quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

vida: uma história!




“Você tem que fazer a sua história para influir no seu destino.”


Brecht

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

Cem anos de solidão I




"Embora alguns homens levianos de palavra sentissem prazer em dizer que bem valia a pena sacrificar a vida por uma noite de amor com tão pertubadora mulher, a verdade é que nenhum se esforçou para consegui-lo. Talvez, não só para vencê-la como também para afastar os seus perigos, bastasse um sentimento tão primitivo e simples como o amor, mas isso foi a única coisa que não ocorreu a ninguém."



trecho do livro Cem anos de solidão, de Gabriel García Márquez

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

estrelas



Pedro Neschling


Deitei na areia bem pertinho do mar. Pelo barulho eu sabia que as ondas quase encostavam nos meus pés. A noite estava fria, com uma brisa gelada que sublinhava a luz da lua, minguante, no céu limpo e claro. Eu olhava as estrelas, meu corpo tremia, e eu sabia que não era só de frio.
Me sentia só, aquela solidão que parece nunca ter tido outra maior. Minha única companhia era a garrafa de vinho aberta na minha mão. Percebi então que, no meio de todas, uma estrela brilhava mais do que as outras e, naquele brilho, veio a lembrança de tudo que senti quando pela primeira vez me perdi no seu olhar. Por dentro doeu ainda mais.
O vinho doce, ao invés de me ajudar a esquecer, descia pela garganta e eu sentia o gosto do seu beijo, ora suave, ora voraz, que eu nunca me enjoava. E com raiva, eu me perguntava, do que adiantava ler poesias pra enganar sobre o amor? Dizer palavras bonitas num sórdido jogo de fingir se entregar? Lembrava da sua cara sincera quando me contava que tinha medo do que nosso encontro despertou, que me queria, que entre nós jamais haveria mentiras.
Tá bom...
Um calafrio me subiu pela espinha, e a essa altura já nem sabia mais se uma onda havia me molhado, se a areia entrou pela minha roupa, se era só a tristeza. Meus músculos se contraíram e eu tive vontade de gritar, apesar de não ter força pra isso. Quando se chora deitado, as lágrimas não escorrem para a boca, mas eu sentia seu gosto salgado mesmo assim.
E desse jeito a noite passou. Sem eu me mexer.
Enquanto o dia começava a clarear, minha estrela brilhante desaparecia. Nesse momento, comecei a lembrar que quando vemos uma estrela, na verdade, ela já desapareceu no espaço. Que o que vemos é a sua luz atrasada, perdida no tempo. Que a linda estrela já não existe mais. E naquele momento, cruelmente, aquilo me alegrou.
Até que, de repente, o sol brilhava forte. Iluminando um novo dia. Deixando claro que a vida ia continuar.
Levantei e fui embora.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

eu amo meu passado...




"Eu amo meu passado, eu amo meu presente. Eu não tenho vergonha do que tive e não sinto tristeza pelo que não tenho mais."



Sidonie Gabrielle Colette

domingo, 27 de janeiro de 2008

orgulho pra viver!




"Nem sempre a vida é com a gente quer, mas como pode ser. O desafio é buscar o equilíbrio entre as possibilidades e limites para que o crescimento aconteça. Choros e lamentações não combinam com pessoas que querem vencer. Se não pudermos mudar os acontecimentos, deixemos que eles nos modifiquem."


Padre Fábio de Melo

sábado, 26 de janeiro de 2008

coração e dinheiro




Luiz Carlos Prates



Quem sabe pensar, e são poucos os que sabem pensar, pode viver melhor. E se não viver melhor, saberá exatamente onde e por que lhe aperta o sapato, o sapato da vida.

Muitos dão de ombros para os livros de auto-ajuda, claro, há formidáveis baboseiras no mercado. Mas há boas obras. Esses livros resultaram de velhas e consagradas verdades da psicologia. E uma dessas verdades diz que o pensamento pode-nos levar a doenças. Ou devolver-nos à saúde. Há quem ache graça, esses são os que não sabem pensar.

Talvez possamos dar-lhes o desconto de que leram pouco e mal. E mais que isso, foram criados entre pessoas de mentes apoucadas. O "cientista" da vida não crê de graça em tudo que vê e ouve mas também nada desmente. Fica observando.

Dia destes, eu lia num jornal de São Paulo de um senhor, 70 e poucos anos, que morreu de susto ao dobrar uma esquina e dar-se de frente com um cão pitbull. Morreu de medo, de emoção. Foi isso. Nenhum médico conseguiu ser tão desavisado que não admitisse o infarto do idoso como resultante do medo elevado ao mais extremo grau.

Quer dizer, se alguém morre de uma forte emoção, pode curar-se com emoções e crenças positivas, é o ajustamento dessa bipolaridade complementar. Vim até aqui para só agora dizer a que venho. A notícia está nos jornais, deste tamanhinho... Diz assim: "Dificuldades financeiras podem afetar a saúde do coração".

Estudo publicado na revista The Journal of the American Medical Association mostrou que um ano após os pacientes terem sofrido ataques, houve um aumento de 12% nos casos de angina (dor no peito) entre aqueles que tinham problemas monetários. E aí, será que alguém vai dizer que a revista dos médicos americanos é livrinho de auto-ajuda?

Encrencas do cotidiano, de qualquer sorte, levam-nos ao acúmulo de secreções indevidas na corrente sangüínea e estas nos levam aos poucos às moléstias. Muitas vezes fatais. Poucos acreditam nisso, muitos se endividam para ostentar bens frívolos da mundanidade dos inanes, e brigam com a mulher, com os amigos, com a vida, com eles mesmos e morrem sem saber do quê. Insensatos. Leram pouco, pensaram mal e gastaram sem poder.

É o mal de hoje, das humanidades do asfalto sem alma e de muitas falsas ostentações. É o que se vê nos jornais, estultos "metidos" algemados pela polícia, pobres diabos dos gastos fartos, sem poder ou ilegais.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

canção noturna



Skank


Misterioso luar de fronteira
Derramando no espinhaço quase um mar
Clareando a aduana
Venezuela, donde estás?

Não sei por que nessas esquinas vejo seu olhar
Minha camisa estampada com o rosto de Elvis
A minha guitarra é minha razão
Minha sorte anunciada
Misteriosamente a lua sobre nada

Não sei por que nessas esquinas vejo seu olhar
Não sei por que nessas esquinas vejo seu olhar
Espalhe por aí boatos de que eu ficarei aqui
Espalhe por aí boatos de que eu ficarei aqui

Vem, mamacita, doida e meiga
Sempre o âmago dos fatos
Minha guerra e as flores do cactos
Poema, cinema, trincheira

Não sei por que nessas esquinas vejo o seu olhar
Um cego na fronteira, filósofo da zona
Me disse que era um dervixe
Eu disse pra ele, camarada
Acredito em tanta coisa que não vale nada

Não sei por que nessas esquinas vejo o seu olhar
Não sei por que nessas esquinas vejo o seu olhar
Espalhe por aí boatos de que eu ficarei aqui
Espalhe por aí boatos de que eu ficarei aqui

Não sei por que nessas esquinas vejo seu olhar
Não sei por que nessas esquinas vejo seu olhar
Velejando, viajando sol quarando
Meu querer, meu dever, meu devir
E eu aqui a comer poeira
Que o sol deixará

Não sei por que nessas esquinas vejo o seu olhar
Não sei por que nessas esquinas vejo o seu olhar...

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

pra sempre amigos...




"Mesmo que as pessoas mudem e suas vidas se reorganizem, os amigos devem ser amigos para sempre, mesmo que não tenham nada em comum, somente compartilhar as mesmas recordações.
Pois boas lembranças, são marcantes, e o que é marcante nunca se esquece! Uma grande amizade mesmo com o passar do tempo é cultivada assim!"



Vinícius de Moraes

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

meu mundo!





"Aprendi que esperar é muito mais que ficar estagnado. É preciso sonhar, planejar e realizar enquanto o seu mundo não acontece."


Angélica Abe

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

fora do comum




"Queria que ao menos algum canto do mundo me acolhesse. E me abraçasse e dissesse que tudo bem, tudo bem de vez em quando eu perder assim a razão ou o equilíbrio. E repetir e repetir e repetir o erro. E jurar que da próxima vez eu serei normal. E jurar que da próxima vez eu obedecerei a natureza..."



trecho do texto Fora do comum, de Tati Bernardi

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

contra o desperdício!




"A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca e que, esquivando-nos do sofrimento, perdemos também a felicidade. A dor é inevitável. O sofrimento é opcional."




Carlos Drummond de Andrade

domingo, 20 de janeiro de 2008

Sobre amor, rosas e espinhos





O amor é equação onde prevalece a multiplicação do perdão



Amor, que é amor, dura a vida inteira. Se não durou é porque nunca foi amor.

O amor resiste à distância, ao silêncio das separações e até às traições. Sem perdão não há amor. Diga-me quem você mais perdoou na vida, e eu então saberei dizer quem você mais amou.

O amor é equação onde prevalece a multiplicação do perdão. Você o percebe no momento em que o outro fez tudo errado, e mesmo assim você olha nos olhos dele e diz: "Mesmo fazendo tudo errado, eu não sei viver sem você. Eu não posso ser nem a metade do que sou se você não estiver por perto".

O amor nos possibilita enxergar lugares do nosso coração os quais sozinhos jamais poderíamos enxergar.

O poeta soube traduzir bem quando disse: "Se eu não te amasse tanto assim, talvez perdesse os sonhos dentro de mim e vivesse na escuridão. Se eu não te amasse tanto assim talvez não visse flores por onde eu vi, dentro do meu coração!"

Bonito isso. Enxergar sonhos que antes eu não saberia ver sozinho. Enxergar só porque o outro me emprestou os olhos, socorreu-me em minha cegueira. Eu possuía e não sabia. O outro me apontou, me deu a chave, me entregou a senha.

Coisas que Jesus fazia o tempo todo. Apontava jardins secretos em aparentes desertos. Na aridez do coração de Madalena, Jesus encontrou orquídeas preciosas. Fez vê-las e chamou a atenção para a necessidade de cultivá-las.

Fico pensando que evangelizar talvez seja isso: descobrir jardins em lugares que consideramos impróprios. Os jardineiros sabem disso. Amam as flores e por isso cuidam de cada detalhe, porque sabem que não há amor fora da experiência do cuidado. A cada dia, o jardineiro perdoa as suas roseiras. Sabe identificar que a ausência de flores não significa a morte absoluta, mas o repouso do preparo. Quem não souber viver o silêncio da preparação não terá o que florir depois...

Precisamos aprender isso. Olhar para aquele que nos magoou e descobrir que as roseiras não dão flores fora do tempo nem tampouco fora do cultivo. Se não há flores, talvez seja porque ainda não tenha chegado a hora de florir. Cada roseira tem seu estatuto, suas regras... Se não há flores, talvez seja porque até então ninguém tenha dado a atenção necessária para o cultivo daquela roseira.

A vida requer cuidado. Os amores também. Flores e espinhos são belezas que se dão juntas. Não queira uma só. Elas não sabem viver sozinhas... Quem quiser levar a rosa para sua vida, terá de saber que com ela vão inúmeros espinhos. Mas não se preocupe. A beleza da rosa vale o incômodo dos espinhos... ou não.


Padre Fábio de Melo

sábado, 19 de janeiro de 2008

Quando o retrocesso dá lucro





Lá pelos anos 70, quando alguém queria saber se determinada pessoa era gay, para alguns tipos específicos havia resposta certa: "Esse (a) aí, se não é, é de preguiça". Referência às pessoas que não assumiam sua condição homossexual quando ela saltava à vista, isso virou piadinha num tempo em que ainda se discutia, veja só, a "validade" da orientação que determina a atração de uma pessoa por outra do mesmo sexo.

Dá um tempo, vai! Não só o fato de uma pessoa sentir atração por outra do mesmo sexo é hoje muito comum (e talvez tão antigo como a primeira edição da Bíblia), como, na ponta do lápis, chega a ser irrelevante. Menos para quem, lá no fundo, anda desgostoso com algum aspecto de sua própria vida e perde tempo em especular sobre a sexualidade alheia. Ou para quem lucra com o preconceito.

E aí a lista aumenta. Eis que nossa mídia eletrônica, em especial a da televisão aberta e, mais localizadamente, aquela centrada em programas sensacionalistas, tem na especulação sobre quem-fica-com-quem um de seus chamariscos de audiência.

Taí o Big Brother Brasil da Globo que, em sua oitava edição, bem poderia ter amadurecido o formato e mudado esse disco. Mas não: até o diretor Boninho alardeou que um dos candidatos selecionados havia assumido sua homossexualidade. Isso acrescenta exatamente o quê?

Faz efeito, cara-pálida. Se não é correto afirmar que se trata de jogada de marketing, pelo menos esse tipo de comentário movimenta milhões. Alimenta não só a audiência do desgastado BBB da Globo, como a da Rede TV!, que tem como mola-mestra programas de fofocas em que bastidores do Big Brother Brasil, bem como de artistas em geral, fazem a alegria de muito telespectador.

Com um planeta superpopuloso assolado por problemas graves como a fome e a queda na qualidade de vida motivada por séculos de ação predatória do bicho homem, ainda há quem desperdice tempo em tecer maledicência sobre preferências sexuais. É bilhete de ida no trem-bala do retrocesso – mas vende, assim como a chamada fatia GLS do mercado é lucrativa. E o lucro a tudo absolve. Me permita um aparte: que preguiça!



Chico Neto
Jornal de Brasília

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

O Outro Lado da Meia Noite




"A emoção que fluía para Noelle Page, vinda da multidão que viera assistir a seu julgamento, era tão forte que se tornou quase uma presença física na Sala de Audiências. Não era um sentimento de simpatia ou inimizade, era simplesmente um sentimento de expectativa. A mulher sendo julgada por homicídio pelo Estado era uma supermulher, uma deusa num pedestal de ouro, que estava no alto, acima deles, e todos estavam ali para ver seu ídolo ser baixado ao nível deles e ser destruído. A emoção dos expectadores na Sala de Audiências deve ter sido a mesma que havia nos corações dos camponeses que viram Marie Antoinette a caminho do carrasco na carroça."




trecho do livro O Outro Lado da Meia Noite, de Sidney Sheldon

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

reconciliação?




"Escutamos tantas coisas contrárias àquilo que gostaríamos de ouvir.
O desafio é: dormir com o lixo e amanhecer com cara de lixão ou reciclar esse lixo e fazer bonita a experiência da beleza ímpar.
Colocar a história em pratos limpos, é voltar lá onde nossos sentimentos foram gastados, e sabedoria é fazer a triagem, pode até ser um lixo aquilo que o outro esqueceu em nós, mas Deus nos dá o dom de reciclarmos, porque se alguém esqueceu alguma palavra que lhe fez sofrer, não conviva com isso a vida inteira, recicle para que não fique escravo daquilo que lhe foi dito."


Pe. Fábio de Melo

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

fico assim sem você


Adriana Calcanhoto


Avião sem asa
Fogueira sem brasa
Sou eu, assim, sem você
Futebol sem bola
Piu-piu sem Frajola
Sou eu, assim, sem você

Porque é que tem que ser assim?
Se o meu desejo não tem fim
Eu te quero a todo instante
Nem mil auto-falantes
Vão poder falar por mim

Amor sem beijinho
Buchecha sem Claudinho
Sou eu, assim, sem você
Circo sem palhaço
Namoro sem amasso
Sou eu, assim, sem você

Tô louca prá te ver chegar
Tô louca prá te ter nas mãos
Deitar no teu abraço
Retomar o pedaço
Que falta no meu coração

Eu não existo longe de você
E a solidão, é o meu pior castigo
Eu conto as horas prá poder te ver
Mas o relógio tá de mal comigo
Porque? Porque?

Neném sem chupeta
Romeu sem Julieta
Sou eu, assim, sem você
Carro sem estrada
Queijo sem goiabada
Sou eu, assim, sem você

Porque é que tem que ser assim?
Se o meu desejo não tem fim
Eu te quero a todo instante
Nem mil auto-falantes
Vão poder falar por mim

Eu não existo longe de você
E a solidão, é o meu pior castigo
Eu conto as horas prá poder te ver
Mas o relógio tá de mal comigo...

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

eu nem te amo





Tati Bernardi


É estranho como sinto saudades quando você vai buscar água. Aqueles segundos que separam o resto das suas canelas se perdendo no corredor com o pulo que você dá na cama.

Aí você volta cheio de pressa em se livrar de mim e eu penso que tudo bem. Você tem pressa até de se livrar de você mesmo. O problema não deve ser eu. E eu nem te amo mesmo. Só fui te visitar porque tenho preguiça de transar com qualquer um e se fico mais de 3 semanas sem sexo começo a arrumar confusão no trânsito.

Sua voz é chata e seu papo então, insuportável. Respiro aliviada e sugo o máximo de você, pra ter a certeza absoluta de que não é você. Não sonhei com você. Não quero passar minha vida ao lado da pessoa mais estranha do mundo. Imagina só ficar grávida de um homem que tem pavor de mulher com enjôo? Imagina só ficar velha ao lado de um homem que tem pavor da
vida óbvia, cotidiana e imperfeita? Eu viveria infeliz.

Não é você. E lá vem você me perguntar porque é que estão todos casando, e falar pela trigésima vez que você vai acabar sozinho e não deve nada a ninguém. E lá vem você me olhar apaixonado e, no segundo seguinte, frio. E me falar para eu não sofrer e para eu ir embora e para eu não esperar nada e para eu não desistir de você. E eu me digo que não é você. Porque, se fosse, meu sono seria paz e não vontade de morrer.

Me despeço, já sem aquela dor aterrorizante, das partes de você que mais amo. Ainda que eu nem te ame mesmo. E me despeço das partes da sua casa que eu mais amo. Ainda que nada disso seja amor. E entro no carro já sem chorar. Os últimos três anos chorando por você serviram ao menos para me secar por dentro.

Preciso me aliviar. Mas dou até risada porque acabaram os caminhos. O mundo não suporta mais esse meu não amor por você. Meus amigos espalmam a mão na minha cara e já vão logo adiantando que se eu pronunciar seu nome, eles vão embora sem nem olhar para trás. Remédios só me deixam com um bocejo químico e a boca do estômago triste, mas não tiram você do meu coração. E escrever, que sempre foi a única coisa que adiantava para os dias passarem menos absurdos, já se tornou algo ridículo. Escrever sobre você de novo? De novo? Tenho até vergonha. Nem eu suporto mais gostar de você. E olha que nem gosto.

É como se o mundo inteiro, os ventos, as ondas do mar, os terremotos, as criancinhas peladinhas brincando de construir castelinhos na areia, os carros correndo nas estradas, os cachorrinhos meditando nas gramas de todos os parques do mundo, a chuva, os cartazes de filmes, o passarinho que canta todo dia de manhã na minha janela, a torta de palmito na geladeira, a minha vizinha louca que briga com o gato na falta de um marido, um cara qualquer que eu dormi (e todos eles parecem qualquer quando não são você). É como se o mundo inteiro me dissesse: “hei Tati, ninguém agüenta mais esse assunto! Chega!”

E no meio da noite, quando eu decido que estou ótima afinal de contas tenho uma vida incrível e nem amava mesmo você, eu me lembro de umas coisas de mil anos e começo a amar você de um jeito que, infelizmente, não se parece em nada com pouco amor e não se parece em nada com algo prestes a acabar.

Lembro de você me dando mostarda de café da manhã na primeira vez que dormi na sua casa, de você com os olhos disfarçando uma lágrima porque a minha cachorra buscou a bolinha e era só uma desculpa para eu fechar a porta antes dela voltar. Lembro de você querendo fugir de um museu na Itália porque tantos dias longe de casa te deram uma espécie de bobeira e você achava que estava sufocando. Lembro da sua jaqueta com um sol nas costas e do seu cabelo espetado igual ao sol, do cheiro que você tem bem no centro da nuca, do gosto amargo de menino que tem pressa de tomar banho que você tem bem no fundo da orelha. Lembro de você olhando a bunda da minha amiga e logo depois me dando um abraço forte e dizendo “cadê mesmo aquela revista que tem um texto lindo seu?”. E lembro da primeira vez que eu te vi e te achei meio feio, vesgo, estranho. Até que você me suspendeu no ar por razão nenhuma eu tive certeza que meu filho nasceria um pouco feio, vesgo e estranho.

E então, no meio da noite, enquanto eu penso tudo isso, eu pergunto ao mundo todo que não agüenta mais esse assunto. Ao mar, às criancinhas peladas, aos cartazes de filmes, ao passarinho, à vizinha, aos cachorrinhos em meditação, à torta, aos carros, à qualquer um...eu pergunto: por que é que vocês todos estão tão cinza? Por que é que vocês não me ajudam? Por que é que todos vocês também ficam tão tristes quando ele vai embora? Por que é que todos vocês também morrem quando ele vai embora? Por que é que todos vocês também amam ele?

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

mal da verdade!





"A franqueza não consiste em dizer tudo o que se pensa, mas em pensar tudo o que se diz."


Victor Hugo

domingo, 13 de janeiro de 2008

more than words

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Extreme

Saying I love you
Is not the words I want to hear from you
It's not that I want you
Not to say, but if you only knew
How easy it would be to show me how you feel
More than words is all you have to do to make it real
Then you wouldn't have to say that you love me
Cause I´d already know

What would you do if my heart was torn in two
More than words to show you feel
That your love for me is real
What would you say if I took those words away
Then you couldn't make things new
Just by saying I love you

More than words

Now that I've tried to talk to you and make you
understand
All you have to do is close your eyes
And just reach out your hands and touch me
Hold me close don't ever let me go
More than words is all I ever needed you to show
Then you wouldn't have to say that you love me
Cause I'd already know

What would you do if my heart was torn in two
More than words to show you feel
That your love for me is real
What would you say if I took those words away
Then you couldn't make things new
Just by saying I love you

More than words...

sábado, 12 de janeiro de 2008

Eu amo uma mulher

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Tati Bernardi


Foi andando na praia que eu me apaixonei por ela. Saiu esbravejando de dentro de uma casa e no minuto depois estava se derretendo por um desses bebezinhos pelados que ficam pulando quando vêem uma onda.

Eu pensei: “Quem em sã consciência arma a maior encrenca com os amigos e segundos depois é capaz de uma doçura que chega a ser até meio boba?”. Ela deveria ser especial, dessas mulheres difíceis de amar e impossíveis de não amar.

Corri para andar ao seu lado e vi que no mesmo iPod ela tinha Beethoven e Bonde do Rolê. E tinha também Vinicius de Moraes e Gui Borato. E tinha Madeleine Peyroux e Miss Kittin. Não sei, mas pensei: “Nenhum dia ao lado dela deve ser chato. Ainda que ela deva sofrer um pouco com seus pêndulos de humor, gosto e trilha”.

Pelo jeito como ela olhava para as pessoas, eu via a arrogância menos perigosa do mundo. Aquele tipo de olhar que pode te matar, mas, caso você resolva retribuir com um abraço, pode dar a própria vida por um pouco de amor.

Seus passos duros eram de uma mulher decidida, mas também de uma mulher com medo de amolecer a postura e trazer à tona alguns defeitos do corpo. Uma mulher tão comum e ao mesmo tempo tão mais mulher que aquelas outras mulheres com seus banais desejos praianos e acompanhadas de seus banais amigos com desejos praianos. Ela passava pelas pessoas e era como se estremecesse todas as idéias que precisam ser leves por causa do sol forte.

E eu só conseguia ter o ímpeto de gostar cada vez mais dessa mulher. Gostar do seu biquíni do verão passado porque o da moda estava molhado. Gostar que ela falou para os amigos, antes de sair para caminhar na praia, que estava cansada de buscar gente bacana e de verdade. E todo mundo riu dela. E ela se sentiu sozinha feito um urso polar hibernando. E o sol era de 40 graus.

E ela estava arrependida, afinal, eram férias e ela não deveria ter brigado novamente com o mundo. Por que não deixar o mundo ser como era e fim de papo? E aceitar que ela era mesmo meio esquisita e que, fora raros momentos em que os outros ficavam mais loucos ou ela mais normal, ela se sentiria sozinha mesmo. E pronto.

Aí o sol foi baixando, baixando, baixando. E sua guarda seguiu com a vida. E ela foi aceitando todas as pessoas. O sorveteiro mala que buzinava, a babá de cara amarrada, a garota malhada demais, o pai de família olhando pra trás pra ver sua bunda. E foi gostando de cada um de seus amigos, por mais que eles, muitas vezes, falassem alto demais, fossem pães-duros demais, gostassem de vê-la se dando mal, fossem egoístas demais, dormissem demais. Eles não eram perfeitos, mas quem disse que ela era?

E ela foi gostando de tudo, até de mim, que não sou muito fácil de gostar. Quando olhou seu rosto refletido no mar, me deu até um sorriso.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

O Retrado de Dorian Gray VI

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... há momentos em que o desejo do pecado, ou do que os homens chamam de pecado, domina de tal modo a nossa natureza, que cada fibra do corpo e cada célula do cérebro parecem ser movidos por impulsos terríveis. Em tais momentos, os homens e as mulheres perdem sua liberdade e seu arbítrio. Dirigem-se como autômatos para seu fatal objetivo. O direito de escolher lhes é recusado e sua consciência está morta, ou, se ainda vive, é somente para emprestar atrativos à rebelião e encanto à desobediência.


trecho do livro O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

o mundo: meu lar!

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"O homem viaja através do mundo em busca do que deseja, e retorna ao lar para encontrá-lo."



George Moore

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

O Segredo

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"O que está em cima é como o que está embaixo.
O que está dentro é como o que está fora."



- Tábua das Esmeraldas, cerca de 3000 a.C.


Epígrafe do livro O Segredo, de Rhonda Byrne

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

eu era um lobisomem juvenil

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Legião Urbana


(...)


Se o mundo é mesmo parecido com o que vejo
Prefiro acreditar no mundo do meu jeito
E você estava esperando voar
Mas como chegar até as nuvens
Com os pés no chão

O que sinto muitas vezes faz sentido
E outras vezes não descubro o motivo
Que me explica porque é
Que não consigo ver sentido o que sinto
Que procuro e desejo que faz parte do meu mundo

(...)
Vai, vem embora, volta
Todos têm, todos têm suas próprias razões

Qual foi a semente que você plantou?
Tudo acontece ao mesmo tempo
Nem eu mesmo sei direito o que está acontecendo
E daí de hoje em diante todo dia vai ser
O dia mais importante

Se você quiser alguém pra ser só seu
É só não se esquecer, estarei aqui

Não digo nada
Espero o vendaval passar
Por enquanto eu não sei o que você me falou
Me fez rir e pensar que estou tão preocupado
Por estar tão preocupado assim...

(...)

Mas se você quiser alguém pra ser só seu
É só não se esquecer, estarei aqui

Ou então não terás jamais a chave do meu coração...

segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

O Retrato de Dorian Gray V

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"Curar a alma através dos sentidos, e curar os sentidos através da alma". Sim, era aquele o segredo. Ele o tinha experimentado freqüentemente e agora mais uma vez o experimentava. Havia lugares em que se fumava ópio e onde se podia comprar o esquecimento, antros horrorosos em que a lembrança de antigos pecados podia ser destruída com a loucura de novos pecados.


trecho do livro O Retrado de Dorian Gray, de Oscar Wilde

domingo, 6 de janeiro de 2008

certezas relativas!

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"As convicções são inimigas mais perigosas da verdade do que as mentiras."



Friedrich Nietzsche

sábado, 5 de janeiro de 2008

flashback

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Tati Bernardi



"Acho que é uma balada meio flashback", ele disse. A tradução para "ele": meu amigo, seis anos mais novo e... meu estagiário.

Eu era a última solteira das minhas amigas e estava sozinha em um casamento com 456 casais cheirando a mofo e sexo mecânico (todos me olhando com aquela carinha de "calma, tia, sua hora vai chegar") e achei que a idéia merecia uma análise. Afinal, a maquiagem tinha custado cara demais para eu ir dormir antes de borrá-la.

Flashback não tinha descido direito pela goela. Mas, pensando bem, não era uma pena terminar a noite com um vestido tão caro e nenhum amassadinho nele? Resolvi arriscar.

Assim que cheguei na porta da balada, dei aquele tapa de desenho animado na testa: que que eu tô fazendo aqui? Era justamente um daqueles lugares que dedico uma vida a maldizer: garotos bombados, garotas iguais, música ruim, gente perdida que circula sem parar e/ou dança em círculos.

Já estava dando seta no carro para desintegrar o mais rápido possível dali quando ele ligou: "Nem precisa pegar fila, meus amigos MANDAM aqui".

Medo. Essa coisa de ter amigo que "manda" na balada não combina muito comigo, mas eu já estava lá mesmo, não estava? Ainda era cedo pra dormir, mas já era muito tarde para tentar arrumar outra coisa pra fazer. Continuei em frente.

A visão de dentro era um pouco mais infernal que a de fora. Não havia sequer um centímetro de metro quadrado que não fosse ocupado por alguma acéfala de tomara-que-caia ou algum feromônio macho de regata Diesel. Foi quando avistei meu amigo e seus amigos no bar. Não custava nada, já que os amigos do meu amigo MANDAVAM na balada, ir até lá para agradecer o convite, ficar mais alguns segundos e depois retornar ao maravilhoso universo da minha casa vazia e silenciosa. Será que eu era uma velha?

"Esse aqui é o Pedro, esse o Thiago, esse o Rafa, esse o Denis, esse o Paulão e esse aqui é o Cesinha."

Agora vamos tradução: esse aqui é o lindo, esse o de olhos azuis, esse o corpo perfeito, esse o que tem cara de bom de cama, esse o de ombro largo e esse aqui o de boca carnuda.

Considerando que meu amigo (tá, meu estagiário, seis anos mais novo do que eu...) é um gato e tinha mais seis amigos gatos, pensei que, quem sabe, já que era tarde demais para ir a outro lugar e já que eu já estava lá mesmo, sei lá, de repente, talvez não fosse uma boa ficar mais uma meia hora por ali mesmo. Por que não? Como diria um amigo meu: tudo vale como pesquisa antropológica.
Nas picapes o hit era algum poperô revisitado (lembrem-se de que se trata de uma balada flashback, ok?), na minha frente um grupinho de melhores amigas que se odeiam brincavam de chicotear com o cabelo de formol quem atrapalhasse suas danças. É, acho que tá na minha hora. Deu. Fui. Até.

Mas no minuto em que planejo uma boa desculpa para a despedida, meu amigo resolve falar comigo se apoiando carinhosamente na minha cintura. Sua voz no meu ouvido e a visão paradisíaca dos seus amigos caçando em bando (uga buga, uga buga, imagino eles com o tacape na mão) me faz criar forças suficientes para me manter paralisada.

Bebidas coloridas e fumaças doces depois lá estava eu me acabando de dançar no meio da pista. Aquele poperô não era de todo mal, sabia? Me lembrava um tempo não muito distante (dez anos atrás?) em que eu era menos crítica e mais feliz. As melhores amigas que se odeiam até que tinham seu charme. A pista ultramastermega lotada também tinha sua utilidade: eu estava praticamente no colo do meu amigo, tamanha era a falta de espaço.

lgo me dizia que eu estava feliz. Será que eu estava feliz? Era possível ser feliz em um lugar tão idiota com pessoas idiotas? Sim, era possível. Era possível porque eu também era uma idiota. E, quer saber? Realmente só os idiotas são felizes.

Foi aí que meu amigo (e as três e quarenta e sete da manhã a palavra "meu estagiário" faz tanto sentido para uma mulher na seca quanto a frase "é problema na correia dentada") resolveu que nossa amizade jamais seria afetada por um beijo. Que mal há em um beijo? Um simples beijo? Um beijinho de nada? Inofensivo. Algo mais ou menos como um desentupidor de pia com mais de cinco horas de duração. Que mal há em um beijo assim? Dado na escada, no cantinho atrás do bar, no banheiro, no chão, embaixo das mesas, deitados no sofá? Que mal há nele enfiar a mão dentro do meu vestido para sentir a renda do meu novo sutiã? Ou de querer conferir a elasticidade da minha calcinha? Nenhum. Oras, ele não é meu amigo? Amigo é pra essas coisas. Oras.

Eu tinha esquecido que os jovens beijam. Eu, com essa minha mania de gostar de tiozão (que preferem ir direto ao assunto, logo depois do foie gras), havia me esquecido de que os jovens beijam. E como beijam. O dia amanhecia enquanto minha boca ia ficando do tamanho do sol.

Adoro. Adoro poperô. Adoro os anos 90. Adoro essa galera. Adoro essa galera que MANDA na balada. Que bom que eu era a última solteira das minhas amigas. De todas as dúvidas existenciais que carrego em meu ser, só restavam três: eu não conseguia decidir se eu tinha 16, 17 ou 18 anos. Acabei escolhendo 17, aquela fase sensacional em que nada é sua culpa, mas já dá pra entrar na balada sem mostrar a identidade pro armário.

No final da noite eu já não tinha mais nenhuma maquiagem no rosto (em compensação ele parecia o Bozo) e meu vestido era uma massa amorfa. Era hora de voltar para casa. Sozinha, é claro. Afinal: meninas de 17 anos jamais fazem sexo sem amor. Ou pelo menos não faziam na minha época.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

pequenos gestos!

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"Está se deteriorando a bondade brasileira. De quinze em quinze minutos, aumenta o desgaste da nossa delicadeza."


Nelson Rodrigues

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

O Retrato de Dorian Gray IV

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- Nunca se tornará a casar, Lady Narborough - interrompeu Lorde Herry. - Foi feliz demais da primeira vez. Quando uma mulher se casa de noco é porque detestava seu primeiro marido. Quando um homem se torna a casar, é porque adorava sua primeira mulher. As mulheres tentam sua sorte, os homens arriscam a sua.

- Narborough não era perfeiro - exclamou a velha senhora.

- Se o tivesse sido, a senhora não o teria amado, minha cara amiga - foi a resposta. - As mulheres nos amam pelos nossos defeitos. Mesmo que os tenhamos em grande número, elas tudo perdoarão, até nossa inteligência. Receio que nunca mais torne a convidar-me, depois que lhe disse isso, Lady Narborough, mas é a pura verdade.


trecho do livro O Retrado de Dorian Gray, de Oscar Wilde

quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

verbos sujeitos

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Zélia Duncan


Olhos pra te rever
Boca pra te provar
Noites pra te perder
Mapas pra te encontrar

Fotos pra te reter
Luas pra te esperar
Voz pra te convencer
Ruas pra te avistar

Calma pra te entender
Verbos pra te acionar
Luz pra te esclarecer
Sonhos pra te acordar

Taras pra te morder
Cartas pra te selar
Sexo pra estremecer
Contos pra te encantar

Silêncio pra te comover...
Música pra te alcançar...
Refrão pra enternecer...
E agora só falta você

Meus verbos sujeitos ao seu modo de me acionar
Meus verbos em aberto pra você me conjugar

Quero... vou... fui... não vi... voltei...
Mas sei que um dia de novo eu irei

terça-feira, 1 de janeiro de 2008

20 e poucos

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Fábio Jr

Você já sabe me conhece muito bem
Eu sou capaz de ir
Vou muito mais além
Do que você imagina
Eu não desisto assim tão fácil meu amor,
Das coisas que eu quero fazer
E ainda não fiz
Na vida tudo tem seu preço seu valor e eu só quero
Dessa vida é ser feliz
Eu não abro mão
Nem por você,
Nem por ninguém,
Eu me desfaço dos meus planos
Quero saber bem mais que os meus vinte e poucos anos
Nem por você nem por ninguém,
Eu me desfaço dos meus planos
Quero saber bem mais que os meus vinte e poucos anos
Tem gente ainda me esperando pra contar,
As novidades que eu já canso de saber
Eu sei também que tem gente me enganando,
Mas que bobagem já é tempo de crescer
Eu não abro mão

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