados de nascença. Mas só faz porque é a favor da nossa feiosa causa. O resto é o olho de quem vê contra o coração de mãe ou de outras raparigas que, por ventura e sorte, nos amam em nos acham definitivos galãs e Alains Dellons do Crato. Ao cronista, amigo, só resta pingar o ponto final sobre todas as suspeitas anteriores. E pronto.

segunda-feira, 14 de abril de 2008

sentido nos sons...




"A música pode ser amarga, jamais pode ser cínica".



Dimitri Shostakovich

domingo, 13 de abril de 2008

mais que amigas, irmãs!




Irmãs de alma e coração. Nascemos para dividir cada experiência do dia a dia. Companheiras nas farras, nas guerras, tempestades e alegrias. Tão próximas que até os gestos, gostos e manias se confundem. Palavras tornam-se desnecessárias, pois só de olhar nos compreendemos.
Porque amizade não se explica, ela simplesmente existe!

sábado, 12 de abril de 2008

considerações...




"O sábio fez considerações sobre a voluptuosidade. Ela é sempre enganadora. Debaixo do sorriso luminoso está o dente cariado. Dos beijos humanos só resta o amargor. Quando o corpo se extasia, a alma entristece."



trecho do livro A Relíquia, de Eça de Queiros

sexta-feira, 11 de abril de 2008

O valor das miudezas




Pe. Fábio de Melo




Quase tudo vem de quase nada, começa com pequenos gestos, avança em pequenos passos. É preciso ver o valor dessas pequenas ações, pois são elas que enchem o nosso dia-a-dia e podem fazer a diferença no amanhã de todos nós.





O coração anda no compasso que pode. Amores não sabem esperar o dia amanhecer. O exemplo é simples. O filho que chora tem a certeza que a mãe velará seu sono. A vida é pequena, mas tão grande nesses espaços que aos cuidados pertencem. Joelhos esfolados são representações das dores do mundo. A mãe sabe disso. O filho, não. Aprenderá mais tarde, quando, pela força do tempo que nos leva, precisará cuidar dos joelhos dos filhos que ele trará ao mundo. O ciclo da história nos direciona para que não nos percamos das funções. São as regras da vida. E o melhor é obedecê-las.

Tenho pensado muito no valor dos pequenos gestos e suas repercussões. Não há mágica que possa nos salvar do absurdo. O jeito é descobrir essa migalha de vida que sob as realidades insiste em permanecer. São exercícios simples... Retire a poeira de um móvel, e o mundo ficará mais limpo por causa de você. É sensato pensar assim. O mundo é pequeno, quando visto de perto. Só assim somos salvos desta sensação de impotência que tantas vezes nos assalta as esperanças. Diante da grandeza do mundo há sempre o risco de que a gente se esconda e se justifique. Por isso é importante que a gente veja o mundo em sua fração primeira, naquilo que está mais perto de nós.


Olhar os necessitados que estão ao nosso lado, acolhê-los, é um jeito interessante de diminuir as tragédias humanas. Cada um cuidará do que pode. E todo mundo pode fazer alguma coisa. Sempre há um jeito de poder. Basta que olhemos devagar para a vida e suas cirandas.



Na curva de cada chegada e destino, há sempre um espaço para uma gentileza. Não importa o tamanho dela. Gentileza será sempre bem vinda, bem acolhida. Um sorriso que aproxima, um aceno cordial, e a corrente do bem ganhará mais um elo. É assim. Sempre será assim. O gesto particular repercute no todo. É a ordem das coisas. Uma gota de água e toda a bacia recebe seu movimento. Uma centelha de fogo e toda a fogueira será acesa. A vida e suas miudezas capazes de mudarem os rumos. É o mistério que não se esgota. O caminho que não termina.



Eu quero um rumo novo. Queira também. Grandes mudanças são gestadas em quereres miúdos. É assim que a transformação acontece. O risco é iminente. Há desesperanças demais esparramadas pelas calçadas do mundo. O desafio é que elas não grudem nos pés. A estrada é longa. Por vezes tortuosa. Não importa. Há sempre um motivo pra continuar. Até o fim. Mesmo que não haja fim. Sempe.

quinta-feira, 10 de abril de 2008

Comoção pela morte de Isabella




Hoje, quarta-feira, quando acabo essa coluna, não conhecemos os eventos que levaram à morte de Isabella Nardoni, só sabemos que a menina, de cinco anos, foi assassinada, intencionalmente ou não, enquanto estava na custódia do pai de da madrasta. E conhecemos um pouco da história da família: a mãe e o pai de Isabella nao chegaram a se juntar - foi um romance adolescente que acabou antes de Isabella nascer. O pai tem dois filhos pequenos com sua mulher atual.


É uma situação trivial: a pensão mensal, as visitas, o padrasto ou a madrasta, os meio-irmãos etc. Mas a banalidade dessa situação não deveria disfarçar o emaranhado de afetos dolorosos que ela produz - afetos que muitos vivem e que todos preferimos esquecer.


Não sei se esses afetos são responsáveis pela morte de Isabella. Mas talvez eles sejam responsáveis pela extraordinária comoção produzida pela sua morte. Como assim?


A morte violenta de uma criança nos fere a todos: é como se, ao mesmo tempo, alguém nos arrancasse um pedaço de nosso próprio futuro e destruísse a fantasia nostálgica da infância, que sempre cultivamos, mesmo que o primeiro período de nossa vida tenha sido infeliz.


Mas a história de Isabella nos comove também por outra razão: as tentativas de "explicar" o acontecido evocam, inevitavelmente, as dificuldades de nossa maneira "moderna" de casar.
São dificuldades nas quais, em geral, preferimos evitar de pensar.


É comum que o marido ou a mulher (às vezes, ambos) levem para o casamento filhos que são fruto de uma relação anterior. Espera-se que isso aconteça sem complicação: afinal, se descasamos e casamos por amor, por que o mesmo amor não reinaria pelo lar todo? Pois é, o amor é uma coisa complicada. Exemplos.


A rivalidade, que sempre existe entre irmãos, vinga entre enteados e meio-irmãos. E vinga redobrada, justamente por ser mais inconfessável do que a rivalidade entre irmãos - por ser silenciosa, reprimida pelo esforço geral de compor uma nova família ideal, em que todos os integrantes se amariam.


Na nova família, à primeira vista, o homem convive com seus enteados melhor do que a mulher. Não é nenhum milagre do "instinto" parteno: o homem encontra uma satisfação narcisista no exercício da paternidade. Ele, aliás, curte ser e se sentir amado por suas qualidades "paternas". Para ele, saber ser pai de filhos e enteados faz parte de uma virilidade que ele quer que seja reconhecida e festejada pela mulher.


Mas cuidado: a encenação da paternidade, embora às vezes espalhafatosa, não resiste à pressão da culpa de dar para seus filhos de sangue menos do que para seus enteados. Essa culpa, envergonhada e reprimida, é inevitável, porque há uma coisa que o homem, na grande maioria dos casos, dá mais aos entiados do que aos filhos: a sua própria presença no lar.


A mulher, ao contrário, vive quase uma rivalidade dramática com seus enteados: compete com eles como se ela dosse mais uma filha. Para a mulher, o enteado ou a enteada não usurpam o lugar dos gilhos que ela trouxe de um casamento anterior, nem o lugar dos filhos que nasceram no novo casamento: eles ameaçaram usurpar o próprio lugar dela. Essa rivalidade, escondida, expressa-se de maneiras travessas: por exemplo, numa crítica assídua das manifestações do afeto paterno do homem para com o filho ou a filha dele. Ou seja, para não admitir um ciúme envergonhado do enteado, a mulher cesura o "excesso" dos sentimentos paternos do marido. Esse, criticado como pai, sente-se diminuido como homem. O desastre está às portas.


São apenas exemplos. O casamento "moderno" é um nó de afetos reprimidos, uma conveniência explosiva que aposta no amor do casal como se fosse remédio para todos os males.


Contardo Calligaris
Folha de São Paulo

cartas que escrevi



"Considero minhas obras como cartas que escrevi à posteridade sem esperar resposta."

Heitor Villa-Lobos

quarta-feira, 9 de abril de 2008

Caipira não, meu





Tati Bernardi



Carioca tem mania de achar que paulista é caipira. Sempre achei tal afirmativa um absurdo até me mudar para o Rio. Descobri que eles estão certos. Sou a maior prova viva da caipirice paulistana, para comprovar basta me ver passeando pelo calçadão.


Não estou me referindo a minha cor branca ou ao medo que tenho de andar solta numa cidade que não é exatamente a minha. Esses dois estágios estão mais do que superados. Ganhei um pouco de cor e uma certa malandragem para conviver na cidade de cidades misturadas. Preconceitos acalmados, confesso que começo até a gostar dessa vida.


O que estou querendo dizer é que é impossível não ser caipira quando se vê um artista a cada cinco passos. O tempo todo meu cérebro, deslumbrado, avisa: olha lá o barrigão da Camila Pitanga. Olha lá o Wagner Moura de mochila. Olha lá a Marília Gabriela saindo do aeroporto.


Não tem jeito. Arregalo os olhos. Se for mulher reparo logo na bunda, pois fico achando que estrela jamais pode ter uma bunda ruim. E se for gatinho reparo na roupa. Eu sei que deveria ser o contrário, mas antes de ser caipira eu sou estranha, vocês bem sabem.


Quase dou uma de chata sem noção e puxo um papo. Sabia, Marília, que eu tenho um livro publicado e coisa e tal e meu sonho é falar minha frase, meu verso ou o meu ditado de preferência no seu programa? Decoro esse momento no banho todos os dias.


Sabia, Capitão Nascimento, que eu quase tive um orgasmo no cinema quando você gritou “vai ficar todo mundo quietinho aí”. E você, Bebel, sabia que animava, milagrosamente, as minhas noites numa fase que eu andava achando tudo um porre?


Mas não, controlo meus impulsos mais suburbanos e passo reto. Blasé. Como se tivesse cruzado com alguém tão insignificante quanto eu. Caguei pros famosos. Caguei. Meu mais novo mantra para não ser caipira no Rio de Janeiro é “caguei pros famosos”.


Mas a coisa não é tão fácil assim. Escapar de cinco ou seis famosos por dia no calçadão é moleza, difícil é trabalhar no Projac. Imaginem uma praça de alimentação inteira com todas as estrelas da novela das 8. E você lá, sem poder fazer ou falar nada. Sem poder cutucar alguém e falar “a Aline Moraes consegue ser ainda mais bonita na vida real”, tendo que se concentrar em um cardápio com massas e saladas ruins. Sim, a praça de alimentação do Projac é horrível, dá pra acreditar?


Gianecchini de um lado, Alexandre Borges do outro e ele, sim, ele, o maravilhoso Marcos Palmeira. E você calmamente corta seu franguinho grelhado. Fingindo cagar horrores pra essa gente maravilhosa, talentosa, bonita e famosa que, afinal de contas, trabalha no mesmo lugar que você.


Com a diferença que eles são estrelas conhecidas e admiradas no pais inteiro e você apenas uma escritorazinha baba ovo contando grana pra não fechar o mês no vermelho.


Parece uma vida de glamour mas na verdade é puro sofrimento. Se eu fosse brega ou ridícula, soltava logo um grito no meio da praça de alimentação “fudeoooo, puta queu pariu quanta gente famosa poooorra”. Pronto. Soltava o grito. Tirava de dentro do meu peito essa angústia e acabava logo com isso.


Algum segurança me expulsaria da praça de alimentação. E então, da rua, eu ligaria pra todo mundo que eu conheço no mundo, inclusive aquelas amigas que eu não encontro desde o Jardim 3, e contaria artista por artista que vi.


Mentindo alguns só pra dar mais emoção.


Mas não, eu sou a nova roteirista bacaninha, escritora, loirinha, de São Paulo. Eu sou obrigada a entrar e sair blasé da porra da praça de alimentação. Eu sou obrigada a manter a pose e até mesmo um certo “caguei pra esse povo” em meu andar, na minha fala, nos meus olhos.


E eu estava me saindo muito bem, não fosse o incidente da tarde de hoje. Depois de meses de bom comportamento, tudo foi por água abaixo. A caipirice falou mais alto quando encontrei o Marcelo na praia, o psiquiatra psicopata do BBB8. Já que eu não posso gritar para os famosos de verdade, por que não desopilar a alma com um famoso de mentira?


Gritei “Marceeeeeloooooo uhuuuuu” e ele respondeu “oi queridaaaaaaaaa uhhuuuu”. E esse foi, nos últimos meses de Rio de Janeiro, o momento mais brega, mais caipira e mais ridículo que passei. E de longe o mais divertido também.

terça-feira, 8 de abril de 2008

os ombros suportam o mundo




Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.


Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se, mas na sombra teus olhos resplandescem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.


Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios provam apenas que a vida prossegue e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo, prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.



Carlos Drummond de Andrade

segunda-feira, 7 de abril de 2008

A menina que roubava livros II





UMA PEQUENA TEORIA
As pessoas só observam as cores do dia no começo e no fim,
mas, para mim, está muito claro que o dia se funde através de
uma multidão de matizes e entonações, a cada momento que passa.
Uma só hora pode consistir em milhares de cores diferentes.
Amarelos céreos, azuis borrifados de nuvens. Escuridões enevoadas.
No meu ramo de atividade, faço questão de notá-los".


trecho do livro A menina que roubava livros, de Markus Zusak

domingo, 6 de abril de 2008

A menina que roubava livros I





"EIS UM PEQUENO FATO
Você vai morrer."



trecho do livro A menina que roubava livros, de Markus Zusak

sexta-feira, 4 de abril de 2008

eficácia total





"Eficácia total, entretanto, eficácia diante da qual devemos nos declinar - aquela que é realmente o grande feito que nós, brasileiros, podemos ostentar diante do mundo como único - é a façanha educacional da nossa classe dominante. Essa é realmente extraordinária! E por isso é que eu nao concordo com aqueles que, olhando a educação desde outra perspectiva, falam de fracasso brasileiro no esforço para universalizar o ensino. Eu acho que não houve fracasso algum nessa matéria, mesmo porque o principal requisito de sobrevivência e de hegemonia da classe dominante que temos era precisamente manter o povo chucro."



Darci Ribeiro

quinta-feira, 3 de abril de 2008

crua





"Acredito em mudanças, mas não acredito em nada repentino. Não acredito em acaso, mas o uso como desculpa às vezes. Meu armário é uma zona, mas meu quarto é arrumado. Antes eu achava que quem escondia as bagunças tinha muita bagunça escondida dentro de si. Descobri que eu exponho a minha bagunça interior e esse é meu charme. Sou mais feliz hoje."



trecho do texto Crua, de Tha Basile
Extraído do blog Chá de Tharântulas

quarta-feira, 2 de abril de 2008

é preciso lutar?




"Com estupidez e boa digestão o homem pode enfrentar tudo."



Thomas Carlyle

terça-feira, 1 de abril de 2008

engana-se




"Em tempos ruins, é mais consolador pensar que tudo não passa de mais uma mentira, absurdamente tratada como verdade, e logo vai passar!"



Thayze Darnieri

Pop