sábado, 30 de junho de 2007

do que eles têm medo?

PIOR DO QUE UMA MULHER QUE FALA O QUE PENSA É UMA QUE ESCREVE
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por Tati Bernardi
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Quando eu tinha 20, 22 anos, choviam homens querendo namorar comigo. Eu era uma menininha perdida, com um Corsinha todo batido, semivirgem e com medo de ir para a praia aos finais de semana e deixar minha mãe sozinha. Choviam homens. E homens interessantes, juro.
Aí agora, com quase 30, moro sozinha, ganho bem, me tornei loira, aprendi a fazer coisas legais como torta de palmito e striptease e... nada. Os caras até se apaixonam por mim, se declaram, coisa e tal, mas nada de me levar ao cinema de mãos dadas. Eu, meu guarda-roupas fashion, meus livros publicados e meu apê moderno vivemos sozinhos. Que é que eu tinha com 20 anos que não tenho mais? Não, não era um corpo melhor. Juro que tô melhor agora, que tenho como pagar o Paulão, meu personal. Também melhorei de cabelo, de pele, de sorriso, de voz. Meus amigos mais antigos tão aí pra confirmar. Sempre que me encontram, comentam: “Nossa, Tati, como você ficou melhorzinha com os anos!” Então, qual é o problema?
Será que me falta aquela pureza que eu tinha com 20 anos? Poxa, mas eu não era exatamente pura, era só bobinha. Daquele tipo mala que espera chegar ao motel pra falar pro cara: “Sabe o que é? Não tô a fim, não”. Que homem gosta disso? Hoje em dia, se não tô a fim, não dou nem bom-dia. Será que os homens sentem falta de quando eu era estagiária, com a mesadinha suada da mamãe? Pode ser. Homem é meio tosco e sempre se sente mais seguro com uma menina aprendendo o que é a vida. É mais fácil ser o rei do sexo com uma inexperiente, ou ser o rei do bom gosto gastronômico com uma garota que paga o McDonald’s com tíquete-restaurante. É, eu exigia e assustava menos naquela época. Mas será que é só isso mesmo? Descobri que não.
Passei os últimos meses encarando todo e qualquer relacionamento como estudo antropológico e desvendei o grande mistério da minha solidão: os caras têm medo, na verdade, das minhas letrinhas. Dá pra acreditar?
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PERDER O MISTÉRIO
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Eles acham que, se não forem bons o suficiente na arte do acasalamento, no dia seguinte vai ter um texto meu com o título “Tudo o que é bom dura pouco, mas dois segundos não é rápido demais?”. Eles acham que, se não forem inteligentes o suficiente durante o jantar, no dia seguinte não vão escapar à minha crítica: “O que sobra dentro da calça falta dentro do cérebro”.
Já teve cara que me pediu: “Se você for me largar, promete que me conta antes de publicar? Não queria ficar sabendo pela internet!” E teve também o clássico: “Putz, gata, você já foi logo escrevendo que adorou a noite de ontem, que está apaixonada... Ficou muito fácil, perdeu a graça”.
Tem de tudo. Do cara que não sustenta namorar uma mulher que não só tem passado (alguém com 28 anos não tem passado?) como resolveu escrever um livro sobre ele ao cara que fala: “Tanto texto bonito para outros caras e nenhunzinho pra mim? Não quero mais sair com você!” Outro dia, ouvi de um cara que tava me paquerando: “Não, não vou comprar seu livro, vai perder o mistério!”
É aí que está o problema. Eu escrevo sobre a minha vida e isso causa nos machos um misto de medo (“será que ela vai me expor?”) com quebra de magia (“ah, ela se expõe demais ali, prefiro aquela mulher muda e sempersonalidade que sempre vai ser um mistério para mim”). Entrei numa baita crise. Tirei meu site do ar e tudo. Repensei a vida, repensei a morte da bezerra, aumentei a terapia, voltei pra meditação. Mas depois cheguei a uma conclusão maravilhosa e definitiva: nenhum homem, até hoje, me deu mais prazer do que escrever. Então, que se danem eles.

sexta-feira, 29 de junho de 2007

se eu pudesse viver minha vida novamente...



"...se eu pudesse viver minha vida novamente", eu quereria vivê-la do jeito mesmo como vivi, com seus desenganos, fracassos e equívocos. Doidice? Estou onde estou pelos caminhos e descaminhos que percorri. "

Rubem Alves

quinta-feira, 28 de junho de 2007

meu significado

Taís e suas inúmeras variações, inclusive Thayze, provem originalmente do grego, significa aquela que deve ser contemplada. Jamais deixa transparecer suas fraquezas. Prefere encarar os problemas sozinha a ter de partilhar sua dor. Costuma ter boas idéias, a maioria audaciosa. Suas reservas de emergência não a deixam na mão.

quarta-feira, 27 de junho de 2007

pessoa errada

Pensando bem, em tudo o que a gente vê, e vivência, e ouve e pensa, não existe uma pessoa certa. Existe uma pessoa que, se você for parar pra pensar é, na verdade, a pessoa errada. Porque a pessoa certa faz tudo certinho. Chega na hora certa, fala as coisas certas, faz as coisas certas, mas nem sempre a gente está precisando das coisas certas. A pessoa errada tem que aparecer pra todo mundo. Porque a vida não é certa. Nada aqui é certo. O que é certo mesmo, é que temos que viver cada momento, amando, sorrindo, chorando, emocionando, pensando, agindo, querendo, conseguindo e só assim é possível chegar aquele momento do dia em que a gente diz: "Graças à Deus deu tudo certo". Quando na verdade tudo o que Ele quer é que a gente encontre a pessoa errada. Para que as coisas comecem a realmente funcionar direito pra gente.

adaptação do texto Pessoa Errada de Luis Fernando Veríssimo

terça-feira, 26 de junho de 2007

meus amigos...






Escolho meus amigos não pela pele ou outro arquétipo qualquer, mas pela pupila. Tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante. A mim não interessam os bons de espírito nem os maus de hábitos. Fico com aqueles que fazem de mim louco e santo. Deles não quero resposta, quero meu avesso. Que me tragam dúvidas e angústias e agüentem o que há de pior em mim. Para isso, só sendo louco. Quero-os santos, para que não duvidem das diferenças e peçam perdão pelas injustiças. Escolho meus amigos pela cara lavada e pela alma exposta. Não quero só o ombro ou o colo, quero também sua maior alegria. Amigo que não ri junto não sabe sofrer junto. Meus amigos são todos assim: metade bobeira, metade seriedade. Não quero risos previsíveis nem choros piedosos. Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade sua fonte de aprendizagem, mas lutam para que a fantasia não desapareça. Não quero amigos adultos nem chatos. Quero-os metade infância e outra metade velhice. Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto e velhos, para que nunca tenham pressa. Tenho amigos para saber quem eu sou. Pois os vendo loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que "normalidade" é uma ilusão imbecil e estéril.


Oscar Wilde

segunda-feira, 25 de junho de 2007

filosofia de vida

Nada mais sábio que entender que o futuro nada mais é que as consequências do passado. Portanto, o PRESENTE é o único tempo para mudar tudo, e tentar de novo. Utopia! Quem sabe? Para tanto, é minha filosofia de vida - um dia de cada vez!

Thayze Darnieri

domingo, 24 de junho de 2007

A Estrada

Você não sabe o quanto eu caminhei
Pra chegar ate aqui
Percorri milhas e milhas antes de dormir
Eu não cochilei
Os mais belos montes escalei
Nas noites escuras de frio chorei

A vida ensina e o tempo traz o tom
Pra nascer uma canção
Com a fé do dia-a-dia
Encontrar a solução
Quando bate a saudade
Eu vou pro mar
Fecho os meus olhos e sinto
Você chegar, você chegar

Você não sabe o quanto eu caminhei...


trecho da música A Estrada do Cidade Negra

sábado, 23 de junho de 2007

limites

"Os limites da minha linguagem denotam os limites do meu mundo".
Ludwing Wittgenstein

sexta-feira, 22 de junho de 2007

minha alma...


Minha alma tem o peso da luz.
Tem o peso da música.
Tem o peso da palavra nunca dita, prestes quem sabe a ser dita.
Tem o peso de uma lembrança.
Tem o peso de uma saudade.
Tem o peso de um olhar.
Pesa como pesa uma ausência.
E a lágrima que não se chorou.
Tem o imaterial peso da solidão no meio de outros.

Clarice Lispector

quinta-feira, 21 de junho de 2007

dom de iludir

Não me venha falar na malícia de toda mulher
Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é
Não me olhe como se a polícia andasse atrás de mim.
Cale a boca, e não cale na boca notícia ruim.
Você sabe explicar
Você sabe entender, tudo bem.
Você está, você é, você faz.
Você quer, você tem.
Você diz a verdade, a verdade é seu dom de iludir.
Como pode querer que a mulher vá viver sem mentir.

Caetano Veloso

quarta-feira, 20 de junho de 2007

o menino que me leva...



O desenho de nuvens é sempre um encanto diante dos olhos de quem ainda não cresceu demais. Tenho descoberto um menino escondido em meu corpo crescido. Vem quando menos imagino; e vem querendo ficar. Eu não quero esquecer tantas coisas, mas eis que vem o menino e rabisca minha agenda e me convida para uma vagabundagem inocente. A chuva caindo lá fora, e ele gritando aqui dentro de mim, pedindo pra eu retirar os sapatos, correr na chuva e colocar na enxurrada, barquinhos de papel. Esse menino não tem jeito, mas é ele que dá jeito em mim. Quando a vida fica dura demais para ser enfrentada, ele me presenteia com um jeito engraçado de ver os fatos. Aí eu rio e durmo sem os medos que me acordaram no meio da noite. A vida é assim. Quando o adulto não suporta o peso há sempre um menino escondido, pronto para nos ajudar a continuar. Eu continuo, mas continuo porque há um menino me conduzindo, não me deixando desistir. Ele me conduz pela mão.


Pe. Fábio de Melo, scj.

terça-feira, 19 de junho de 2007

todo o resto

O amor é certo, o ódio é errado e o resto é uma montanha de outros sentimentos, uma solidão gigantesca, muita confusão, desassossego, saudades cortantes, necessidade de afeto e urgências sexuais que não se adaptam às regras do bom comportamento. Há bilhetes guardados no fundo das gavetas que contariam outra versão da nossa história, caso viessem à público. Todo o resto é o que nos assombra: as escolhas não feitas, os beijos não dados, as decisões não tomadas, os mandamentos que não obedecemos, ou que obedecemos bem demais - a troco de quê fomos tão bonzinhos? Há o certo, o errado e aquilo que nos dá medo, que nos atrai, que nos sufoca, que nos entorpece. O certo é ser magro, bonito, rico e educado, o errado é ser gordo, feio, pobre e analfabeto, e o resto nada tem a ver com estes reducionismos: é nossa fome por idéias novas, é nosso rosto que se transforma com o tempo, é nossas cicatrizes de estimação, nossos erros e desilusões. Todo o resto é muito mais vasto. É nossa porra-louquice, nossa ausência de certezas, nossos silêncios inquisidores, a pureza e inocência que se mantém vivas dentro de nós mas que ninguém percebe, só porque crescemos. A maturidade é um álibi frágil. Seguimos com uma alma de criança que finge saber direitinho tudo o que deve ser feito, mas que no fundo entende muito pouco sobre as engrenagens do mundo. Todo o resto é tudo que ninguém aplaude e ninguém vaia, porque ninguém vê.

Martha Medeiros

lua adversa

Tenho fases, como a lua
Fases de andar escondida,
fases de vir pra rua...
Perdição da minha vida!
Perdição da minha vida!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha

Fases que vão e vem,
no secreto calendario
que um astrólogo arbitrario
inventou para meu uso

E roda a melancolia
seu interminavel fuso!
Não me encontro com ninguem
(tenho fases, como a lua...)
No dia de alguem ser meu
nao é dia de eu ser sua...
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu

Cecilia Meireles

domingo, 17 de junho de 2007

drops de hortelã

Eu andava meio estranho
Sem saber o que fazia, eu não sei
Andava assim, eu não sei
Se era feliz
Eu achava que faria uma canção
E a melodia, eu não sei
Andava assim, eu não sei
Se era feliz
Eu achava que faria tudo que não sei
Que amaria, não sei
Fazer desenhos com giz
Eu achava que faria uma canção nissei (não sei)
Eu me sentia, não sei
Um americano em Paris
Eu achava que tamanho tinha a ver com poesia, não sei
Mas toda a vida eu deixei
A vida entrar no nariz
Me mandei pra Curitiba
E como eu gosto dessa vida!
Ah! Eu sei
Que a paixão que eu falei
Me lembra o anis
Fiz um drops de hortelã da bala que eu te dei
Para atirar o porém, da frase que eu nunca fiz.
Oswaldo Montenegro

sábado, 16 de junho de 2007

liberdade


"Desde que me cansei de procurar, aprendi a encontrar;
Desde que o vento começou a soprar-me na face, velejo com todos os ventos."

(A Gaia Ciencia, Friedrich Nietzsche)

sexta-feira, 15 de junho de 2007

tempos

"Daqui a cinco anos você estará bem próximo de ser a mesma pessoa que é hoje, exceto por duas coisas: os livros que ler e as pessoas de quem se aproximar"
Charles Jones

quinta-feira, 14 de junho de 2007

Eu quero...

Eu quero muita coisa
Engolir o mundo
Quero ler todos os livros
Dançar todas as músicas já feitas
Conhecer a Tailândia, a Patagônia
Quero votar pra presidente
Plantar um filho
Escrever uma árvore
E ter um livro
Quero todas as alegrias, tristezas
Todas as desgraças que esperam por mim.
QUERO FAZER A DIFERENÇA

Lia (Juliana Paes), personagem do filme Mais uma vez amor

quarta-feira, 13 de junho de 2007

Saúde mental

Por Rubem Alves

Fui convidado a fazer uma preleção sobre saúde mental. Os que me convidaram supuseram que eu, na qualidade de psicanalista, deveria ser um especialista no assunto. Eu também pensei. Tanto que aceitei. Mas foi só parar para pensar para me arrepender. Percebi que nada sabia. Eu me explico.
Comecei o meu pensamento fazendo uma lista das pessoas que, do meu ponto de vista, tiveram uma vida mental rica e excitante, pessoas cujos livros e obras são alimento para minha alma. Nietzsche, Fernando Pessoa, Van Gogh, Wittgenstein, Cecília Meireles, Maiakovski. E logo me assustei. Nietzsche ficou louco. Fernando Pessoa era dado à bebida. Van Gogh se matou. Wittgenstein se alegrou ao saber que iria morrer em breve: não suportava mais viver com tanta angústia. Cecília Meireles sofria de uma suave depressão crônica. Maikovski suicidou-se. Essas eram pessoas lúcidas e profundas que continuarão a ser pão para os vivos muito depois de nós termos sido complemente esquecidos.
Mas será que tinha saúde mental? Saúde mental, essa condição em que as idéias se comportam bem, sempre iguais, previsíveis, sem surpresas, obedientes ao comando do dever, todas as coisas nos seus lugares, como soldados em ordem unida, jamais permitindo que o corpo falte ao trabalho, ou que faça algo inesperado, nem é preciso dar uma volta ao mundo num barco a vela, basta fazer o que fez a Shirley Valentine (se ainda não viu, veja o filme!) ou ter um amor proibido ou, mais perigoso que tudo isso, a coragem de pensar o que nunca pensou. Pensar é coisa muito perigosa...
Não, saúde mental elas não tinham. Eram lúcidas demais para isso. Elas sabiam que o mundo é controlado pelos loucos e idosos de gravata. Sendo donos do poder, os loucos passam a ser os protótipos da saúde mental. Claro que nenhum dos nomes que citei sobreviveria aos testes psicológicos a que teria de se submeter se fosse pedir emprego numa empresa. Por outro lado, nunca ouvi falar de político que tivesse estresse ou depressão. Andam sempre fortes em passarelas pela ruas da cidade, distribuindo sorrisos e certezas.
Sinto que meus pensamentos podem parecer pensamentos de louco e por isso apresso-me aos devidos esclarecimentos. Nós somos muito parecidos com computadores. O funcionamento dos computadores, como todo mundo sabe, requer a interação de duas partes. Uma delas se chama hardware, literalmente "equipamento duro", e a outra se denomina software, "equipamento macio". O hardware é constituído por todas as coisas sólidas com que o aparecolho é feito. O software é constituído por entidades "espirituais" - símbolos, que formam os programas e são gravados nos disquetes.
Nós também temos um hardware e um software. O hardware são os nervos do cérebro, os neurônios, tudo aquilo que compõe o sistema nervoso. O software é constituído por uma série de programas que ficam gravados na memória. Do mesmo jeito como nos computadores, o que fica na memória são símbolos, entidades levíssimas, dir-se-ia mesmo "espirituais", sendo que o programa mais importante é a linguagem.
Um computador pode enlouquecer por defeitos no hardware ou por defeito no software. Nós também. Quando o nosso hardware fica louco há que se chamar psiquiatras e neurologistas, que virão com suas poções químicas e bisturis consertar o que estragou. Quando o problema está no software, entretanto, poções e bisturis não funcionam. Não se conserta um programa com chave-de-fenda. Porque o software é feito de símbolos, somente símbolos podem entrar dentro dele. Assim, para se lidar com o software há que se fazer uso de símbolos. Por isso, quem trata das pertubações do software humano nunca se vale de recursos físicos para tal. Suas ferramentas são palavras, e eles podem ser poetas, humoristas, palhaços, escritores, gurus, amigos e até mesmo psicanalistas.
Acontece, entretanto, que esse computador que é o corpo humano, tem uma pecularidade que o diferencia dos outros: o seu "hardware", o corpo, é sensível às coisas que o seu software produz. Pois não é isso que acontece conosco? Ouvimos uma música e choramos. Lemos os poemas eróticos do Drummond e o corpo fica excitado.
Imagine um aparelho de som. Imagine que o toca-discos e acessórios, o hardware, tenha a capacidade de ouvir a música que ele toca, e de se comover. Imagine mais, que a beleza é tão grande que o hardware não a comporta, e se arrebenta de emoção! Pois foi isso que aconteceu com aquelas pessoas que citei, no princípio: a música que saía do seu software era tão bonita que o seu hardware não suportou.
Dados esses pressupostos teóricos, estamos agora em condições de oferecer uma receita que garantirá, àqueles que a seguirem à risca, saúde mental até o fim dos seus dias. Opte por um soft modesto. Evite as coisas belas e comoventes. A beleza é perigosa para o hardware. Cuidado com a música. Brahams e Mahler são especialmente contra-indicados. Já o roque pode ser tomado à vontade. Quando às leituras, evite aquelas que fazem pensar. Há uma vasta literatura especializada em impedir o pensamento. Se há livros do doutor Lair Ribeiro, por que se arriscar a ler Saramago? Os jornais têm o mesmo efeito. Devem ser lidos diariamente. Como eles publicam diariamente sempre a mesma coisa com nomes e caras diferentes, fica garantido que o nosso software pensará sempre coisas iguais. E, aos domingos, não se esqueça do Silvio Santos e do Gugu Liberato.
Seguindo esta receita você terá uma vida tranqüila, embora banal. Mas como você cultivou a insensibilidade, você não perceberá o quão banal ela é. E, ao invés de ter o fim que tiveram os senhores que mencionei, você se aposentará para, então, realizar os seus sonhos. Infelizmente, entretanto, quando chegar tal momento, você já terá se esquecido de como eles eram.

terça-feira, 12 de junho de 2007

verde e laranja

Para mim, tudo tem significado. Contudo, os mais céticos insistem nas coisas por elas mesmas, acontecem por acontecer. Entretanto, se pararmos um pouco e olharmos em volta, a verdade prevalecerá, basta apenas acrescentar sensibilidade a essa percepção. Um exemplo irrefutável e simples - o céu, simplesmente observe, respire profundamente, independente do horário, seus sentimentos naquele momento certamente serão refletidos por ele.
A cada hora do dia (e da noite!) o céu tem uma cor, essa é a forma dele de demonstrar as nuances do cotidiano, de colorir a vida, é a sua maneira de se comunicar com o mundo. As cores têm esse poder, possuem uma energia peculiar, eis Drummond que não me deixa mentir: "O mundo não é uma coleção de objetos naturais com formas repetitivas, testemunhadas pela evidência ou pela ciência; o mundo são cores. A vida não é uma série de funções da substância organizada desde a mais humilde até a de maior requinte; a vida são cores. Tudo é cor...". Se posso dizer, as minhas cores são o verde e o laranja, algo que me resume brilhantemente. Curioso como as sinto exatamente como elas, digamos, significam "oficialmente". Descrever o verde, antes de tudo, é sentir. O verde remete vigor, juventude, confiança, inteligência, tranqüilidade, paciência, amizade, esperança, músicas como You've got a friend, do James Taylor, ou a minha preferida dos últimos tempos, Deixa o verão, da Mariana Aydar. Agora o laranja, é forte, faz alusão ao movimento, alegria, euforia, dança agitada, música alta, festa, bom humor, espontaneidade, e principalmente, é a cor do pôr-do-sol, a faceta mais bela do céu.
Visualmente há quem diga que não se harmonizem, no entanto, a minha opinião se diverge do senso comum, verde e laranja são mais que harmônicos, se complementam. Reflito, sobre os fatores psicológicos, e me questiono, porque duas cores? Normalmente seria um arco-íris ou somente uma cor, e mais ainda por se tratar de cores tão ambíguas. Durante essa meditação, retomo à uma teoria antiga acerca da minha personalidade, não pela feminilidade característica da instabilidade, não me considero instável, a minha alternância de humor vai além. Creio, sinceramente, que dentro de mim não mora apenas uma mulher, e sim duas, que se revezam remontando a cada aparição uma nova mulher.

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