segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

O Retrato de Dorian Gray III

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"A moderação é qualquer coisa fatal..."


Lorde Henry Wotton por Oscar Wilde
trecho do livro O Retrato de Dorian Gray

domingo, 30 de dezembro de 2007

Dois e dois

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Antonio Prata


Ficar maduro talvez signifique deixar de lado as coisas para as quais a gente não leva jeito e dedicar-se àquelas em que há realmente alguma possibilidade de sucesso. Foi seguindo essa toada que desisti de ser astronauta aos oito, percebi que o futuro não estava no futebol lá pelos doze e perdi as baquetas e a ambição de ser baterista em alguma festa lá pelo terceiro colegial.

Ficar mais maduro talvez signifique retomar essas atividades quando chegamos perto dos trinta -- e nos damos conta de que há muito mais coisas entre o céu e a Terra do que “possibilidade de sucesso”. Foi seguindo essa toada que, na última quarta, com as pernas bambas de alegria e um sorriso juvenil no rosto, contei um, dois, três, quatro e, cercado de outros seis ex-futuros músicos, deixei todas as frustrações explodirem nos pratos, nos três primeiros acordes de Don’t let me down, dos Beatles.

A banda havia surgido uma semana antes, numa mesa de bar: uma dessas idéias que nos ocorrem depois da uma da manhã, quando o superego já está cantando a Jardineira, vestido de Pierrô, lá pros lados do Mandaqui e o saci começa a nos assoprar no ouvido desejos imprudentemente ambiciosos, como a morena da mesa ao lado ou a profissão de Ringo Starr. Como ficar mais maduro também significa perceber que a vida é curta e começar a levar a sério a imprudência, alugamos um estúdio, juntamos o punhado de alegres diletantes que há anos trocaram a alegria das cifras pela busca dos cifrões e, por algumas horas, fomos feliz para sempre.

Quinta-feira próxima virá o segundo ensaio. Nesse exato momento, enquanto ouve a entrevista de um deputado, um repórter de política repassa mentalmente os acordes de Like a rolling stone. Um editor deixa de lado um autor russo do século XIX e assovia Amada Amante. Um poeta abandona a busca pelo oxímoro perfeito que defina o Brasil para decorar a letra de Último Romântico. Uma jornalista de economia interrompe a nota sobre a fusão de dois gigantes do etanol e imagina os movimentos de seu violino em Eleonor Rigby. Uma produtora fecha o Excel e ouve, pela sexta vez no dia, Não vou ficar, em seu I-pod. Um escritor em Santa Cecília confunde as teclas do teclado com as do piano e outro, aqui em Perdizes, julga ouvir um prato toda vez que aperta o enter.

Ficar maduro talvez signifique, entre outras coisas, cantar a sério o que anos atrás só encararíamos sob as grosas malhas da ironia. Tocamos mal, mas somos felizes. Tudo certo – como dois e dois são cinco.

sábado, 29 de dezembro de 2007

manias

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Alcione
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Dentre as manias que eu tenho
Uma é gostar de você
Mania é coisa que a gente
Tem mais não sabe por quê
Mania de bem querer
Às vezes de falar mal
Mania de não dormir
Sem antes ler um jornal
De só entrar no chuveiro
Cantando a mesma canção
De só pedir um cinzeiro
Depois das cinzas no chão
Eu tenho varias manias
Delas não faço segredo
Quem pode ver tinta fresca
Sem logo passar o dedo
De contar sempre aumentado
Tudo o que disse, o que fez
De guardar fósforo usado
Dentro da caixa outra vez
Mania é coisa que a gente
Tem mas não sabe por quê
Dentre as manias que eu tenho
Uma é gostar de você.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

Malagueta

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Thaty Hamada


Mulher é sexta-feira. Cheia de entusiasmo e ansiedade, reclama dos dias, mas adora as horas vividas. Faz pose de final de semana, sai e balança a cabeleira pra si mesma. Põe salto alto pra aumentar a bunda e encolher a barriguinha. Rebola com as amigas e faz o tempo parar quando passa na frente dos marmanjos. Sai só pra dançar (ou não), bebe destilados ou cerveja com a delicadeza de Vênus e olha para as estrelas com ar de diva.

Com um sorriso no rosto reclama do ex e enobrece o atual. Chora de saudades da infância e da comida da mãe. Mas mulher que faz pose de boazinha demais, santinha demais, tem o zap na manga. Pode acordar, abre o olho, rapaz, ninguém é tão santa, nem tão demônio quanto aparenta. Até porque, como dizem, mulheres boazinhas não enriquecem!

Mulher é pimenta. O cheiro pode parecer bom, mas se não souber a quantidade certa, a intensidade e o jeito, sai chorando. Não que sejamos estrategicamente feitas para arder a vida, é que o intervalo entre a doçura e a explosão por fissão é a 'pimentude' feminina. O levantar de uma sobrancelha, o passo mais forte, os dentes cerrados e barulhentos, os olhos de prazer ou de ódio, os extremos vivendo em uma só.

Mulher é peça única. Mulher igual só por fabricação em série e mesmo assim sai com defeitos diversos. Somos e admitimos ser milimetramente defeituosas, cheias de pontas duplas e rímel borrado. Mas cada uma tem o gosto, o jeito, a qualidade, a especialidade de demonstrar o olhar exato no momento certo (ou não).

Homem adora mulher de bem com a vida. Homem adora sexta-feira, cerveja e mulher. E mulher adora ser quem é, sexta-feira da paixão.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

rosas

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Ana Carolina


Você pode me ver
Do jeito que quiser
Eu não vou fazer esforço
Pra te contrariar
De tantas mil maneiras
Que eu posso ser
Estou certa que uma delas
Vai te agradar

Porque eu sou feita pro amor
Da cabeça aos pés
E não faço outra coisa
Do que me doar
Se causei alguma dor
Não foi por querer
Nunca tive a intenção
De te machucar

(...)

Se teu santo por acaso
Não bater com o meu
Eu retomo o meu caminho
E nada a declarar
Meia culpa cada um
Que vá cuidar do seu
Se for só um arranhão
Eu não vou nem soprar

quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

open your eyes

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Snow Patrol



All this feels strange and untrue
And I won't waste a minute without you
My bones ache, my skin feels cold
And I'm getting so tired and so old

The anger swells in my guts
And I won't feel these slices and cuts
I want so much to open your eyes
´Cause I need you to look into mine

Tell me that you'll open your eyes

Get up, get out, get away from these liars
´Cause they don't get your soul or your fire
Take my hand, knot your fingers through mine
And we'll walk from this dark room for the last time

Every minute from this minute now
We can do what we like anywhere
I want so much to open your eyes
´Cause I need you to look into mine

Tell me that you'll open your eyes

All this feels strange and untrue
And I won't waste a minute without you

terça-feira, 25 de dezembro de 2007

Mamãe Noel

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Martha Medeiros


Sabe por que Papai Noel não existe? Porque é homem. Dá para acreditar que um homem vai se preocupar em escolher o presente de cada pessoa da família, ele que nem compra as próprias meias? Que vai carregar nas costas um saco pesadíssimo, ele que reclama até para colocar o lixo no corredor? Que toparia usar vermelho dos pés à cabeça, ele que só abandonou o marrom depois que conheceu o azul-marinho? Que andaria num trenó puxado por renas, sem ar-condicionado, direção hidráulica e air-bag? Que pagaria o mico de descer por uma chaminé para receber em troca o sorriso das criancinhas? Ele não faria isso nem pelo sorriso da Luana Piovani! Mamãe Noel, sim, existe.

Quem é a melhor amiga do Molocoton, quem sabe a diferença entre a Mulan e a Esmeralda, quem conhece o nome de todas as Chiquititas, quem merecia ser sócia-majoritária da Superfestas? Não é o bom velhinho.

Quem coloca guirlandas nas portas, velas perfumadas nos castiçais, arranjos e flores vermelhas pela casa? Quem monta a árvore de Natal, harmonizando bolas, anjos, fitas e luzinhas, e deixando tudo combinando com o sofá e os tapetes? E quem desmonta essa parafernália toda no dia 6 de janeiro?

Papai Noel ainda está de ressaca no Dia de Reis. Quem enche a geladeira de cerveja, coca-cola e champanhe? Quem providencia o peru, o arroz à grega, o sarrabulho, as castanhas, o musse de atum, as lentilhas, os guardanapinhos decorados, os cálices lavadinhos, a toalha bem passada e ainda lembra de deixar algum disco meloso à mão?

Quem lembra de dar uma lembrancinha para o zelador, o porteiro, o carteiro, o entregador de jornal, o cabeleireiro, a diarista? Quem compra o presente do amigo-secreto do escritório do Papai Noel? Deveria ser o próprio, tão magnânimo, mas ele não tem tempo para essas coisas. Anda muito requisitado como garoto-propaganda.

Enquanto Papai Noel distribui beijos e pirulitos, bem acomodado em seu trono no shopping, quem entra em todas as lojas, pesquisa todos os preços, carrega sacolas, confere listas, lembra da sogra, do sogro, dos cunhados, dos irmãos, entra no cheque especial, deixa o carro no sol e chega em casa sofrendo porque comprou os mesmos presentes do ano passado?

Por trás do protagonista desse megaevento chamado Natal existe alguém em quem todos deveriam acreditar mais.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

caro papai noel,

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Tati Bernardi


Neste Natal eu quero...



- Um moço bacana, desses que dá desejo de dormir abraçada, vontade de apresentar para a mãe e coragem de andar de mãos dadas no Shopping Iguatemi.

- Uma passagem só de ida para Paris. De preferência, para ir com o presente do tópico acima.

- Mais umas cinco horas por dia. Para dar tempo de eu terminar pelo menos um livro do monte que está pela metade na minha escrivaninha.

- Menos umas cinco horas por dia resolvendo burocracias chatas ou parada no trânsito.

- Que a minha tia Marilda não repare que eu engordei dois quilos bem quando eu estiver degustando a torta de nozes, depois da meia-noite.

- Que eu possa dormir depois do almoço do dia 25 sem que a minha mãe me peça para acompanhá-la na via sacra familiar por todos os bairros da cidade.

- Que eu não saia perdendo nas trocas de presentes. (Não me traga nenhuma agenda de assistência médica, combinado.)?

- Que nenhum ex-namorado me ligue emocionado pela data. Aliás, tem como arrumar para eles um “freela natalino” de puxador de trenó?

- Que seja mentira que a Paris Hilton vem ao Brasil. Não dá pra vir alguém que sirva para alguma coisa?

- Que eu não chore no especial do Roberto Carlos. Que eu seja forte na hora do “Detalhes” e praticamente uma rocha na hora do “As canções que você fez pra mim”.

- Que você receba muitas cartinhas pedindo meu livro de presente. Muuuitas.

- Uma barriga tanque na versão “pode comer de tudo”.

- Um cabelo liso na versão “resistente a chuva, vento, sal e sol”.

- Um bumbum na versão “quem diria que passa o dia sentada, escrevendo”.

- Uma amiga na versão “pra mim você vem antes de tudo, mesmo se for o Clive Owen de toalha”.

- Menos crianças nas ruas e, definitivamente, menos homens crianças na minha casa.

- E muita paz, amor, amigos, saúde, viagens, dinheiro e sexo. Não necessariamente nessa ordem.

domingo, 23 de dezembro de 2007

a solidão amiga




Rubem Alves


A noite chegou, o trabalho acabou, é hora de voltar para casa. Lar, doce lar? Mas a casa está escura, a televisão apagada e tudo é silêncio. Ninguém para abrir a porta, ninguém à espera. Você está só. Vem a tristeza da solidão... O que mais você deseja é não estar em solidão...

Mas deixa que eu lhe diga: sua tristeza não vem da solidão. Vem das fantasias que surgem na solidão. Lembro-me de um jovem que amava a solidão: ficar sozinho, ler, ouvir, música... Assim, aos sábados, ele se preparava para uma noite de solidão feliz. Mas bastava que ele se assentasse para que as fantasias surgissem. Cenas. De um lado, amigos em festas felizes, em meio ao falatório, os risos, a cervejinha. Aí a cena se alterava: ele, sozinho naquela sala. Com certeza ninguém estava se lembrando dele. Naquela festa feliz, quem se lembraria dele? E aí a tristeza entrava e ele não mais podia curtir a sua amiga solidão. O remédio era sair, encontrar-se com a turma para encontrar a alegria da festa. Vestia-se, saía, ia para a festa... Mas na festa ele percebia que festas reais não são iguais às festas imaginadas. Era um desencontro, uma impossibilidade de compartilhar as coisas da sua solidão... A noite estava perdida.

Faço-lhe uma sugestão: leia o livro A chama de uma vela, de Bachelard. É um dos livros mais solitários e mais bonitos que jamais li. A chama de uma vela, por oposição às luzes das lâmpadas elétricas, é sempre solitária. A chama de uma vela cria, ao seu redor, um círculo de claridade mansa que se perde nas sombras. Bachelard medita diante da chama solitária de uma vela. Ao seu redor, as sombras e o silêncio. Nenhum falatório bobo ou riso fácil para perturbar a verdade da sua alma. Lendo o livro solitário de Bachelard eu encontrei comunhão. Sempre encontro comunhão quando o leio. As grandes comunhões não acontecem em meio aos risos da festa. Elas acontecem, paradoxalmente, na ausência do outro. Quem ama sabe disso. É precisamente na ausência que a proximidade é maior. Bachelard, ausente: eu o abracei agradecido por ele assim me entender tão bem. Como ele observa, “parece que há em nós cantos sombrios que toleram apenas uma luz bruxoleante. Um coração sensível gosta de valores frágeis“. A vela solitária de Bachelard iluminou meus cantos sombrios, fez-me ver os objetos que se escondem quando há mais gente na cena. E ele faz uma pergunta que julgo fundamental e que proponho a você, como motivo de meditação: “Como se comporta a Sua Solidão?“ Minha solidão? Há uma solidão que é minha, diferente das solidões dos outros? A solidão se comporta? Se a minha solidão se comporta, ela não é apenas uma realidade bruta e morta. Ela tem vida.

Entre as muitas coisas profundas que Sartre disse, essa é a que mais amo: “Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você.“ Pare. Leia de novo. E pense. Você lamenta essa maldade que a vida está fazendo com você, a solidão. Se Sartre está certo, essa maldade pode ser o lugar onde você vai plantar o seu jardim.

Como é que a sua solidão se comporta? Ou, talvez, dando um giro na pergunta: Como você se comporta com a sua solidão? O que é que você está fazendo com a sua solidão? Quando você a lamenta, você está dizendo que gostaria de se livrar dela, que ela é um sofrimento, uma doença, uma inimiga... Aprenda isso: as coisas são os nomes que lhe damos. Se chamo minha solidão de inimiga, ela será minha inimiga. Mas será possível chamá-la de amiga? Drummond acha que sim:

“Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência. A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.!“

Nietzsche também tinha a solidão como sua companheira. Sozinho, doente, tinha enxaquecas terríveis que duravam três dias e o deixavam cego. Ele tirava suas alegrias de longas caminhadas pelas montanhas, da música e de uns poucos livros que ele amava. Eis aí três companheiras maravilhosas! Vejo, frequentemente, pessoas que caminham por razões da saúde. Incapazes de caminhar sozinhas, vão aos pares, aos bandos. E vão falando, falando, sem ver o mundo maravilhoso que as cerca. Falam porque não suportariam caminhar sozinhas. E, por isso mesmo, perdem a maior alegria das caminhadas, que é a alegria de estar em comunhão com a natureza. Elas não vêem as árvores, nem as flores, nem as nuvens e nem sentem o vento. Que troca infeliz! Trocam as vozes do silêncio pelo falatório vulgar. Se estivessem a sós com a natureza, em silêncio, sua solidão tornaria possível que elas ouvissem o que a natureza tem a dizer. O estar juntos não quer dizer comunhão. O estar juntos, frequentemente, é uma forma terrível de solidão, um artifício para evitar o contato conosco mesmos. Sartre chegou ao ponto de dizer que “o inferno é o outro.“ Sobre isso, quem sabe, conversaremos outro dia... Mas, voltando a Nietzsche, eis o que ele escreveu sobre a sua solidão:

“Ó solidão! Solidão, meu lar!... Tua voz – ela me fala com ternura e felicidade! Não discutimos, não queixamos e muitas vezes caminhamos juntos através de portas abertas. Pois onde quer que estás, ali as coisas são abertas e luminosas. E até mesmo as horas caminham com pés saltitantes.

Ali as palavras e os tempos poemas de todo o ser se abrem diante de mim. Ali todo ser deseja transformar-se em palavra, e toda mudança pede para aprender de mim a falar.“

E o Vinícius? Você se lembra do seu poema O operário em construção? Vivia o operário em meio a muita gente, trabalhando, falando. E enquanto ele trabalhava e falava ele nada via, nada compreendia. Mas aconteceu que, “certo dia, à mesa, ao cortar o pão, o operário foi tomado de uma súbita emoção ao constatar assombrado que tudo naquela casa – garrafa, prato, facão – era ele que os fazia, ele, um humilde operário, um operário em construção (...) Ah! Homens de pensamento, não sabereis nunca o quando aquele humilde operário soube naquele momento! Naquela casa vazia que ele mesmo levantara, um mundo novo nascia de que nem sequer suspeitava. O operário emocionado olhou sua própria mão, sua rude mão de operário, e olhando bem para ela teve um segundo a impressão de que não havia no mundo coisa que fosse mais bela. Foi dentro da compreensão desse instante solitário que, tal sua construção, cresceu também o operário. (...) E o operário adquiriu uma nova dimensão: a dimensão da poesia.“

Rainer Maria Rilke, um dos poetas mais solitários e densos que conheço, disse o seguinte: “As obras de arte são de uma solidão infinita.“ É na solidão que elas são geradas. Foi na casa vazia, num momento solitário, que o operário viu o mundo pela primeira vez e se transformou em poeta.

E me lembro também de Cecília Meireles, tão lindamente descrita por Drummond:

“...Não me parecia criatura inquestionavelmente real; e por mais que aferisse os traços positivos de sua presença entre nós, marcada por gestos de cortesia e sociabilidade, restava-me a impressão de que ela não estava onde nós a víamos... Distância, exílio e viagem transpareciam no seu sorriso benevolente? Por onde erraria a verdadeira Cecília...“

Sim, lá estava ela delicadamente entre os outros, participando de um jogo de relações gregárias que a delicadeza a obrigava a jogar. Mas a verdadeira Cecília estava longe, muito longe, num lugar onde ela estava irremediavelmente sozinha.

O primeiro filósofo que li, o dinamarquês Soeren Kiekeggard, um solitário que me faz companhia até hoje, observou que o início da infelicidade humana se encontra na comparação. Experimentei isso em minha própria carne. Foi quando eu, menino caipira de uma cidadezinha do interior de Minas, me mudei para o Rio de Janeiro, que conheci a infelicidade. Comparei-me com eles: cariocas, espertos, bem falantes, ricos. Eu diferente, sotaque ridículo, gaguejando de vergonha, pobre: entre eles eu não passava de um patinho feio que os outros se compraziam em bicar. Nunca fui convidado a ir à casa de qualquer um deles. Nunca convidei nenhum deles a ir à minha casa. Eu não me atreveria. Conheci, então, a solidão. A solidão de ser diferente. E sofri muito. E nem sequer me atrevi a compartilhar com meus pais esse meu sofrimento. Seria inútil. Eles não compreenderiam. E mesmo que compreendessem, eles nada podiam fazer. Assim, tive de sofrer a minha solidão duas vezes sozinho. Mas foi nela que se formou aquele que sou hoje. As caminhadas pelo deserto me fizeram forte. Aprendi a cuidar de mim mesmo. E aprendi a buscar as coisas que, para mim, solitário, faziam sentido. Como, por exemplo, a música clássica, a beleza que torna alegre a minha solidão...

A sua infelicidade com a solidão: não se deriva ela, em parte, das comparações? Você compara a cena de você, só, na casa vazia, com a cena (fantasiada) dos outros, em celebrações cheias de risos... Essa comparação é destrutiva porque nasce da inveja. Sofra a dor real da solidão porque a solidão dói. Dói uma dor da qual pode nascer a beleza. Mas não sofra a dor da comparação. Ela não é verdadeira.

Mas essa conversa não acabou: vou falar depois sobre os companheiros que fazem minha solidão feliz.


(Correio Popular, 30/06/2002)

sábado, 22 de dezembro de 2007

escrevo o que não sou



Rubem Alves


Há uma pergunta que, quando feita a um poeta ou escritor, dói mais que picada de escorpião. A mim, pessoalmente, nunca fizeram. Mas fizeram a amigos meus. “Ele é do jeito mesmo como ele escreve?” É uma pergunta nascida do amor: acharam bonitas as coisas que escrevi e agora estão curiosos para saber se me pareço com o que escrevo. Como disse, nunca me fizeram a pergunta, diretamente. Mas eu respondo: “Não, eu não sou igual ao que escrevo”. Sou um fingidor.

Quem disse isso, que o poeta é um fingidor, foi Fernando Pessoa:

O poeta é um fingidor.

Finge tão completamente

Que chega a fingir que é dor

A dor que deveras sente.


Fingir é palavra feia. Sugere uma mentira, com o intuito de enganar. No mundo de Fernando Pessoa, ela tem um outro sentido. Fingimento é aquilo que faz o ator no teatro: para representar ele tem que “fingir” sentimentos que não são dele. E finge tão completamente, que sente, realmente, uma dor que não é dele, mas de um personagem fictício, ausente. Assim é o poeta. Como pessoa comum, ele sofre. Essa pessoa sofredora não sabe escrever poemas. Ela só sabe sofrer. Mas nessa pessoa que sofre mora um outro, o poeta, seu duplo, heterônimo. Esse poeta olha para si mesmo, sofredor, e “finge”: deixa-se possuir por aquela dor que é dele como se fosse de um outro; “chega a fingir que é dor a dor que deveras sente”.


Sou um fingidor. O que escrevo é melhor que eu. Finjo ser um outro. O texto é mais bonito que o escritor. Fernando Pessoa se espantava com isso. Ele tinha clara consciência de que ele era muito pequeno comparado com a sua obra. Num dos seus poemas ele diz o seguinte:

Depois de escrever, leio... Por que escrevi isto? Onde fui buscar isto?


De onde me veio isto? Isto é muito melhor do que eu...

Vinha-lhe então a suspeita de que aquilo que ele escrevia não era obra dele, mas de um outro:

Seremos nós neste mundo apenas canetas com tinta

Com que alguém escreve a valer o que nós aqui traçamos?


Contaram-me que ele, Fernando Pessoa, certa vez, aceitou encontrar-se com Cecília Meirelles, e marcaram lugar, data e hora para o dito encontro. Cecília compareceu e esperou. Pessoa não foi e mandou, no seu lugar, um menino com uma desculpa esfarrapada. Esse incidente sempre me intrigou. Será que Pessoa era um grosseiro indelicado? Depois, lendo o Livro do desassossego, de Bernardo Soares, encontrei uma curta afirmação que esclareceu tudo: “Nunca pude admirar um poeta que me foi possível ver”. Ao marcar o encontro com Cecília, movido por delicadeza ou entusiasmo, ele se esquecera disso. Foi só na hora que se lembrou. Cecília amava os seus poemas. Na ausência, certamente, fizera aquilo que todos fazem: imaginou que o poeta se parecia com seus poemas. Agora, em algum hotel de Lisboa, ela se preparava para se encontrar com a beleza dos poemas na sua forma viva, verbo feito carne. A decepção seria muito grande. “Nunca pude admirar um poeta que me foi possível ver”. Assim, para poupar Cecília da decepção, ele preferiu não aparecer.

Àqueles que fazem essa pergunta a meu respeito, que imaginam que eu possa ser parecido com o que escrevo, aconselho: “Não compareçam ao encontro. Fiquem com o texto”.

Não é mentira, não é falsidade: a poesia é sempre assim. A poesia não é uma expressão do ser do poeta. A poesia é uma expressão no não-ser do poeta. O que escrevo não é o que tenho: é o que me falta. Escrevo porque tenho sede e não tenho água. Sou pote. A poesia é água. O pote é um pedaço de não-ser cercado de argila por todos os lados, menos um. O pote é útil porque ele é um vazio que se pode carregar. Nesse vazio que não mata a sede de ninguém pode-se colher, na fonte, a água que mata a sede. Poeta não se parece com poesia. O pote contém a água. No corpo do poeta estão as nascentes da poesia.

Escher, o desenhista mágico holandês, tem um desenho chamado Poça de lama: numa estrada encharcada pela chuva um caminhão deixou as marcas dos seus pneus, onde a água barrenta se empoçou. Coisas feias e sujas, as marcas dos pneus de um caminhão, cheias de água barrenta: nenhum turista seria tolo de fotografar uma delas, quando há tantas coisas coloridas para serem fotografadas. Pois Escher desenhou uma delas. E o que ele viu é motivo de espanto: na superfície de lamaé motivo de espanto: na superfície de lama suja, refletidas, as copas dos pinheiros contra o céu azul.

Pensei que o poeta é isso: poça de lama onde se reflete algo que ela mesma não contém. A copa dos pinheiros contra o céu azul não está dentro da lama, não é parte do ser da poça de lama. Apenas reflexão: mora no seu não-ser.

Pensei que assim é o poeta: poça de lama onde o céu se reflete.

Nietzsche, escrevendo sobre a poesia de Ésquilo, diz que ela “é apenas uma imagem luminosa de nuvens e céu refletida no lago negro da tristeza”. E Fernando Pessoa, no poema daquele verso que todo mundo canta – Valeu a pena? Tudo vale a pena/ Se a alma não é pequena -, diz o seguinte: Deus ao mar o perigo e o abismo deu, mas nele é que espelho o céu. É essa contradição: o céu se fazendo visível, refletido, na poça de lama, no lago negro da tristeza, no perigo e no abismo do mar.

Não. Não escrevo o que sou. Escrevo o que não sou. Sou pedra. Escrevo pássaro. Sou tristeza. Escrevo alegria. A poesia é sempre o reverso das coisas. Não se trata de mentira. É que nós somos corpos dilacerados – “oh, pedaço arrancado de mim!”. O corpo é o lugar onde moram as coisas amadas que nos foram tomadas, presença de ausências, daí a saudade, que é quando o corpo não está onde está... O poeta escreve para invocar essa coisa ausente. Toda poesia é um ato de feitiçaria cujo objetivo é tornar presente e real aquilo que está ausente e não tem realidade.

Enquanto pensava sobre essa crônica ouvi, por acaso, aquela balada que diz: “Like a bridge over troubled waters” – “como uma ponte sobre as águas revoltas...” Letra e música sempre me comoveram. Na liturgia do casamento do meu filho Sérgio com a Carla, liturgia que preparei, pedi ao Décio, cirurgião pianista, que tocasse essa canção: pois isso é o máximo que alguém pode ser para a pessoa amada: ponte sobre águas revoltas. Pensei, então que eu sou “águas revoltas” (onde eu mesmo quase me afogo). O que escrevo é uma ponte de palavras que tendo construir para atravessar o rio.

Assim, considero respondida a pergunta: não sou igual ao que escrevo. Guardem o conselho de Fernando Pessoa. É mais seguro não comparecer ao encontro.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

Eu sei que vou te amar II

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- Mulher, me escuta... não é possível, deve haver a possibilidade de um ser humano escutar o outro um dia... eu sempre tenho a sensação que você não me entendeu nunca... ou melhor... eu sempre sinto que fico aquém das palavras... eu nunca consegui me explicar com você... nunca consegui passar o que sinto... o que eu sinto por você... eu queria... eu sei que é loucura... dizer uma palavra e atingir a significação plena... ser entendido, entende?

- Não.

- É o seguinte: deve haver uma palavra que, uma vez dita, muda o mundo... parece que tem um rio no meio de nós dois... e eu falo e não tem rio... aí olho e tem... eu quero dizer a você a verdade... eu te proponho... nada... a verdade é que... eu não sei por que te chamei aqui... acordei de manhã e tinha uma luz elétrica na minha mão... minha mão dava choque e o fone do telefone brilhava e minha mão foi atraída pelo fone e eu tinha que absolutamente te falar... eu tenho alguma coisa para te falar e eu não sei o que é... eu quero te falar uma coisa... mas não sei o que é... quero dizer tudo... quero que minha alma saia pela boca e eu fique estatelado morto aí no tapete feito um atropelado... nu... absolutamente visível... transparente... quero dizer tudo que eu posso para você... e... eu tenho de dar minha alma... que merda de porra de literatura escrota... mas eu não sei o que falar... eu quero...

O que será que ele está querendo?

- Eu não estou querendo nada... só a verdade...

Meu Deus... adivinhou meu pensamento... bobagem... coincidência...




trecho do livro Eu sei que vou te amar, de Arnaldo Jabor

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

mais um ano!

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Para mim, idade nada tem a ver com maturidade, o espelho da alma está no mais profundo dos gestos, portanto, serão suas atitudes que quantificarão a sua real idade, e não a data de nascimento. Entretanto, nada te impede de aliar a criança que existe dentro de você a um adulto, visto que uma coisa é ser infantil outra totalmente diferente é ser criança... E eu sou assim, um pouco menina, um pouco mulher, um tanto louca, um tanto sensata, as vezes verde, as vezes laranja, sempre feliz, sempre sincera. Caminhando a cada dia para ser melhor e vivendo o que a vida tem para me oferecer!



Thayze Darnieri

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

Eu sei que vou te amar I






"O que se vê, antes não era; e o que era, não é mais."






Leonardo da Vinci






Epígrafe do livro Eu sei que vou te amar, de Arnaldo Jabor

terça-feira, 18 de dezembro de 2007

péssima memória!

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"A vantagem de ter péssima memória é divertir-se muitas vezes com as mesmas coisas boas como se fosse a primeira vez."





Friedrich Nietzsche

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

orgulho

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"Prefiro citar a opinião dos outros sobre mim. Dizem que sou modesto. Pelo contrário, sou tão orgulhoso que acho que nunca escrevi algo a minha altura."


Mario Quintana

domingo, 16 de dezembro de 2007

utopia

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"A educação faz um povo fácil de ser liderado, mas difícil de ser dirigido; fácil de ser governado, mas impossível de ser escravizado."



Henry Peter

sábado, 15 de dezembro de 2007

o soluço de uma amizade

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''As amizades nascem do acaso. Ou de alguma força que faz com que uma simples brincadeira, uma informação, um caderno emprestado, uma dor seja capaz de unir duas pessoas. E a cumplicidade vai ganhando corpo e o desejo de estar junto vai aumentando e, com ele, a sensação sempre boa do poder partilhar, de se doar."


Gabriel Chalita

sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

vibrações

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"Apóio de leve a mão na eletrola e a mão vibra espraiando ondas pelo corpo todo: assim ouço a eletricidade da vibração, substrato último no domínio da realidade, e o mundo treme nas minhas mãos. Quanto à música, depois de ser tocada, para onde ela vai? Música só tem de concreto o instrumento. Bem atrás do pensamento tenho um fundo musical."





Clarice Lispector

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

minha alegria

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"A felicidade é coisa sem jeito, mas com ela eu me ajeito. Não forço para que seja como quero, apenas acolho sua chegada, quando menos espero. E então sorrio, como quem sabe, que quando ela chega, o melhor é nao dispensar as forças... E aí sou feliz por inteiro na pequena parte que me cabe. O que hoje você tem diante dos olhos? Merece um sorriso? Não pense duas vezes..."




Pe. Fabio de Melo

quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

para que se vive?

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Tati Bernardi


Sempre me perguntei pra que se vive, afinal. Quando eu era criança achava que eu vivia porque assim meus pais queriam. Me colocaram no mundo, me deram de comer, me compraram arquinhos de cabelo que combinavam com o vestidinho. Me entucharam de brinquedos e de alertas. O mínimo que eu podia fazer por eles era seguir respirando, acordando, passando fio dental, indo ao banheiro pelo menos depois de comer ameixa.

Depois, quando eu era adolescente, achei que a gente vivia para gostar de alguém. Se tivesse ao menos um garoto bonitinho na escola, valia a pena acordar cedo. Se tivesse ao menos um garoto bonitinho no inglês, valia a pena abrir mão da sonequinha da tarde. Se tivesse ao menos um garoto bonitinho irmão de uma amiga, valia a pena encher o saco da minha mãe para dormir na casa da amiga. Só podia ser isso! Ou se vive pra estudar matemática? Geografia? Comer legumes? Não podia ser. A única coisa que podia ser, era viver pra sentir o coração disparar por qualquer garotinho bonitinho. De preferência um que tivesse sardinhas no rosto ou furinho no queixo.

No final da adolescência, eu comecei a achar que se vivia pra ser alguém. Entrar na faculdade. Arrumar um emprego. Ser alguém. Fiz tudo isso. Entrei na faculdade. Arrumei 456 empregos os quais larguei 456 vezes. E nesse tempo todo fui vários “alguém” e nenhum alguém 456 vezes. Porque ser alguém não tem nada a ver com essa vontade desesperada de ser alguém. E continuei sem saber afinal para o que se vive. Porque a faculdade e o deslumbre com os primeiros dias de trabalho são espaços curtos demais para uma vida inteira. Não se vive exclusivamente pra isso. Não se vive pra pegar trânsito, ter um chefe que tira uma vírgula sua e coloca em outro lugar só pra mostrar que é seu chefe. Não se vive pra bater cartão e pagar self-service com Visa Vale.

Definitivamente não se vive pra isso. E lá ia eu pedir demissão pra tentar descobrir pra que se vive. Será que para salvar as criancinhas, o planeta, os animaizinhos, os aposentados, as árvores, as praias, as formigas? Não, não se vive pra mudar o mundo, o bairro, meu quarto. Porque a gente não muda nem o jeito de escovar os dentes. Essa é a verdade.

Daí achei que vivemos para fazer o que gostamos e ponto final. Como se fosse uma missão para a qual Deus nos enviou. E a minha era escrever, escrever, escrever. Programas de TV, colunas em revistas, novelas, livros, filmes. Tudo. Eu vivia para ter sucesso nisso. E então vim trabalhar em casa e mergulhei nisso da maneira desajeitada de sempre. Mas descobri que comer a Gisele Bundchen numa ilha deserta é o mesmo que punheta. Que graça tem lançar um livro se você não tem amigos pra ligar e falar “porra, cara, vou lançar um livro!”. Nenhuma.

Aí achei então que se vive para as pessoas. Se você tem dez pessoas de quem gosta muito, taí um motivo para se viver. E eu gostava mais ou menos disso: de dez pessoas. E vivia para isso. Para no final do dia tomar um vinho com uma dessas pessoas e brindar o mistério que é não saber pra que se vive. E eu e minhas dez pessoas viveríamos bem até os últimos dias...Mas não é bem assim que funciona, vocês sabem. As pessoas casam, mudam de pais, resolvem ficar chatas, resolvem te achar chata, resolvem não beber mais vinho. Infelizmente não se vive para as pessoas. E quanto mais os anos passam mais você descobre que as mil pessoas maravilhosas viram cem que viram dez que viram duas. E essas duas são insuportáveis, mas são as que sobraram. E você intercala as duas pra não se irritar em dobro.

Ahhh tudo é tão chato, não é mesmo? Foi então que descobri que talvez se viva para dormir. Comprei uma cama gostosa, colchão bom, enchi de almofadas, colei borboletas na parede. Minha casa não tem telefone. Dormir, dormir, dormir. Para nunca mais pensar pra que se vive. E quem disse que dá certo? Eu sonhava toda noite que percorria o mundo atrás da mesma pergunta. E sonhava com velhos sábios, meus coleguinhas do primário, minha professora de yoga, meu 456 ex namorados (definitivamente não se vive para nenhum deles, até porque se você faz isso, eles saem correndo rapidinho), meu avô, um rato morto, um assaltante, a novela das oito, sei lá. Eu percorria o mundo atrás da resposta. E acordava cansada e com mais sono. Esse negocio de dormir não resolve o problema de ninguém.

Aí um dia, depois de uma dessas noites de correr o cérebro, acordei com uma idéia fixa: nascemos pra gerar vida! Sim, eu precisava ser mãe. E fiquei obcecada pela idéia. Eu, um ser com a conta vermelha, sem papel higiênico e sem namorado, louca pra ser mãe. Mas não foi isso que minha mãe fez comigo? Achou que a razão da sua vida era ser mãe...bom, ela não é das pessoas mais felizes do mundo e eu não sou das pessoas mais bem resolvidas do mundo por ser o centro da vida dela. Não, não se vive para ser mãe. É lindo ser mãe, mas não pode ser a única coisa da vida de um ser.

E segui procurando. Talvez a gente viva pra conhecer o mundo, pra andar numa motoquinha em Paris, pra ouvir todas as músicas lindas, pra ler todos os livros bons, pra fazer sexo com amor, pra sair dando pra meio mundo, pra pagar os pecados, pra dançar, pra quebrar o pau com todo mundo, pra ser superficial ou leve e adorar todo mundo como se fosse possível viver em paz aceitando todos e sendo aceita. Pra malhar a bunda, pra chorar num concerto no Teatro Municipal, pra comer um doce, pra ver o Wagner Moura com aquela cara de macho, pra assistir “Love in the Afternoon” do Billy Wilder, pra levar a Lolita no dentista de cachorros, pra olhar ele pela última vez que nunca é a última vez e chorar pela última vez que nunca é a última vez. Tudo isso? Nada disso? E segui procurando.

Então pra que? Pra quem? Por que? Por que acordo todos os dias? Se eu sinto prazer em escrever é para que alguém leia. Alguém que certamente vai me magoar um dia. E vai embora. Se eu ganho dinheiro é para comprar coisas que um dia vão acabar. Se eu rezo é para ter uma paz que daqui a pouco vai embora. Tudo vai embora. Todos vão embora. Se tudo acaba, então, meu Deus, pra que se vive? Pra que?

E nessa de tanto perguntar, não é que descobri! Eu acho, de verdade, do fundo da minha alma, que se vive única e exclusivamente para se viver.

terça-feira, 11 de dezembro de 2007

as duas pulgas

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Muitas empresas caíram e caem na armadilha das mudanças drásticas de coisas que não precisam de alteração, apenas aprimoramento. O que lembra a história de duas pulgas.


Duas pulgas estavam conversando e então uma comentou com a Outra:


- Sabe qual é o nosso problema? Nós não voamos, só sabemos saltar. Daí nossa chance de sobrevivência quando somos percebidas pelo cachorro é zero. É por isso que existem muito mais moscas do que pulgas.


E elas contrataram uma mosca como consultora, entraram num programa de reengenharia de vôo e saíram voando. Passado algum tempo, a primeira pulga falou para a outra:


- Quer saber? Voar não é o suficiente, porque ficamos grudadas ao corpo do cachorro e nosso tempo de reação é bem menor do que a velocidade da coçada dele. Temos de aprender a fazer como as abelhas, que sugam o néctar e levantam vôo rapidamente.


E elas contrataram o serviço de consultoria de uma abelha, que lhes ensinou a técnica do chega-suga-voa. Funcionou, mas não resolveu. A primeira pulga explicou por quê:


- Nossa bolsa para armazenar sangue é pequena, por isso temos de ficar muito tempo sugando. Escapar, a gente até escapa, mas não estamos nos alimentando direito. Temos de aprender como os pernilongos fazem para se alimentar com aquela rapidez.


E um pernilongo lhes prestou uma consultoria para incrementar o tamanho do abdômen. Resolvido, mas por poucos minutos. Como tinham ficado maiores, a aproximação delas era facilmente percebida pelo cachorro, e elas eram espantadas antes mesmo de pousar. Foi aí que encontraram uma saltitante pulguinha:


- Ué, vocês estão enormes! Fizeram plástica?


- Não, reengenharia. Agora somos pulgas adaptadas aos desafios do século XXI. Voamos, picamos e podemos armazenar mais alimento.


- E por que é que estão com cara de famintas?


- Isso é temporário. Já estamos fazendo consultoria com um morcego, que vai nos ensinar a técnica do radar. E você?


- Ah, eu vou bem, obrigada. Forte e sadia.


Era verdade. A pulguinha estava viçosa e bem alimentada. Mas as pulgonas não quiseram dar a pata a torcer:


- Mas você não está preocupada com o futuro? Não pensou em uma reengenharia?


- Quem disse que não? Contratei uma lesma como consultora.


- O que as lesmas têm a ver com pulgas?


- Tudo. Eu tinha o mesmo problema que vocês duas. Mas, em vez de dizer para a lesma o que eu queria, deixei que ela avaliasse a situação e me sugerisse a melhor solução. E ela passou três dias ali, quietinha, só observando o cachorro e então ela me deu o diagnóstico.


- E o que a lesma sugeriu fazer?


- "Não mude nada. Apenas sente no cocuruto do cachorro. É o único lugar que a pata dele não alcança".


MORAL: Você não precisa de uma reengenharia radical para ser mais eficiente. Muitas vezes, a GRANDE MUDANÇA é uma simples questão de reposicionamento.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

a ilusão da paixão

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"Paixão é uma infinidade de ilusões que serve de analgésico para a alma. As paixões são como ventanias que enfurnam as velas dos navios, fazendo-os navegar; outras vezes podem fazê-los naufragar, mas se não fossem elas, não haveriam viagens nem aventuras nem novas descobertas."


Voltaire

domingo, 9 de dezembro de 2007

abra a sua mente!

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"A mente que se abre a uma nova idéia jamais voltará ao seu tamanho original."



Albert Einstein

sábado, 8 de dezembro de 2007

a tentação do prazer

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"A tentação do prazer. A tentação é comer direto na fonte. A tentação é comer direto na lei. E o castigo é não querer mais parar de comer, e comer-se a si próprio que sou matéria igualmente comível. E eu procurava a danação como uma alegria. Eu procurava o mais orgíaco de mim mesma. Eu nunca mais repousaria: eu havia roubado o cavalo de caçada de um rei da alegria."




Clarice Lispector

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

O retrado de Dorian Gray II

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"... os que não amam senão uma vez na vida são os verdadeiramente superficiais. Os que eles chamam de lealdade e fidelidade eu chamo a letargia do costume ou a falta de imaginação. A fidelidade é, para a vida emocional, o que a estabilidade é para a vida intelectual: uma simples confissão de fracassos. Fidelidade! Algum dia vou analisá-la. Acha-se nela a paixão da propriedade. Há muitas coisas que abandonaríamos se não temêssemos que outros as apanhassem."





Lorde Henry Wotton por Oscar Wilde
trecho do livro O Retrato de Dorian Gray

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

auto-suficiente

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"As pessoas não estão neste mundo para satisfazer nossas expectativas, assim como não estamos aqui para satisfazer as delas. Temos que nos bastar. Nos bastar sempre e, quando procurarmos estar com alguém, fazer isso cientes de que estamos juntos porque gostamos, porque queremos e nos sentimos bem, nunca por precisar de alguém. As pessoas não se precisam. Elas se completam não por serem metades, mas por serem pessoas inteiras, dispostas a dividir objetivos comuns, alegrias e vida. Nunca se abandone."






Mário Quintana

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

Jesus é Brasiliense






Wagner Moura



Eu estava indo para o Projac gravar Carga Pesada, quando olhei para o piso do lado do carona e vi que ali tinha nascido um cogumelo de aproximadamente 10 centímetros. Parei na concessionária e mostrei o piso do carro ao homem que me atendeu. Os mecânicos ficaram espantados. Ninguém tinha visto coisa semelhante. O carro ia ter que dormir lá. Ainda havia meia hora até a gravação. Me sentei no meio-fio e pensei em o quanto era difícil parar de fumar. Foi quando o celular tocou e San, com voz seca, disse que o João tinha me ligado. ‘‘Tem certeza?’’, perguntei. ‘‘É melhor você vir para casa’’ , ela respondeu. ‘‘Ele deixou um recado para você na secretária’’, completou. ‘‘Quando eu chegar escuto. Fica calma. Te amo.’’ Desliguei. Estava dentro do táxi, quando a produção me ligou cancelando a gravação por causa da chuva. Agora eu só gravaria de novo na semana seguinte. Pedi ao motorista para fazer o retorno e voltei para casa.


Até Botafogo, na bandeira 2, a corrida dava uns R$ 40,00, mas eu só fui começar a pensar no João lá para os R$ 13,50. Ele era para mim o que os mais românticos chamam de melhor amigo. Nossos pais serviram juntos na Aeronáutica; sargentos. Eu e João Batista vivemos a mesma infância. Entramos para o teatro juntos e ele era, sem dúvida, o maior talento que eu tinha visto na vida. Tudo que ele fazia pulsava, havia verdade, havia emoção.


Ele era a coisa mais impressionante que eu tinha visto num palco depois de Maria Bethânia. Eu o admirava. Eu o invejava até. Ele era mais bonito, mais talentoso, mais bondoso e mais inteligente do que eu. E havia também o imperdoável: ele não queria ser ator. Era demais! Eu, que não tinha um terço do seu talento, esforçava-me para estudar e fazer testes e ele não estava nem aí. Nunca ia a uma audição e recusava convites que eu daria tudo para receber. O que ele curtia era ir dar aula de teatro em comunidade carente de Brotas. Dizia que cada ator tem a Hollywood que almeja. Eu não entendia o que ele queria dizer.


Era ator conhecido em Salvador quando resolveu ir morar em aldeia hippie no Vale do Capão, Chapada Diamantina. Lá eles plantavam o que comiam e o que fumavam. Nos falávamos por telefone, ou quando eu ia passar uns dias com ele na comunidade. Eram poucas vezes, mas continuávamos sintonizados. Os melhores amigos. E ele era muito feliz lá, e era isso que importava. Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é, só que eu não podia deixar de achar um desperdício ver aquele cometa de luz vivendo de vender artesanato, trabalhar na lavoura e dar aula na escolinha rural.


Paguei ao taxista mal-humorado e, só então, em frente do meu prédio, comecei a ficar apreensivo com o recado que João tinha me deixado. Depois de tudo que aconteceu! Quase seis anos sem nos falarmos. San também tinha seus motivos para o nervosismo. Ela sabia o quanto ele era importante para mim e nunca se acostumou com a idéia de ter sido a causa da nossa separação. Quando era fotógrafa de um jornal baiano, ela foi fazer uma matéria sobre comunidades alternativas. Conheceu João. Ele se apaixonou pela primeira vez na vida, mas não conseguiu fazer com que ela soubesse; para essas coisas ele era tímido. Eu deveria ter sido o cupido. Foi para mim que ele ligou pedindo que eu a achasse em Salvador e contasse que tinha um homem lindo na Chapada que a amava. E eu a procurei. E casei com ela. João sumiu e eu nunca mais o vi. Faz seis anos.


Sentado no chuveiro


E o recado na secretária dizia exatamente assim: ‘‘Wagner, estou em Planaltina. Venha me ver imediatamente. Só você pode me ajudar.’’ Perguntei a Sandra como ela sabia que era a voz de João. Ela não me respondeu e eu sabia que não precisava. Ele não precisava se identificar. Aquilo era para homens comuns.


Fui tomar um banho e decidi ignorar o telefonema. Ele devia estar era muito doido em algum lugar do Planalto Central. Eu não ia me despencar do Rio de Janeiro até Brasília só para acertar as contas com o passado. Eu, aliás, não devia nada a ninguém. Ele que se fodesse. Ele foi quem fugiu. Maluco. Não me deu chance de conversar. Sumiu no mundo e me deixou a culpa. Agora queria me atormentar como uma porra de um fantasma. Que se foda! Fui homem para assumir o meu amor, mesmo sabendo que era o amor do meu irmão. Eu me recusei a me sacrificar, eu o procurei para contar tudo e só obtive em troca um olhar de misericórdia como se eu fosse um verme diante do melhor homem do mundo. Eu não fui digno de nem uma palavra. Naquela noite ele só me olhou, virou as costas e sumiu do mapa para só agora me deixar um recado (ainda ignoro como conseguiu meu telefone), dizendo que estava em Planaltina e que eu precisava vê-lo imediatamente.


Quem ele pensava que era? Seis anos se passaram! Nem moro mais em Salvador! Será que ele assistiu ao Deus é Brasileiro? Será que ele sabia que eu e San continuávamos casados e felizes? Será que ele veio me cobrar o que ele achava ser dele por direito? Ou será que era só o melhor e mais luminoso amigo que eu tive precisando de mim? ‘‘Só você pode me ajudar’’, ele dizia. Estava sentado embaixo do chuveiro, como gosto de fazer, quando San abriu a porta e disse: ‘‘Eu acho que você tem que ir lá’’.


O táxi para o Galeão, na bandeira 1, custou R$ 22,00. O meu carro, livre dos cogumelos, só poderia ser entregue na sexta. O vôo da Vasp atrasou três longas horas. Eu ainda não sabia onde iria ficar nem fazia a menor idéia de como encontrar João na cidade de Planaltina, que ficava muito perto de Brasília.


Duas Planaltinas


Quando cheguei ao aeroporto da Capital Federal me senti um completo idiota. Depois de alguns minutos parado no saguão, tive a idéia de ligar para Sérgio Maggio. Serginho fora meu colega na Faculdade de Comunicação da UFBa e agora trabalhava no Correio Braziliense. Havíamos nos falado por telefone há alguns meses, quando ele fez uma entrevista comigo para o jornal. É estranho dar entrevista para os amigos. Liguei para Serginho e combinamos de almoçar num shopping. Expliquei que precisava encontrar um amigo em Planaltina, que provavelmente deveria estar em alguma comunidade hippie. Sérgio me disse então que havia algumas em Alto Paraíso, a mais ou menos duas horas de Brasília, mas que em Planaltina ele nunca tinha ouvido falar de comunidade nenhuma. ‘‘A não ser...’’, disse ele, ‘‘...que seja em Planaltina de Goiás.’’ Mais essa agora.


Enquanto pagávamos a conta, Sérgio me contou que o Planalto Central era para alguns, quer pela localização, quer pela concentração de cristais, o grande centro da espiritualidade mundial. Por essa razão havia tantas seitas, religiosos e esotéricos na região. Por coincidência, ele estava indo naquele momento fazer uma matéria num lugar chamado Vale do Amanhecer, onde uma das seitas mais conhecidas realizava seus rituais calcados no espiritismo. Os integrantes trajavam roupas medievais e se reuniam em grande complexo encravado num vale. Serginho me indicou o hotel Naoum e me deu uma carona até lá. Na porta, pedi que me esperasse um pouco, dei entrada na recepção, deixei minhas coisas no quarto e fui com ele para o Vale do Amanhecer.


No caminho apanhamos Jefferson, o fotógrafo, e seguimos pelo cerrado enquanto eu me perguntava o que tinha me levado a, já na porta do hotel, tomar a brusca decisão de ir para aquele lugar. Talvez fosse porque eu não tivesse a menor idéia de como encontrar João ou porque aquela situação estivesse tão absurda que acompanhar os dois ao Vale do Amanhecer não era tão estranho. Jefferson se queixava o tempo todo e aquilo começou a me encher o saco. Dizia que estava com dor de cabeça e comecei a perceber que ele estava era com medo. O Gol de Sérgio parou em frente ao Vale.


Isqueiro ou batom


A sensação era a de estar na corte do Rei Arthur. Nas paredes, imagens que iam de caboclos a figuras indianas e, nas galerias, vários médiuns incorporados, devidamente paramentados, davam conta de seus serviços. Era como se você, por alguns momentos, voltasse à Roma Antiga, só que dominada por uma crença mística única. Sérgio entrevistava um doutrinador e eu só pensava o quão louco era aquele lugar. Então, pela primeira vez, senti incontrolável e genuína vontade de encontrar João. Eu tinha passado seis anos tentando dizer para mim mesmo que estava tudo bem, que nada de mais tinha acontecido, que a vida era assim mesmo, mas eu sabia que de normal aquilo não tinha nada. Não era normal um homem sumir assim sem deixar vestígios. A polícia o deu como desaparecido, já que um cadáver nunca foi encontrado e eu tive que conviver com essa dor, semelhante à de parentes de desaparecidos da ditadura, até hoje. Mas ali estava a oportunidade de me libertar! Eu nunca deixei de encarar as coisas de frente e era por isso que eu estava ali. Me senti bem. João tinha me ligado, eu não sabia o que ele queria, mas naquele momento tinha certeza de que não estava ali em vão e que encontrá-lo, acontecesse o que acontecesse, era a oportunidade que o universo me dava para ingressar em novo momento da minha vida. Sem culpa, sem noites de insônia e sem pesadelos.


Fui para fora da galeria e percebi que Jefferson e Serginho também tinham saído. Juntos, então, vimos uma cena que poderia entrar em qualquer filme de David Lynch. Uma das doutrinadoras, visivelmente perturbada, pôs um cigarro na boca e sacou do bolso um batom. Durante aproximadamente cinco minutos, essa mulher tentou acender o cigarro com o batom, usando-o como se fosse um isqueiro. No começo, pensei que ela estivesse distraída e fosse perceber o engano, mas, ao contrário, ela tirava a tampa do batom, levantava e abaixava o objeto de tinta rubra e parecia, sinceramente, não entender por que o isqueiro não funcionava. As mãos da mulher começaram a ficar tingidas de vermelho conferindo à cena dramaticidade indescritível. Jefferson, mesmo apavorado, conseguiu fazer muitas fotos, mas ele não esperava que ela fizesse o que fez. Ao fim dos minutos de esquizofrenia dramática, ela parou, aproximou-se de mim e me disse ao pé-do-ouvido: ‘‘Procure por Jesus que você o encontrará amanhã’’, e entrou. Serginho, que acompanhava a cena extasiado, perguntou ao doutrinador por que ela tentava fazer aquilo com o batom. O homem respondeu: ‘‘Aquilo não era um batom, era um isqueiro’’. Foi a deixa para Jefferson juntar seu material e partir em direção ao carro. Agradecemos, eu e Sérgio, e fomos embora.


João de Santo Cristo


Serginho me convidou para jantar na Academia de Tênis, mas me despedi dele e fui para o hotel. Sentia que aquela experiência, dali em diante, tinha que ser vivida só por mim. Fiquei em dúvida se a mulher do batom quis dizer que amanhã eu encontraria Jesus ou se ela estava falando de João. No quarto, adormeci rapidamente pensando no que a mulher tinha me dito. Sonhei com um padre italiano que me banhava de leite e mel ao som de Faroeste Caboclo. O padre tentava acompanhar a música em italiano e João aparecia ao lado dele e dizia que, a partir daquele momento, gostaria de ser chamado de João de Santo Cristo e não mais de João Batista. Acordei assustado e o relógio marcava 21h. Eu precisava tomar um ar e algumas cervejas.


Me lembrei que, quando estive em Brasília com o espetáculo Abismo de Rosas, costumava beber num bar muito popular chamado Beirute. Não era necessário o endereço, qualquer taxista sabia onde ficava. Era uma quarta-feira e o Beirute não estava 100% lotado. Sentei e pedi meu chope. Na mesa ao lado, meninada animada cantava música do Capital Inicial. O Capital, na minha opinião, é a única banda dos anos 80 que voltou melhor do que antes. João adorava o rock de Brasília, a gente ficava horas discutindo o que Tempo Perdido queria dizer. Ele dizia que minha leitura da música era muito óbvia e que para entender a letra eu teria que ler Proust. Duas meninas lindas se aproximaram e perguntaram se poderiam sentar. Disseram que tinham acabado de ver Carandiru e perguntaram se eu não gostaria de ir a uma festa com elas.


A festa era numa casa que parecia um teatro abandonado e não se via um palmo à frente do nariz. Era uma festa cheia daquelas pessoas de cabelos azuis com um mínimo de seis piercings no rosto. Me separei por alguns instantes das meninas e descobri que o point da festa era uma espécie de camarim. Todo mundo se pegando num sensacional ritual dionisíaco; o local não poderia ser mais apropriado. Dei meia-volta e vi as duas meninas se beijando e me olhando, sedutoras. Pedi um cigarro à drag queen mais próxima e voltei a fumar depois de três meses de abstinência. O cigarro me deu coragem para me abster de prazeres mais interessantes, me despedi das meninas e fui embora. No táxi, San me ligou para saber se estava tudo bem. Ela estava meio bêbada no aniversário de Isadora, uma amiga nossa. Disse que estava saindo de uma festa que eu não tinha mais idade para freqüentar e voltava para o hotel. Contei também sobre o cigarro e sobre ainda não ter encontrado João, mas disse que algo me levava a crer que no dia seguinte eu veria Jesus. Ela não entendeu e eu falei para deixar pra lá. Ela disse que me amava muito e que estava orgulhosa e eu desliguei o telefone contente por não ter comido as meninas da festa.


Enigma em inglês


“Whoever trusts Jesus doesn’t waste time.’’ No meu sonho, o padre italiano agora estava em show de calouros e tentava virar garrafa de vinho Dom Bosco de uma só vez. A multidão o incentivava gritando ‘‘vai, vai, vai’’. Atrás dele, João vestido como uma espécie de Sílvio Santos e, atrás de João, um enorme cogumelo igual ao nascido no chão do meu carro, decorado com motivos natalinos, com um luminoso em que se lia ‘‘Whoever trusts Jesus doesn’t waste time.’’


Acordei pelas duas da tarde e resolvi escrever a frase no mapa de Brasília que conseguira na recepção, para não esquecer. Julguei o sonho importante. O plano era almoçar no restaurante do hotel e pegar alguma condução até Planaltina, ou Planaltina de Goiás, àquela altura tanto fazia. Eu me sentia bem e estava determinado a procurar João de Santo Cristo por todo final de semana e ainda era quinta-feira. O garçom, timidamente, perguntou se eu também gostaria de ir ao Templo da LBV. ‘‘Não entendi’’, respondi. ‘‘É um lugar que eu costumo freqüentar. Me desculpe, mas não pude deixar de reparar na frase escrita no seu mapa.’’ A frase, assim mesmo em inglês, ficava na entrada do Templo da Legião da Boa Vontade, na Asa Sul. Resolvi ir até lá.


Era enorme vão, no teto tinha pedra de cristal pesando 21 quilos e, no chão, espiral que simbolizava a evolução do homem e que ia dar em centro que ficava exatamente embaixo do cristal. As pessoas percorriam esse caminho ao som de música apocalíptica e de trechos gravados da Bíblia, bebiam um copo d’água e sentavam para meditar com as cabeças recostadas nos bancos. Participei de todo o ritual e, depois de beber a água, me sentei no banco e vi, recostada à minha frente, a cabeça de João Batista de Santo Cristo.


Confissões do Cristo


Toquei de leve seu ombro e ele se virou, me olhou como se tivesse me visto ontem e disse: ‘‘Precisamos conversar’’. Ele não tinha mudado muito, continuava bonito e com a mesma áurea de bondade. Os cabelos e a barba é que tinham crescido um pouco. Saímos juntos do templo sem dizer uma palavra, lá fora a tarde caía e era o entardecer mais lindo do mundo. Ele me disse, sério, porém sereno, que estava muito feliz de me ver ali e que precisava me dizer uma coisa muito importante. ‘‘Vamos até a Ermida’’, ele falou, ‘‘Meu carro está logo ali.’’


O carro era um Fusca 77 e ele vestia uma camisa com a Virgem Maria. No caminho, continuou calado e eu também não tive vontade de dizer nada. O que eu sentia era paz. Talvez aquele momento no Fusca tenha sido o de maior tranqüilidade por que passei na vida. Eu não quis lhe explicar nada, tinha, durante todos esses anos, repassado na cabeça diversas vezes o momento em que nos encontraríamos. Diria que casei com Sandra porque a amava e não considerava justo ter vergonha de sentimento assim. Quando ele me acusasse de Judas, diria que assim que ficamos juntos eu o procurara para falar tudo, mas que ele tinha sido covarde e perverso, fugindo dali e me deixando todos esses anos com uma tonelada no peito. Mas ali eu não queria dizer nada e de alguma forma sentia que ele também não falaria sobre aquilo e que o assunto em questão era outro.


Na Ermida, o sol se punha com uma beleza só de Brasília. Ficamos um pouco mais em silêncio e João me disse: ‘‘Você está mais magro’’. E nós começamos a rir. Depois, ele tomou um ar mais sério e disse que tinha me chamado ali porque precisava se confessar. ‘‘Procure um padre, porra’’, eu disse brincando, mas dessa vez ele não achou graça e falou que morava há seis anos em Planaltina e que lá conheceu grupo de jovens católicos que vinha utilizando o teatro como instrumento de evangelização. Disse que encontrou na fé católica a explicação para muitas de suas questões e que só não virou padre porque não conseguiu não se apaixonar por uma moça com quem vivia em Planaltina e com quem tinha um filho, que naquele mesmo dia completava um ano. No dia seguinte, ele participaria, pele primeira vez no papel de Cristo, da 29ª Via-Sacra, tradicional encenação ao ar livre no Morro da Capelinha.


‘‘Eu não posso ser crucificado sem me confessar antes e tem uma coisa que não posso dizer a nenhum padre, só a você.’’


‘‘Pois então diga.’’


‘‘Eu não sou Jesus, sou um plágio.’’


Nesse momento senti um frio na espinha. Não era possível que ele tivesse perdido a lucidez. Não era possível que ele tivesse passado de vez para o lado de lá.


‘‘Mas João...’’


‘‘Espere Wagner, eu ainda não terminei. Antes que você pense que eu fiquei louco.’’


E me lançou um olhar idêntico ao daquele dia na Chapada Diamantina em que virou as costas e sumiu por seis anos.


‘‘Amanhã quero que você vá me assistir fazendo o Cristo, mas antes preciso que você me escute. A Páscoa neste ano cai no dia 20 de abril. Foi exatamente o dia em que cheguei aqui em Brasília, há seis anos. Eu não tinha onde dormir e me ajeitei próximo a um ponto de ônibus. De madrugada, vi um homem ser queimado por garotos. Não fiz nada para ajudá-lo. Eles não me viram. Até hoje nunca disse a ninguém que fui testemunha do que aconteceu. Conservei para mim esse mal secreto e confesso que me peguei diversas vezes me deleitando com ele. Não sou quem você pensa que eu sou e creio que você é a única pessoa, além de Deus, a quem eu deva confessar o que quer que seja. Eu não lhe devo nada, você não me deve nada. Somos humanos e temos que carregar esse fardo até o fim da vida. Era isso que queria lhe dizer. Espero que você não se importe em voltar sozinho para seu hotel.’’

Antes dele sair, nossos olhares se cruzaram e o dele me sorriu com misericórdia


Divindade do artista


Sexta-feira da Paixão. Aquilo parecia ser muito maior do que o que se vê na tevê em Nova Jerusalém. Vejo João entrar em cena fazendo Jesus e digo que nunca na minha vida vi uma coisa igual. Todas as milhares de pessoas meio que hipnotizadas pelo poder daquele artista supremo. Na cena da crucificação, o céu, que estava chuvoso, se abriu como num milagre. Creio que nunca nada me impressionará tanto quanto aquele intérprete de Jesus na Paixão de Cristo. Se algum artista algum dia atingiu a perfeição com seu trabalho, ali estava ele, na minha frente. Mozart, Picasso, Fellini, Shakespeare, nada era mais importante do que a simplicidade de João na Via-Sacra de Jesus Cristo. Cada ator tem a Hollywood que almeja. Eu chorava muito porque, enfim, entendia tudo. Sabia que eu não o veria mais.


O avião parou no Santos Dummont por causa de problema na pista do Galeão. Achei ótimo, o táxi daria uns R$ 7,00. Para minha surpresa, sem que eu tivesse combinado e, não sei como ela soube da mudança de aeroportos, San veio me pegar com meu carro, sem cogumelo. Nos beijamos longamente e ela me perguntou se João estava mesmo em Brasília. Respondi que não mais e voltamos para casa. No rádio, Legião.





Rio, madrugada de 13 para 14 de abril de 2003.

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

O não texto

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Tati Bernardi




Você não está lendo um texto. Você está dormindo numa rede, atravessando um farol, comprando um porta-clipes, fazendo arroz integral, prendendo os cabelos, assistindo doctor House, vendo sua cachorra espreguiçar. Sei lá, qualquer coisa. Mas você não está lendo esse texto. Eu também não estou escrevendo pela trigésima vez sobre gostar de alguém. E tentando entender todos os 567 contras e 876 a favor. E tentando metaforizar um cheiro, um olhar, uma frase. E tentando descrever minha dor só para dar a ela algum patamar mais interessante do que a simplicidade de uma simples dor. E tentando supervalorizar minha alegria, só para dar a ela um gosto de vitória como se jamais fosse cotidiano ser feliz.


Eu não estou de frente para uma folha em branco. Tentando tornar meus personagens mais interessante e meus sentimentos mais nobres. Eu estou de frente para eles, vendo que meu personagem pode ser sem graça e meu sentimento pode estar morrendo.


Este é um não texto porque cansei da minha covardia em me contar um mundo que eu invento para viver melhor. Cansei de me contar um personagem só para que suspirar não seja um simples movimento involuntário. Cansei de me contar uma história linda, só para que os dias não corram sem magia e sem a certeza de um grande final de filme.


Imagina só que vida chata se eu, ao invés de escrever um texto de amor, cheio de esperança, profundidade, dor, maluquice, tesão, estivesse escrevendo um texto assim: e ninguém é interessante e eu, pra ser sincera, não gosto de ninguém.


Triste, muito triste. Chato. E pior do que tudo isso: anti-literário. Como é que um escritor vai se sustentar com um coração vazio?


Mas chega. Hoje decidi que estou prestes a assumir meu coração vazio. Não decidi isso movida por uma grande coragem ou por um momento de iluminação. Nada grandioso aconteceu. Apenas sinto que dei um pequeno, quase imperceptível, passo para uma vida mais madura. Eu simplesmente não suporto mais pintar o céu de cor-de-rosa para achar que vale a pena sair da cama.


Não posso mais emprestar mistério ao vazio, vida ao oco, esperança ao defunto, saliva ao seco. Não posso mais emprestar meus desejos para que pessoas se tornem desejáveis. E, finalmente, não posso mais inventar amor só para poder falar dele.


Recebo e-mails de muita gente que me fala “que coragem escrever assim sobre o amor”, “que coragem ir tão fundo na sua dor”, “que coragem sentir tantas coisas a flor da pele”. Mas pelo menos hoje quero me desafiar a fazer algo muito mais difícil. Quero não sentir nada. Quero descansar meu coração de saco cheio das minhas invenções e precisando se preparar para viver algo de verdade.


Como será que é acordar e não esperar nada com o toque do celular, da campainha, do messenger, do e-mail, do ar, do chão? Como será que é sentir e gostar da vida pela sua calmaria e banalidade? Como será que é viver a banalidade sem achar que isso é banal?


Este é um não texto. Pra falar de um não amor. Pra falar de um não homem. Pra falar de uma não fantasia, invenção, personagem. Esse é um texto a favor da vida, pra falar da vida. A vida com seus defeitos, cinzas, brancos, estagnações, paradas, frios, silêncios, amenidades. A vida que pode não acelerar o peito e deixar tudo com estrelinhas de purpurina. Mas que é incrível por ser real.


A vida que não se escreve mas se vive, mesmo que isso, muitas vezes, seja ainda mais difícil que qualquer regra gramatical ou construção literária.

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